Um grupo de bancos centrais de diferentes regiões do mundo divulgou, nesta terça-feira (13), um comunicado conjunto em apoio ao presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, em um movimento raro e considerado sem precedentes no sistema financeiro internacional. A iniciativa expõe a gravidade com que essas autoridades avaliam a ameaça à independência do banco central dos Estados Unidos, após a intensificação da campanha de pressão do governo de Donald Trump contra a autoridade monetária dos EUA.
O documento reúne assinaturas de dirigentes de alguns dos principais bancos centrais do mundo, incluindo Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central do Brasil, e Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu. Também endossaram o texto os chefes das autoridades monetárias do Reino Unido, Suécia, Dinamarca, Suíça, Austrália, Canadá e Coreia do Sul, além dos dirigentes do Banco de Compensações Internacionais, instituição que funciona como fórum de cooperação entre bancos centrais.
No comunicado, os signatários afirmam: “Estamos em plena solidariedade com o Sistema do Federal Reserve e com seu presidente, Jerome H. Powell”. Em seguida, o texto destaca a relevância institucional do princípio que está em jogo: “A independência dos bancos centrais é um pilar da estabilidade de preços, financeira e econômica, no interesse dos cidadãos a quem servimos. É, portanto, fundamental preservar essa independência, com pleno respeito ao Estado de Direito e à responsabilidade democrática”.
Reconhecimento internacional a Powell
Além da defesa institucional do Federal Reserve, o documento traz elogios diretos à atuação pessoal de Powell à frente da autoridade monetária dos EUA. Segundo os banqueiros centrais, “o presidente Powell tem atuado com integridade, focado em seu mandato e com um compromisso inabalável com o interesse público”.
O texto acrescenta ainda um reconhecimento explícito da trajetória do dirigente: “Para nós, ele é um colega respeitado, que goza da mais alta consideração de todos os que trabalharam com ele”. A linguagem, pouco usual em comunicações desse tipo, evidencia a preocupação coletiva com o que é visto como uma tentativa de interferência política em decisões técnicas de política monetária.
Lista de signatários do manifesto
Assinaram o comunicado:
— Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central do Brasil
–Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, em nome do Conselho do BCE
— Andrew Bailey, presidente do Banco da Inglaterra
— Erik Thedéen, presidente do Sveriges Riksbank
— Christian Kettel Thomsen, presidente do Conselho de Governadores do Danmarks Nationalbank
— Martin Schlegel, presidente do Conselho de Governança do Banco Nacional da Suíça
— Michele Bullock, presidente do Banco da Reserva da Austrália
— Tiff Macklem, presidente do Banco do Canadá
— Chang Yong Rhee, presidente do Banco da Coreia
— François Villeroy de Galhau, presidente do Conselho de Administração do Banco de Compensações Internacionais
— Pablo Hernández de Cos, diretor-geral do Banco de Compensações Internacionais
Escalada de tensão entre Fed e Casa Branca
O apoio coordenado ocorre em meio a uma escalada inédita de tensões entre a Casa Branca e o Federal Reserve. Nos últimos meses, Trump vem criticando publicamente Powell, alegando que as taxas de juros estão excessivamente altas e prejudicam o crescimento econômico. Mais recentemente, o próprio presidente do Fed adotou um tom mais duro, acusando o governo de tentar assumir o controle da política monetária dos EUA.
A reação internacional ressalta o temor de que a autonomia do banco central mais influente do mundo esteja sendo gradualmente enfraquecida. Ações coletivas desse tipo, envolvendo tantos bancos centrais, costumam ocorrer apenas em momentos de crise sistêmica, como durante a crise financeira global de 2008 ou a pandemia de Covid-19, e não para defender um dirigente específico.
Intimações e pressão judicial
O cenário se agravou após o Federal Reserve receber intimações de um grande júri do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que ameaçam resultar em uma denúncia criminal. Segundo Powell, a iniciativa está ligada ao seu depoimento ao Congresso, em junho, sobre reformas na sede do Fed.
Para o presidente do banco central dos EUA, o episódio não pode ser analisado isoladamente. Ele afirmou que a medida “deve ser vista no contexto mais amplo das ameaças e da pressão contínua do governo”. A declaração reforça a percepção, compartilhada por seus pares internacionais, de que há uma tentativa de constrangimento institucional sem precedentes recentes.
Alerta global sobre autonomia monetária
Ao se manifestarem publicamente, os bancos centrais buscam não apenas proteger Powell, mas também enviar um recado mais amplo sobre os riscos de politização da política monetária. A independência das autoridades monetárias é considerada um dos pilares do controle da inflação, da estabilidade financeira e da previsibilidade econômica global.
O gesto coletivo indica que a comunidade internacional acompanha com atenção os desdobramentos nos Estados Unidos e vê com preocupação qualquer movimento que possa comprometer a credibilidade do Federal Reserve. Para os signatários, preservar essa autonomia é uma condição essencial para a confiança dos mercados e para a proteção do interesse público em escala global.






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