O primeiro dia de desfiles do Grupo Especial do carnaval de São Paulo em 2026 foi marcado por enredos que combinaram identidade cultural, crítica social, espiritualidade e celebração da natureza. Dragões da Real, Acadêmicos do Tatuapé e Vai-Vai figuraram entre os principais destaques da noite, que começou na sexta-feira (13) e avançou até a manhã deste sábado (14), no Sambódromo do Anhembi.
Também passaram pela avenida Mocidade Unida da Mooca, Colorado do Brás, Rosas de Ouro e Barroca Zona Sul. As sete escolas cumpriram o tempo regulamentar de 65 minutos.
O segundo dia de apresentações ocorre entre sábado (14) e domingo (15), com Império de Casa Verde, Águia de Ouro, Mocidade Alegre, Gaviões da Fiel, Estrela do Terceiro Milênio, Tom Maior e Camisa Verde e Branco.
Abertura com protagonismo feminino
A Mocidade Unida da Mooca abriu a noite em sua estreia no Grupo Especial. A escola levou para o Anhembi um enredo em homenagem ao instituto Geledés, exaltando a trajetória e a resistência de mulheres negras.
O desfile percorreu referências da tradição iorubá à valorização de lideranças femininas, com a presença de Sueli Carneiro, Nilza Araci, Conceição Evaristo e Erika Hilton. Um dos momentos mais marcantes foi a “paradona” da bateria, quando integrantes se ajoelharam e ergueram o punho em saudação ao público. Apesar de precisar acelerar o ritmo nos minutos finais, a escola conseguiu concluir dentro do tempo.
Bruxas e cultura pop
A Colorado do Brás entrou na avenida com o enredo “A Bruxa está solta! Senhoras do saber renascem na Colorado”, explorando o imaginário da sexta-feira 13. Em seu segundo ano de retorno ao Grupo Especial, a escola apostou em uma narrativa que partiu de um clima mais sombrio e evoluiu para uma abordagem lúdica e colorida.
O terceiro carro, batizado de “A Convenção das Bruxas”, empolgou o público ao reunir personagens da cultura pop, como Úrsula, de A Pequena Sereia, a atriz Fabi Bang caracterizada como Glinda, de Wicked, além da Bruxa do 71 e da Cuca.
Amazônia e ancestralidade
A Dragões da Real apresentou pela primeira vez um enredo indígena. A escola mergulhou no universo amazônico para destacar as Icamiabas, mulheres guerreiras da tradição indígena. Logo no abre-alas, um dragão de nove metros chamou atenção, o maior já construído pela agremiação.
Os carros alegóricos representaram a floresta e suas entidades. O último trouxe uma onça gigante que se abria para revelar o rosto de uma mulher. Embora o mecanismo não tenha funcionado plenamente, o impacto visual foi mantido. Madrinha de bateria, Lexa desfilou com efeito de luz verde nas mãos.
Terra, luta e agricultura
Vice-campeã em 2025, a Acadêmicos do Tatuapé abordou a história da agricultura e os conflitos pela terra. O desfile percorreu desde a semente e a biodiversidade até episódios como Canudos e a reforma agrária popular. Também trouxe críticas ao desmatamento e às pragas que afetam a produção.
A bateria foi um dos pontos altos da apresentação. O encerramento celebrou o agricultor e a cultura da roça, com homenagem ao torcedor Thiago Arakaki, falecido em 2025, que doou seus órgãos.
Astros e imprevistos
A Rosas de Ouro, campeã do ano anterior, iniciou o desfile com desvantagem de 0,5 ponto devido à punição por atraso na entrega de documentos técnicos. A escola também precisou esperar mais de meia hora para a limpeza da pista após vazamento de óleo.
Com o enredo “Escrito nas Estrelas”, apresentou uma releitura da relação entre civilizações antigas e astrologia. A comissão de frente ficou incompleta após um integrante passar mal pouco antes da entrada. Ainda assim, a escola apostou em forte iluminação e fantasias elaboradas, com participações de Márcia Sensitiva e referência a Walter Mercado.
Cinema, indústria e identidade
O Vai-Vai levou à avenida o enredo “A Saga Vencedora de um Povo Heroico no Apogeu da Vedete da Pauliceia”, homenageando o cinema Vera Cruz, a cidade de São Bernardo do Campo e seus trabalhadores.
A escola entrou no Anhembi ao amanhecer, sob céu avermelhado, com destaque para a comissão de frente e o abre-alas dedicado à sétima arte. O desfile retratou linhas de montagem, operários e lutas sindicais, encerrando com alegoria que representava a paisagem urbana do ABC Paulista.
Axé e espiritualidade
Encerrando a primeira noite, a Barroca Zona Sul homenageou Oxum, orixá das águas doces, da fertilidade e do amor. Após escapar do rebaixamento em 2025, quando terminou em 12º lugar, a escola apostou na força simbólica e estética da religiosidade afro-brasileira.
Predominaram figurinos dourados, tecidos fluidos e elementos aquáticos, reforçando a proposta de “banhar” o Anhembi de axé. A paleta de cores e o impacto visual marcaram a apresentação que encerrou a maratona de desfiles.






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