Nos tempos do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, enquanto a Corte exilada na Guanabara tentava inventar uma nação, o Exército brasileiro enfrentava sua própria guerra fria e silenciosa. Uma disputa entre a caneta e a espada, entre o cálculo matemático e a coragem no campo de batalha. De um lado, os oficiais “científicos”, egressos da Academia Real Militar, que falavam francês e desenhavam fortificações com rigor geométrico. Do outro, os oficiais “tarifeiros”, veteranos endurecidos em dezenas de batalhas, cuja universidade era o estrado de madeira e a pólvora dos canhões. Esta divisão, que durou mais de um século, definiu não apenas promoções e prestígio, mas a própria capacidade do país de se organizar para a guerra.
Na prática, aquele Exército funcionava como uma espécie de polícia armada, sempre correndo de uma rebelião a outra, enquanto o governo central tentava, com dificuldade, impor alguma ordem administrativa. Como observou Sérgio Buarque de Holanda, não se tratava exatamente de uma força nacional, mas de um mosaico de tropas locais, improvisadas, desiguais e muitas vezes mais fiéis às províncias do que ao Rio de Janeiro.
Essa divisão entre os oficiais, que durou mais de um século, não era uma mera picuinha de quartel. Ela definiu como o Brasil se organizou para a guerra, como promoveu seus líderes e como lutou seus maiores conflitos, da Guerra do Paraguai às revoluções do início do século XX, que levaram o governo finalmente a pôr ordem na casa e contratar uma missão francesa de consultoria por valores nababescos. E foi dessa mistura que nasceu a identidade militar brasileira, marcada por rivalidades, mas também (e talvez principalmente) por personagens que se tornaram lendas.

Como era o Exército Brasileiro na primeira metade do século XIX?
O Exército Brasileiro, entre a Independência (1822) e meados do século XIX, era pequeno, mal equipado e profundamente heterogêneo. Herdado em parte das tropas portuguesas, ele se estruturava de forma precária, dependendo de recrutamentos forçados, milícias provinciais e corpos auxiliares. Não havia um sistema nacional plenamente consolidado de formação, promoção e carreira.
Segundo o historiador Sérgio Buarque de Holanda em O Brasil monárquico, o exército era “mais uma coleção de guarnições provinciais do que uma força nacional coesa”, com forte regionalismo e lealdades divididas. Sua principal função, na prática, não era defender fronteiras, mas atuar como uma força de polícia interna, constantemente mobilizada para sufocar as inúmeras revoltas e rebeliões que eclodiam de Norte a Sul do Império.
O que era a Academia Real Militar?
Em 1810 Dom João VI resolveu trazer ordem ao caso e fundou na Guanabara a Academia Real Militar, a primeira instituição de ensino superior de engenharia e ciências exatas do Brasil. Seu objetivo declarado, segundo documentos do Centro de Documentação do Exército, era formar oficiais “instruídos nas matemáticas e ciências militares” para servir à Coroa. Era uma instituição de elite, voltada para a formação de um corpo técnico-científico para o Estado, abrangendo tanto a engenharia militar quanto a civil.
O curso era rigoroso, baseado no modelo da École Polytechnique de Paris, e seus alunos, os “acadêmicos”, eram vistos como a vanguarda intelectual das Forças Armadas. A existência dessa escola criou, desde o início, uma linha divisória clara entre aqueles que possuíam esse diploma e aqueles que não possuíam, como destaca o historiador Nelson Werneck Sodré em História militar do Brasil.
Talvez por ironia do destino o prédio abriga hoje a Faculdade de Filosofia da UFRJ.
O que eram oficiais tarifeiros?
Os oficiais “tarifeiros” eram militares que ascenderam na carreira começando geralmente como praças. Homens que ascendiam na hierarquia militar pela prática, pela experiência em campanha e pelo tempo de serviço — a chamada tarimba.
A palavra é de origem árabe (tarímah) e chegou ao português através da influência moura na Península Ibérica. No contexto militar luso-brasileiro, “tarimba” passou a designar o estrado de madeira onde os soldados dormiam. Seu aprendizado era fundamentalmente prático, adquirido no calor dos combates das revoltas internas.
Eles formavam a grande maioria do oficialato do Exército Imperial, especialmente nos postos iniciais e intermediários. Não há um censo exato, mas a historiadora Ilmar Rohloff de Mattos, em O tempo Saquarema, enfatiza que o grosso da tropa e dos comandantes de menor patente era composto por esses homens de origem social mais humilde, cuja autoridade vinha da experiência direta e da coragem demonstrada em combate, e não de um diploma acadêmico.
O que eram os oficiais científicos?
Os oficiais “científicos” eram os egressos da Academia Real Militar (depois Imperial e Militar). Eles possuíam formação superior em ciências matemáticas, físicas, de engenharia e táticas militares teóricas.
Seu status era de elite intelectual dentro e fora do Exército, e muitos atuavam também como engenheiros, geógrafos e professores civis. O termo “científico” os diferenciava justamente pelo domínio de um corpo de conhecimento formal e sistematizado.
O contingente desses oficiais era muito menor. Eles constituíam uma pequena fração do oficialato, mas ocupavam posições-chave nos estados-maiores, na engenharia militar, na artilharia (considerada uma arma técnica) e na direção de instituições de ensino.
Sua influência era desproporcional ao seu número, pois representavam o projeto de um exército moderno, burocrático e centralizador para o Império, como analisa o historiador Fernando da Silva Rodrigues em obras sobre a profissionalização militar.
Quais são os maiores expoentes dos tarifeiros e científicos no Exército?
Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, é o arquétipo do oficial científico, mas que também soube ser um grande líder militar prático. Ele ingressou muito jovem na Academia Real Militar, formando-se na elite intelectual das armas.
Sua formação acadêmica, conforme destacam seus biógrafos, como Lídia Besouchet, lhe proporcionou um conhecimento profundo de estratégia, logística, engenharia de fortificações e campanha, e administração. Ele era a prova de que a ciência militar, quando aplicada por um comandante competente era fundamental para a vitória. Não à toa é considerado o Patrono do Exército Brasileiro.
Já entre os tarifeiros nenhum nome é maior do que o de Manuel Luís Osório, o Marquês do Herval e futuro marechal. Ele alistou-se como voluntário com 15 anos e ascendeu a oficial por merecimento em combate, sem sequer pisar na Academia. Sua fama e sua promoção vieram diretamente do seu desempenho bravio e liderança carismática no campo de batalha, desde as guerras no Prata, na década de 1820, até seu papel heroico na Guerra do Paraguai, onde comandou o 1º Corpo do Exército.
A imagem pública de Osório, cultivada e celebrada, era a do “general populacho”, do soldado rústico, valente e simples, mas que se comunicava diretamente com a tropa. O historiador Francisco Doratioto, em Maldita Guerra, descreve Osório como o líder militar amado pelas fileiras, em contraste com a figura mais austera e aristocrática de Caxias. Ele personificava a vertente da experiência pura, da coragem física e da ligação orgânica com o soldado brasileiro comum. Foi reconhecido como Patrono da Cavalaria.

