Felipe Curi, ex-secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro e pré-candidato a deputado federal pelo PP, fez uma ampla avaliação sobre a segurança pública no estado e no país durante entrevista ao programa Jogo do Poder, apresentado pelo jornalista Ricardo Bruno, que vai ao ar no próximo domingo (21), às 23h20, pela Rede CNT. Ao longo da conversa, o delegado abordou desde as motivações pessoais que o levaram à carreira policial até temas como crime organizado, narcocultura, legislação penal, atuação internacional das facções criminosas e seus planos na política.
A entrevista também serviu para apresentar a visão de Curi sobre os desafios enfrentados pelas forças de segurança e as mudanças que considera necessárias para reduzir os índices de criminalidade e ampliar a proteção da população.
A tragédia que mudou sua vida
Logo no início da entrevista, Felipe Curi revelou que sua decisão de ingressar na Polícia Civil teve origem em uma tragédia familiar. Segundo ele, quando tinha 18 anos, seu pai foi vítima de um latrocínio — roubo seguido de morte — durante um assalto.
O episódio alterou completamente a realidade de sua família. Com a morte do pai, responsável pelo sustento da casa, Curi afirma que passou a enxergar a segurança pública como uma missão pessoal.
Foi essa experiência que o levou a cursar Direito com o objetivo específico de prestar concurso para delegado de polícia. Desde então, construiu uma trajetória que passou por delegacias da capital e da Baixada Fluminense, além de cargos de direção e comando dentro da corporação.
O avanço das facções e a realidade das comunidades
Um dos principais pontos da entrevista foi a atuação das facções criminosas no Rio de Janeiro.
Segundo Felipe Curi, as investigações realizadas ao longo de sua carreira demonstraram que grande parte dos crimes patrimoniais está diretamente ligada às organizações criminosas.
Ele citou, por exemplo, que a maioria dos roubos de veículos e roubos de cargas no estado é praticada por integrantes ou estruturas vinculadas às facções.
Para o delegado, a expansão desses grupos vai muito além do tráfico de drogas. Segundo sua avaliação, as facções passaram a exercer controle econômico e social sobre áreas inteiras.
Curi afirmou que moradores de comunidades são obrigados a conviver com cobranças abusivas por serviços básicos e com a imposição de regras determinadas pelos criminosos.
Na avaliação do ex-secretário, o morador da favela acaba sendo vítima em duas frentes: dentro da comunidade, pela opressão exercida pelos grupos criminosos, e fora dela, ao se tornar alvo dos crimes praticados por integrantes dessas organizações.
Operação Contenção e os resultados da gestão
Ao comentar sua passagem pela Secretaria de Polícia Civil, Felipe Curi destacou a Operação Contenção como um dos principais marcos de sua gestão.
Segundo ele, a iniciativa não se limitou às ações realizadas nos complexos do Alemão e da Penha, mas envolveu diversas fases de investigação e repressão ao crime organizado.
O delegado afirmou que o trabalho desenvolvido pelas forças de segurança resultou em recordes de apreensão de armas, drogas, munições e prisões.
Também destacou as ações voltadas à asfixia financeira das organizações criminosas.
De acordo com Curi, apenas no âmbito da Operação Contenção foram realizados pedidos de bloqueio que ultrapassam R$ 15 bilhões em bens e valores ligados a integrantes das facções.
Ele ressaltou que as investigações não se concentraram apenas em comunidades dominadas pelo tráfico, mas também alcançaram operadores financeiros, empresários e estruturas utilizadas para lavagem de dinheiro.
Entre os exemplos citados estão apreensões realizadas em mansões na Barra da Tijuca, investigações envolvendo criptomoedas e operações que atingiram movimentações financeiras em centros empresariais de São Paulo.
Criminalidade em queda, mas sem percepção da população
Outro tema levantado pelo ex-secretário foi a diferença entre os indicadores oficiais e a percepção da população.
Segundo Felipe Curi, os índices criminais registraram melhora significativa nos últimos anos, mas isso não se traduz em uma sensação efetiva de segurança para os cidadãos.
Na avaliação do delegado, esse cenário ocorre porque a atuação policial encontra limitações em um sistema legal que considera ultrapassado e excessivamente permissivo.
Ele argumentou que, mesmo com operações bem-sucedidas e números favoráveis, a população continua convivendo com o medo e a insegurança.
Segurança nacional e não apenas segurança pública
Um dos momentos mais contundentes da entrevista ocorreu quando Curi afirmou que determinadas áreas dominadas por facções criminosas já não representam apenas um problema de segurança pública.
Para ele, os confrontos enfrentados pelas polícias em regiões sob controle do crime organizado configuram um desafio de segurança nacional.
Segundo sua avaliação, o nível de armamento, organização e poder econômico das facções ultrapassa a capacidade originalmente prevista para as forças policiais.
O delegado comparou a realidade brasileira ao combate a cartéis em países da América Latina e a grupos terroristas em outras regiões do mundo.
