O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, terá que pagar US$ 83,3 milhões (cerca de R$ 412 milhões) de indenização à escritora E. Jean Carroll, por difamá-la publicamente desde que ela o acusou pela primeira vez em 2019 de estuprá-la em uma loja de departamentos na década de 1990.
O veredicto do júri de Nova York nesta sexta-feira (26) ocorre em meio a uma série de casos civis e criminais enfrentados por Trump, que busca retornar à Casa Branca nas eleições presidenciais de novembro. O republicano, que chamou a decisão de “ridícula”, já afirmou que recorrerá do caso na Justiça.
“Absolutamente ridículo! Discordo totalmente de ambos os veredictos e irei apelar de toda essa caça às bruxas dirigida por [Joe] Biden focada em mim e no Partido Republicano. Nosso sistema jurídico está fora de controle e sendo usado como uma arma política”, postou Trump, de 77 anos, em sua rede social Truth Social.
Carroll, 80 anos, testemunhou que as repetidas provocações e insultos de Trump mobilizaram muitos de seus apoiadores, levando a uma onda de ataques na internet que a assustaram e “destruíram” sua reputação como colunista da revista Elle.
— Fui atacada no Twitter — disse Carroll ao júri. — Fui atacada no Facebook. Eu estava vivendo em um novo universo.
Em 2019, Carroll publicou em um livro de memórias a acusação de que Trump a havia estuprado em uma loja de luxo de Nova York, em algum momento entre 1995 e 1996. Na ocasião, Trump chamou Carroll de “doente mental” e incitou seus apoiadores contra ela. Em maio do ano passado, em um outro caso civil, um júri considerou o ex-presidente culpado por abuso sexual, e ainda o condenou por comentários difamatórios feitos à vítima.
O valor da indenização inclui US$ 65 milhões (cerca de R$ 320 milhões) em danos punitivos por Trump ter agido maliciosamente ao fazer as declarações sobre Carroll, concluiu o júri após quase três horas de deliberações. Também se somam ao montante final US$ 11 milhões (cerca de R$ 55 milhões) por reparação de danos à reputação e US$ 7,3 milhões de compensação financeira. O total é mais de oito vezes o valor que os advogados da escritora pediram inicialmente no processo.
— A lei permite que se leve em consideração a riqueza de Donald Trump, bem como sua conduta maliciosa e rancorosa contínua ao fazer essa avaliação — disse a advogada de Carroll, Roberta Kaplan, durante o julgamento. — Agora é a hora de fazê-lo pagar por isso, e agora é a hora de fazê-lo pagar caro.
Os advogados do republicano, por sua vez, tentaram retratar Carroll como uma escritora “ávida por fama” que estava tentando elevar um perfil em declínio quando escreveu em seu livro sobre um encontro ocorrido mais de duas décadas antes, que ela disse tê-la traumatizado por anos.
A advogada de Trump, Alina Habba, argumentou que a reputação de Carroll, “longe de ser prejudicada”, havia melhorado como resultado das declarações do presidente, acrescentando que os advogados da escritora não haviam provado que as ameaças e declarações difamatórias que a escritora recebeu de terceiros foram em resposta às declarações de Trump.
— Sem causalidade — defendeu Habba.— O presidente Trump não tem controle sobre os pensamentos e sentimentos dos usuários de redes sociais.
Durante o julgamento, o ex-presidente alternou entre paradas de campanha em New Hampshire, onde venceu as primárias presidenciais republicanas na terça-feira, e comparecimentos ao tribunal de Manhattan, usando-os como uma oportunidade para alcançar eleitores e alegar ser vítima de uma conspiração política.
O processo civil em Nova York é apenas uma pequena parte dos muitos problemas que o provável candidato republicano à Presidência enfrenta na Justiça.
Ao todo, ele tem 91 acusações federais e estaduais em quatro processos contra si, incluindo conspiração para obstrução de Justiça, para falsificação de documentos e para obstrução de um procedimento legal. Quase todas as acusações estão ligadas à tentativa frustrada de reverter a derrota para Biden nas eleições de 2020, além do discurso negacionista que alimentou teorias da conspiração e levou à invasão do Capitólio, em 2021.
Trump tem usado os processos para criar uma narrativa de que está sendo perseguido pelo “Estado profundo” (Deep state), e que tudo não passa uma tentativa de impedir a vitória que, como vem alegando em discursos, será certa contra Biden.
Sua principal estratégia de defesa é uma tese de que ele teria imunidade presidencial total, ou seja, não pode ser processado por atos ocorridos enquanto ele ocupava a Casa Branca.
Em dezembro, ele sofreu uma derrota depois que um tribunal de Washington invalidou o argumento em um caso relacionado às acusações civis ligadas ao ataque ao Capitólio. Os advogados dele aguardam uma decisão de uma corte de apelações, mas o caso deve parar na Suprema Corte, que rejeitou um pedido do Departamento de Justiça para analisar a questão de forma antecipada.
Em outra frente, o ex-presidente tenta reverter uma decisão da Justiça do Colorado, que o considerou inelegível no estado por se envolver em “participação aberta, voluntária e direta” em uma insurreição, o que viola a 14ª Emenda à Constituição dos EUA. Uma decisão similar foi adotada no Maine, mas temporariamente suspensa até a palavra final da Suprema Corte, que não tem data para acontecer (Com New York Times).
Com informações de O Globo.





