A cidade autônoma de Ceuta, enclave espanhol localizado no norte da África, voltou a viver momentos de tensão nesta sexta-feira (31), após uma nova tentativa em massa de entrada de migrantes vindos do Marrocos. Diante da continuidade do fluxo migratório, forças de segurança da Espanha utilizaram bombas de gás para dispersar multidões que tentavam atravessar a fronteira terrestre e acessar o território europeu.
A crise ocorre apenas um dia depois de milhares de pessoas chegarem à cidade por mar, muitas delas nadando até a costa. Nesta sexta-feira, centenas de migrantes conseguiram ultrapassar a cerca de segurança que separa Ceuta do território marroquino, enquanto viaturas da Guarda Civil foram mobilizadas para tentar conter a entrada.
Ao mesmo tempo, agentes das forças de segurança do Marrocos reforçaram a vigilância na fronteira, utilizando caminhões equipados com canhões de água para impedir que novos grupos alcançassem o lado espanhol.
Apesar da forte mobilização policial dos dois países, a pressão migratória permaneceu intensa ao longo do dia.
Fluxo recorde pressiona autoridades
Segundo o prefeito de Ceuta, cerca de 60 mil migrantes chegaram à cidade nas últimas 24 horas, transformando a região em palco de uma das maiores crises migratórias já registradas na fronteira entre a África e a Europa.
A maior parte dos recém-chegados é formada por jovens marroquinos, mas também há famílias inteiras, mulheres e crianças entre os migrantes.
O aumento do fluxo ocorre em um momento em que os centros de acolhimento já operavam próximos da capacidade máxima, consequência do crescimento contínuo das entradas ao longo da última semana.
A superlotação preocupa autoridades locais, que enfrentam dificuldades para oferecer abrigo, alimentação e atendimento médico aos milhares de recém-chegados.
Ao mesmo tempo em que novas pessoas continuavam chegando, a agência Reuters registrou cenas de migrantes desistindo da travessia e retornando ao Marrocos.
Migrante faz apelo após travessia
Entre aqueles que decidiram voltar está um homem da cidade marroquina de Tânger, que descreveu a experiência como traumática e pediu que outras pessoas não tentem fazer o mesmo percurso.
“Para ser sincero, nem sei por que vim. Estou voltando agora. É simples assim. Não como desde o almoço de ontem, embora tenha trazido algum dinheiro comigo; só para táxis e coisas do tipo. Ainda não dormi. O que fizemos não foi nada bom, pessoas morreram. Eu imploro, por favor, se você ainda não veio, não venha”.
O relato evidencia as dificuldades enfrentadas pelos migrantes durante a travessia e reforça o cenário de insegurança que marca uma das rotas migratórias mais perigosas do mundo.
Ao menos 34 pessoas morreram
O agravamento da crise também elevou o número de vítimas fatais.
De acordo com autoridades de Ceuta, pelo menos 34 pessoas morreram tentando alcançar o território espanhol. Os corpos foram encontrados nas águas da região por equipes das forças de segurança da Espanha.
A travessia entre o litoral marroquino e Ceuta é considerada extremamente arriscada devido às fortes correntes marítimas, à distância percorrida e às condições precárias enfrentadas pelos migrantes, muitos dos quais entram no mar sem equipamentos de segurança.
As autoridades continuam realizando operações de busca e monitoramento para localizar possíveis desaparecidos.
Ceuta é uma das portas de entrada para a União Europeia
Ceuta ocupa uma posição estratégica no mapa da imigração internacional.
Localizada na costa norte da África, em frente ao Estreito de Gibraltar, a cidade pertence à Espanha e integra a União Europeia, apesar de estar fisicamente separada do continente europeu.
Ao lado de Melilla, é um dos únicos territórios da União Europeia que possuem fronteira terrestre com a África.
Essa condição transforma Ceuta em um dos principais destinos para migrantes que tentam ingressar no bloco europeu em busca de melhores condições de vida.
Além da pressão migratória, a cidade também é alvo de uma disputa diplomática histórica. Embora pertença à Espanha há vários séculos, o Marrocos reivindica a soberania sobre o território, tema que frequentemente provoca atritos entre os dois governos.
Primeiro-ministro acompanha crise
Diante da gravidade da situação, o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, esteve em Ceuta nesta sexta-feira para acompanhar de perto as ações das autoridades e avaliar as medidas necessárias para enfrentar a crise.
A visita ocorreu em meio ao reforço do efetivo policial e às tentativas dos governos espanhol e marroquino de controlar a fronteira.
Enquanto isso, as autoridades seguem monitorando a região diante da possibilidade de novas tentativas de travessia, mantendo o alerta máximo em um dos pontos mais sensíveis da fronteira entre a África e a União Europeia.





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