A família das primas Emily e Rebecca se posicionou sobre o vídeo em 3D produzido por peritos do Projeto Mirante, que indica possível tiro da PM na ação que matou as meninas em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, em dezembro de 2020. As imagens podem dar novos contornos ao caso.

O material embasou uma ação da Defensoria Pública junto ao Tribunal de Justiça do Rio com pedido de indenização ao Estado do Rio por danos morais e materiais sofridos pelos parentes das vítimas, que brincavam no quintal quando foram baleadas. Emily Victoria dos Santos tinha 4 anos. Rebecca Beatriz Rodrigues Santos, 7. Agora, a Procuradoria Geral do Estado (PGE) tem até o dia 27 de outubro para contestar a ação, que pode representar um alento aos familiares.

“Todo dia, eu lembro delas. É uma dor que não passa. Ficou aquele sentimento de indignação. A perícia mostrou o que a gente já sabia. A sociedade acha que quem mora na favela não tem direito a nada. Sempre falei e não deixo de repetir: o que a gente quer é Justiça”.
Lidia da Silva Moreira Santos, avó de Rebecca e tia de Emily

A (PGE) diz ter sido notificada e precisará apresentar contestação até 27 de outubro, segundo determinação do TJ.

Vídeo 3D mostra onde meninas foram atingidas | Crédito: Reprodução de vídeo

O material que indicava a viatura passando “em baixa velocidade” pela Avenida Gomes Freire ao cruzar pela Rua Mário Paulino, onde as vítimas foram atingidas, já havia sido usado pela Defensoria Pública para entrar com pedido de reabertura no processo que inocentou os policiais, em dezembro de 2024. Mas a solicitação foi rejeitada pelo MP.

“Os policiais atiraram e foram embora. Mas, infelizmente, a Justiça inocentou eles”, criticou Lidia da Silva Moreira Santos, 56, avó de Rebecca e tia de Emily.

Procurado pela Agenda do Poder, o Ministério Público disse que uma eventual decisão de reabertura do processo depende do TJ.

Laudo detalha ação no momento do crime | Crédito: Reprodução

Como família lida com a tragédia

Lídia se tornou uma espécie de porta-voz da família após a tragédia. E acabou pagando um preço por isso. Ela dizia se sentir “vigiada” pelos policiais.

“Toda hora, a polícia entrava na rua onde a gente morava. E, por onde eu passava, sempre tinha um PM me encarando. Decidi sair da favela logo em seguida porque fiquei com medo que fizessem uma covardia comigo”, disse em entrevista à Agenda do Poder. A mãe de Lídia e matriarca da família morreu aos 73 anos vítima de um infarto um ano depois da tragédia. 

“A Emily e a Rebecca ficavam o dia inteiro na casa dela. Depois que morreram, ela dizia: ‘É muito triste olhar para o portão da minha casa e lembrar que perdi dois anjinhos aqui’”, salienta ela, que ainda relembra a dor e revolta diária entre parentes.

“Elas eram crianças felizes, e estavam sempre brincando. Como as pessoas que deveriam nos proteger fazem um negócio desses?”

Lídia destaca que a família ainda luta para lidar com a tragédia, que ocorreu há quase cinco anos. “A gente não gosta de comentar. Quando alguém na família fala disso, já quer chorar, porque é muito dolorido”.

Quais as dez conclusões da reconstrução em 3D

  • 1) Um único disparo atingiu as duas meninas – O projétil atravessou o osso frontal da cabeça de Emily e se alojando no tórax de Rebecca.
  • 2) Conclusão contesta a perícia da Polícia Civil – O laudo oficial indica que a lesão de saída estaria na parte de trás da cabeça de Emily, alterando a análise do trajeto do projétil.
  • 3) Só os PMs foram vistos com armas na cena do crime – Não foram verificadas evidências e testemunhos que indiquem a presença de pessoas armadas além dos agentes.
  • 4) Crianças estavam de frente para a rua onde passou a viatura – Ao contrário do que diz a perícia, o Projeto Mirante afirma que as crianças estavam de frente para a avenida Gomes Freire, por onde passou a viatura da PM.
  • 5) Flash de luz de dentro do carro da PM – Uma testemunha disse que estava em frente à casa da vizinha onde as crianças brincavam quando ouviu o disparo e viu o flash.
  • 6) Viatura da PM em baixa velocidade na cena do crime – Veículo trafegava pela avenida Gomes Freire e cruzou a Rua Mário Paulino, onde as crianças foram atingidas.
  • 7) As crianças estavam a 52 m da avenida Gomes Freire – Foi por onde passou o carro dos policiais.
  • 8) Viatura em baixa velocidade – O veículo passou pela rua onde as crianças foram baleadas por volta das 20h44 de 4 de dezembro de 2020.
  • 9) GPS desmente versão dos policiais – Eles afirmaram terem encerrado as diligências ao chegar em uma UPP. Mas o veículo seguiu novamente em direção ao local onde as meninas foram mortas. 
  • 10) Parada e novo deslocamento à cena do crime – Depois de parar por 44 minutos, o veículo voltou ao local do crime às 23h26 em baixíssima velocidade, que variou de 17km/h a 23km/h.

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