O sol a pino da tarde desta quarta-feira mais parecia um verão fora de época. Às 15h30, os termômetros da Avenida Presidente Vargas, principal via do centro do Rio, anunciavam 41°C, péssima notícia para os passageiros de ônibus que enfrentam o calorão na volta para casa.
Um deles é o camelô Pedro Paulo Lourenço, de 55 anos, que mora em Jacarepaguá, na Zona Oeste. Segundo ele, a frase que resume as viagens a bordo do 368 (Riocentro X Candelária) é o “salve-se quem puder”. Por isso, ele não larga a toalhinha, acessório para enxugar o suor, assim como uma garrafa d’água, que traz congelada de casa, para se hidratar ao longo do dia.
— O que cansa nem é o serviço, é essa viagem aí. De 100 ônibus, só 10 devem ter ar. Todo dia é essa rotina, é muito ruim — desabafa o camelô.
A linha é uma das que pertencem ao Transcarioca. Segundo dados da Secretaria municipal de Transportes, entre os quatro consórcios, é esse o que mais concentra veículos que saíram de fábrica sem o aparelho de ar-condicionado, percentualmente.
Números de agosto mostram a frota do Transcarioca com 1035 ônibus convencionais, dos quais 331 sem ar (32%); já o Consórcio Santa Cruz vem em seguida, com 226 carros sem refrigerador (22%), dos 1013 coletivos. Internorte tem 302 veículos sem ar (21% da frota, que é de 1435 veículos), e o Intersul é o com menos veículos sem o aparelho: 16%, já que são 131 veículos dos 671 cadastrados.
Mas a realidade nas ruas vai além. Mesmo com o ar instalado, não necessariamente ele irá funcionar.
— Acho que tudo de melhor é para a Zona Sul. Para a gente (do restante da cidade), fica tudo a desejar. A sensação que tenho é o que o serviço nunca foi bom, piorou nos últimos tempos. É sempre uma experiência péssima — descreve a aposentada Vera Santos, 81 anos, que aguardava um veículo da 348 (Riocentro x Candelária) para ir para Jacarepaguá. Ao encostar no ponto, no entanto, o veículo C47674 chegou de janelas abertas, apesar do aparelho de ar-condicionado instalado.
A equipe do GLOBO passou uma hora em um ponto em frente à Central do Brasil e, entre 14 ônibus das linhas 306, 341, 383, 368 e 390, apenas 5 tinham o ar-condicionado e estavam com ele em pleno funcionamento. A maior parte, 7 deles, estava com o aparelho desligado. Outros 2 veículos sequer tinham refrigerador instalado.
A viagem também pode reservar surpresas. Baratas saem dos bancos de alguns coletivos, além de uma reclamação unânime entre os passageiros: ao subir a Serra Grajaú-Jacarepaguá, os motoristas costumam desligar o ar-condicionado, quando está funcionando, porque, para que o ônibus suporte a subida íngreme.
— É tudo ao contrário. No calor, o ar é quente. No frio, o ar é gelado. Quando tem janela, fica tudo aberto, e tem que desligar até o ar pra subir a Serra. Está uma zona — reclama Henry Silva, passageiro da 390 (Curicica x Candelária), que voltava para casa, na Taquara.
Para suportar o calor, o eletricista Marcos Santos, de 27 anos, comprou uma cerveja e se sentou em um bloco de concreto para aguardar a linha 393 (Bangu x Candelária), para chegar à sua casa, em Realengo. Ele não conseguiu disfarçar a revolta, ao apontar para o veículo, com as janelas escancaradas, apesar da sinalização, até por escrito na lataria, que o ônibus tinha ar-condicionado instalado.
— Zero (ar-condicionado), principalmente nessa linha aqui. Ontem fui na Barra e sinto que o comportamento muda conforme a classe social, apesar do mesmo valor de passagem — desabafa.
A batalha para a climatização total da frota dos ônibus municipais é antiga. A promessa faz parte de uma lista de 56 metas do Plano Estratégico do município (2013-2016), apresentado pelo prefeito Eduardo Paes em abril de 2012. O documento dizia que uma das metas para o transporte público era “modernizar 100% a frota de ônibus até 2016, adotando ônibus modernos com ar-condicionado, motor traseiro, combustível verde e recursos de acessibilidade”.
Em fevereiro de 2014, virou uma obrigação, num acordo firmado com o Ministério Público e homologado pelo Judiciário. De lá para cá, a frota aumentou, mas a meta não foi atingida.
Em um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado em 2018 com a Rio Ônibus, ficou acertado que a frota de coletivos seria totalmente reformada até 2020, ganhando climatizadores, sinal de wi-fi e entradas de USB em cada assento, para que os passageiros possam acessar a internet e carregar os telefones celulares durante as viagens, como publicado no Diário Oficial do Município de 6 de agosto de 2018.
Em novembro do ano passado, a Prefeitura do Rio, por meio da Secretaria Municipal de Transportes (SMTR), criou um serviço exclusivo para reclamações sobre ônibus com ar-condicionado desligado, por meio dos canais de atendimento da Central 1746: telefone, whatsapp (21 3460-1746), aplicativo ou site. Basta o passageiro informar a data, hora e o número da linha.
Segundo a pasta, com as informações, os fiscais vão para as ruas vistoriar as linhas mais reclamadas e multar os consórcios, se forem constatadas as irregularidades. E a população poderá acompanhar o resultado dos chamados pelo número do registro.
Um decreto municipal, publicado em janeiro desse ano, prevê que a linha de ônibus que rodar com menos de 80% da frota terá redução nos auxílios e os veículos ainda serão multados com valores estipulados em R$ 563,28 para linhas que rodarem de 40% a 60% da quilometragem estipulada sem climatizadores e de R$ 1.265,55 se a linha circular com menos de 40% da frota.
Com informações do Extra online.