Qual era o problema de existirem esses dois tipos de oficiais?
A coexistência entre oficiais tarifeiros e científicos gerava tensões constantes. Havia disputas por prestígio, promoções e influência política. O preconceito era mútuo: os “científicos” consideravam os “tarifeiros” incultos, brutos e taticamente limitados. Os “tarifeiros”, por sua vez, viam os “científicos” como teóricos inúteis, arrogantes e descolados da realidade do soldado e do combate. Essa divisão prejudicava a coesão, a unidade de comando e a padronização doutrinária.
Essa divisão dificultava a construção de uma doutrina unificada e atrasava a profissionalização do Exército, criando um ambiente institucional fragmentado, onde tradição e modernização frequentemente entravam em choque.
A divisão era o puro suco de barreiras à meritocracia. Um “científico” tinha status e um caminho de ascensão privilegiados, muitas vezes independente de desempenho em campanha. Já um “tarifeiro”, por mais heroico que fosse, encontrava um “teto de vidro” que dificultava sua ascensão aos mais altos postos do estado-maior, reservados aos acadêmicos, criando ressentimentos duradouros, como analisa o pesquisador Celso Castro em Os militares e a República.

É verdade que havia resistências ao Brasil ter um exército profissional?
Sim e isso só foi mudar pra valer na Guerra do Paraguai. O padre Diogo Antônio Feijó, regente do Império entre 1835 e 1837, era um ferrenho crítico da manutenção de um exército permanente brasileiro de grande porte.
Em seus discursos e escritos, como documentado nos “Anais do Parlamento Brasileiro”, Feijó argumentava que um exército formal, nos moldes europeus, era caro, desnecessário e, acima de tudo, perigoso para a frágil ordem liberal do país. Ele via os militares, especialmente os oficiais, como uma casta propensa a golpes e intervenções políticas, um “estado dentro do Estado”.
De certa forma ele viu longe. Os militares praticaram pelo menos oito experiências de subversão institucional desde o Golpe Republicano, mas isso é outra história.
A solução proposta pelo Padre Feijó era conhecida como a política da “Guarda Nacional”, ou seja, substituir o Exército por milícias locais (a Guarda Nacional), controladas pelos fazendeiros e pelas elites provinciais. Feijó acreditava que isso seria mais barato e, politicamente, mais seguro, pois descentralizaria o poder das armas.

Como se pôs fim a essa divisão?
No começo dos anos 1920 o governo brasileiro resolveu tomar uma atitude. E no dia 22 de janeiro daquele ano foi assinado pelo presidente Epitácio Pessoa o Decreto nº 13.698 que previa o fornecimento, pela França, de uma missão composta por oficiais-generais, superiores e capitães para atuar como instrutores e organizadores no Exército Brasileiro.
A Missão Militar Francesa, chefiada pelo general Maurice Gamelin foi um marco fundamental na superação definitiva dessa dicotomia. Sua principal tarefa, conforme os acordos e relatórios oficiais conservados no Arquivo Histórico do Exército, foi reorganizar e modernizar o Exército Brasileiro, implantando doutrina, regulamentos, ensino e organização inspirados no modelo francês pós-Primeira Guerra.
O investimento foi mais estrondoso do que o disparo de um canhão Krupp 628. Nada menos do que 600 mil francos-ouro, o que daria em valores de hoje algo superior à casa do bilhão de reais. A Missão teve um impacto profundo na mentalidade militar. Ao reformar a Escola Militar do Realengo (que substituiu a antiga Escola da Praia Vermelha) e criar a Escola de Estado-Maior, ela institucionalizou um sistema único de formação.

A partir dali todo oficial de carreira precisaria passar por uma formação acadêmica militar unificada e moderna. A experiência prática continuava valorizada, mas o saber científico-estratégico passou a ser obrigatório para todos, sepultando oficialmente a categoria do oficial “tarifeiro” sem instrução formal.


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