Nesse contexto, afirmou que as polícias do Rio de Janeiro operam diariamente em cenários que classificou como verdadeiras zonas de guerra.
A entrada na política
Felipe Curi afirmou que a decisão de disputar uma vaga na Câmara dos Deputados surgiu justamente da percepção de que o combate ao crime exige mudanças legislativas.
Segundo ele, após anos atuando diretamente nas ruas, em investigações e em cargos de comando, tornou-se evidente que muitos obstáculos enfrentados pelas forças de segurança estão relacionados às leis em vigor.
Para o delegado, não basta reforçar o trabalho policial se não houver alterações no sistema jurídico.
Ele defendeu uma ampla reforma da legislação penal, processual penal e de execução penal.
Questionado sobre especulações envolvendo possíveis candidaturas ao Senado ou até ao governo do estado, Curi afirmou que, neste momento, sua única candidatura concreta é à Câmara dos Deputados.
Embora tenha reconhecido sentir-se honrado por ter o nome lembrado para outras disputas, classificou essas possibilidades como especulações.
Facções como organizações terroristas
Durante a entrevista, Felipe Curi também comentou o reconhecimento de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pelos Estados Unidos.
Segundo ele, a medida pode produzir resultados concretos especialmente na área financeira.
O delegado explicou que investigações patrimoniais e financeiras costumam ser demoradas e dependem de uma série de autorizações judiciais.
Na sua avaliação, a classificação como organização terrorista pode facilitar bloqueios internacionais e restringir a circulação de recursos utilizados pelas facções.
Curi destacou que parte significativa do dinheiro movimentado por esses grupos circula por sistemas financeiros internacionais, incluindo bancos digitais, fintechs e criptomoedas.
Ele citou ainda o exemplo dos cartéis mexicanos, que tiveram bilhões de dólares bloqueados após medidas semelhantes adotadas pelo governo americano.
A expansão internacional do Comando Vermelho
Outro ponto abordado foi a atuação internacional do Comando Vermelho.
Segundo Felipe Curi, informações de inteligência apontam que a facção já está presente em 25 estados brasileiros e possui ramificações em países da América Latina, da Europa e até dos Estados Unidos.
O delegado afirmou que o grupo vem ampliando gradualmente sua estrutura e caminha para se transformar em uma organização com características semelhantes às dos grandes cartéis internacionais.
Ele também declarou que informações produzidas pela Polícia Civil foram compartilhadas com autoridades americanas por meio de canais de cooperação internacional.
Segundo Curi, existe intercâmbio frequente de informações entre as instituições de segurança dos dois países.
TH Joias e a parceria com a Polícia Federal
O ex-secretário também falou sobre a investigação que resultou na prisão do então deputado estadual conhecido como TH Joias.
Felipe Curi lembrou que já havia prendido o acusado anos antes, quando atuava na Delegacia de Repressão a Entorpecentes.
Segundo ele, a investigação mais recente foi resultado de uma ação integrada entre a Polícia Civil e a Polícia Federal, por meio da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO).
O delegado afirmou que as duas instituições compartilharam informações e atuaram de forma coordenada na operação.
Segundo sua versão, a investigação contou com amplo trabalho de inteligência e monitoramento.
Narcocultura e bailes funk
Outro tema que gerou repercussão foi a posição de Felipe Curi sobre a chamada narcocultura.
O delegado afirmou que não combate estilos musicais específicos, mas critica conteúdos que, segundo ele, promovem ou glorificam organizações criminosas.
Na avaliação do ex-secretário, determinadas manifestações culturais são utilizadas pelas facções como instrumentos de propaganda e recrutamento.
Ele argumentou que a realidade das comunidades não pode ser reduzida a narrativas que romantizam a presença de criminosos armados.
Para Curi, é necessário diferenciar a produção artística legítima daquilo que considera exaltação ao crime organizado.
Redução da maioridade penal
Ao final da entrevista, Felipe Curi voltou a defender mudanças legislativas e reafirmou seu apoio à redução da maioridade penal.
O delegado argumentou que a medida, isoladamente, não resolveria o problema.
Segundo ele, seria necessário também ampliar o tempo máximo de internação para adolescentes envolvidos em crimes graves.
Curi defendeu que casos de homicídio e outros delitos violentos possam resultar em períodos de internação de até 15 anos.
A principal bandeira
Ao encerrar a entrevista, Felipe Curi resumiu sua principal proposta para a segurança pública.
Segundo ele, o Brasil enfrenta uma crise profunda que não será resolvida apenas com o aumento de operações policiais.
Para o delegado, é necessário reformular a legislação penal, ampliar a proteção jurídica aos agentes de segurança e criar mecanismos que aumentem a efetividade do combate ao crime organizado.
Na sua avaliação, as polícias já operam no limite de suas capacidades e precisam de respaldo institucional para enfrentar estruturas criminosas cada vez mais complexas e poderosas.






Deixe um comentário