A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos ganhou um novo componente político após a revelação de que o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro esteve em Washington na semana passada para uma série de reuniões com integrantes do governo do presidente Donald Trump, informa a colunista Bela Megale, do jornal O Globo. Os encontros ocorreram poucos dias antes de a administração estadunidense anunciar a revogação do visto da embaixadora brasileira nos EUA, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
A decisão do Departamento de Estado elevou o nível das tensões entre os dois países e levou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a discutir medidas de reciprocidade. Nos bastidores, porém, o episódio também passou a repercutir no ambiente político brasileiro por envolver um dos principais aliados internacionais da família Bolsonaro.
Eduardo Bolsonaro, que atualmente reside no estado do Texas, participou de conversas com representantes do governo estadunidense. Embora o conteúdo das reuniões não tenha sido divulgado, elas ocorreram às vésperas da adoção da medida diplomática contra a representante brasileira em Washington.
Aliados já sabiam da decisão
O ex-apresentador da Jovem Pan Paulo Figueiredo, considerado um dos principais colaboradores de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, não participou dos encontros realizados em Washington. Ainda assim, ele já havia sido informado previamente sobre a decisão do governo dos EUA de cancelar o visto da embaixadora brasileira.
Em publicação nas redes sociais, Figueiredo afirmou que integrou um grupo restrito de jornalistas convidados para uma conversa reservada com um alto funcionário do Departamento de Estado.
Segundo seu relato, foi nesse encontro que recebeu a informação de que o visto de Maria Luiza Ribeiro Viotti seria revogado.
Ainda conforme Figueiredo, o representante da administração Trump afirmou que a decisão não encerra as medidas em avaliação pela diplomacia estadunidense. De acordo com o relato, novas revogações de vistos e outras providências permanecem em análise pelo governo dos Estados Unidos.
A medida anunciada por Washington foi apresentada como uma resposta à demora do governo brasileiro em conceder o agrément — a aceitação diplomática necessária para que Daniel Perez assuma oficialmente a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.
Grupo aposta em agravamento da crise
Nos bastidores, integrantes do grupo político ligado a Eduardo Bolsonaro avaliam que o aumento da tensão diplomática poderá produzir reflexos no cenário eleitoral brasileiro.
Segundo pessoas próximas ao ex-deputado, a estratégia seria colocar o governo Lula diante de um dilema diplomático. Na avaliação desse grupo, caso o Palácio do Planalto decida conceder o agrément ao indicado do governo Trump, poderá ser acusado pelos adversários de recuar no discurso de defesa da soberania nacional.
Por outro lado, a manutenção da negativa poderia ampliar o desgaste entre os dois países, aprofundando a crise diplomática e produzindo impactos práticos para brasileiros que vivem nos Estados Unidos e dependem dos serviços prestados pela embaixada e pelos consulados brasileiros.
A avaliação dos aliados de Eduardo Bolsonaro é que qualquer desdobramento desse impasse tende a manter o tema em evidência durante o processo eleitoral brasileiro.
Impasse envolve sistema eleitoral brasileiro
Durante a reunião reservada com jornalistas, segundo o relato de Paulo Figueiredo, representantes do governo dos EUA também abordaram outro episódio recente envolvendo as relações diplomáticas entre os dois países.
O representante da gestão Trump mencionou a decisão do Itamaraty de negar vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que pretendiam viajar ao Brasil.
De acordo com o governo brasileiro, os servidores estadunidenses tinham como objetivo discutir e questionar aspectos relacionados ao sistema eleitoral brasileiro. A negativa foi interpretada por Washington como mais um elemento de atrito nas relações bilaterais.
Esse episódio passou a integrar o conjunto de acontecimentos que culminaram na revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, aprofundando uma crise que agora mobiliza tanto as chancelarias dos dois países quanto os principais atores políticos envolvidos.
Enquanto o governo brasileiro prepara uma resposta diplomática à decisão dos EUA, os desdobramentos da crise continuam sendo acompanhados de perto por aliados e adversários do governo Lula e da oposição bolsonarista, que enxergam no episódio possíveis reflexos para o ambiente político e eleitoral dos próximos meses.






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