Do samba ao funk, Zona Portuária se consolida como novo ponto de encontro da cidade

Desde a demolição da Perimetral até a recente ocupação pelos novos moradores do Porto Maravilha, dinâmica dos bairros da Saúde, Santo Cristo e Gamboa mudou durante o dia e à noite

Desde a demolição da Perimetral, iniciada em 2013, até a recente ocupação pelos novos moradores do Porto Maravilha, a dinâmica dos bairros da Saúde, Santo Cristo e Gamboa mudou completamente, tanto durante o dia quanto à noite. Atualmente, além do tradicional samba da Pedra do Sal, a região se consolidou como um ponto de encontro noturno para diversas tribos, reunindo estilos que vão do samba ao funk, passando pelo charme e pela música eletrônica.

No Largo de São Francisco da Prainha, localizado no bairro da Saúde, a animação começa cedo. Já nas tardes de sexta-feira, os bares começam a receber os primeiros frequentadores, prontos para iniciar o happy hour. À medida que a noite avança, por volta das 20h, o local ganha ainda mais vida e fica repleto de gente. Há cerca de duas semanas, por exemplo, um grupo de colegas de trabalho comemorava o aniversário de 26 anos da advogada Raiane Soares. A celebração foi embalada pelo som animado do funk, que contagiava a todos.

No Largo de São Francisco da Prainha, na Saúde, a animação começa cedo. No meio da tarde de sexta-feira, os bares recebem os primeiros frequentadores, preparadíssimos para o happy hour. Por volta das 20h, o lugar já fervilha de gente. Há duas semanas, um grupo de colegas de trabalho comemorava o aniversário de 26 anos da advogada Raiane Soares, que se acabava ao som de funk.

— Estamos aqui desde as 14h. É um lugar que tem música, samba, funk, cervejinha gelada e caipirinha boa e barata. É muito democrático. E a gente acaba conhecendo pessoas muito aleatórias — disse Raiane.

A partir do Largo, chega-se à Rua Tia Ciata. Batizada em homenagem à matriarca do samba, a via acaba em outro reduto concorrido. A Pedra do Sal não é difícil de achar: basta seguir as luzes de LED de dezenas de barraquinhas de drinques e lanches, uma ao lado da outra, até a roda de samba. Por ali, os bares ficam vazios — mas só até que o samba acabe.

— Essa é a terceira etapa do rolé, que só acaba de madrugada. Aqui a gente treina inglês, espanhol, com aquele básico que a gente aprende na escola. Tem muito gringo. Depois do samba, vai todo mundo pros inferninhos dos bares aqui em volta, e a gente “quebra tudo” no funk — resumiu Laryssa.

Uma caipirinha rosa pink, de maracujá com pitaya, foi a escolha da operadora de loja Laryssa Gabrielle Azevedo, de 28 anos. Ela e a amiga, de Magé, na Baixada Fluminense, começaram o dia na Praia da Barra, emendaram com um passeio na Ilha da Gigoia e depois caíram no samba da Pedra do Sal. Guerreiras, elas voltam para casa fazendo escalas: pegam carro de aplicativo até a Central, van para Piabetá às 4h40, e, de lá, o ônibus Duque de Caxias-Magé.

Tem gente que veio de ainda mais longe. Foi o caso das amigas de Maringá, no Paraná, que estavam no Rio para participar do Rei e Rainha do Mar, em Copacabana, no primeiro fim de semana de dezembro. Antes da prova, elas aproveitaram o tempo livre para conhecer o samba da Pedra.

— Está calor e aqui é aberto, tem um público bem diversificado. Eu faço aula de gafieira, e a minha amiga canta samba. Ela procurou lugares que tinham um samba legal para a gente curtir — contou a aposentada Rosemari Rodrigues, de 63 anos.

Perto dali, por volta das 21h, no bairro do Santo Cristo, uma fila de gente subia a Rua Capiberibe em direção ao número 27. O lugar, um casarão antigo, de 1936, no Morro do Pinto, onde eram fundidas esculturas de bronze, hoje abriga um centro cultural, com pista de baile charme de um lado, e palco para rodas de samba do outro.

Antiga fundição: Novo centro cultural no Morro do Pinto tem baile charme de um lado e samba de outro — Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo
Antiga fundição: Novo centro cultural no Morro do Pinto tem baile charme de um lado e samba de outro — Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo

No Capiberibe 27, três terraços e uma varanda oferecem vista para o Morro do Pinto e para os novos prédios do Porto Maravilha. Alguns cômodos ainda lembram o passado, com peças de esculturas e ferramentas antigas de fundição. Em um salão funciona uma galeria de arte, ao lado de uma loja de roupas e um estúdio de tatuagem — que recebe clientes em qualquer horário.

O endereço já conquista o público na entrada: o lounge a céu aberto, com uma fonte e um pequeno espelho d’água, é como um quintal, com direito a cadeira de praia e banquinho. Um bar logo ali pertinho garante mais comodidade. Subindo o primeiro andar, o passinho do baile charme é irresistível, e qualquer boa alma dançante já chega balançando, nem que seja a cabeça. No calor, um ventilador de piso segura a onda do suor.

Figurinha marcada no baile charme carioca, Paulo Cesar Negro, o PC Dançarino, aparece por lá, com sua inconfundível boina, guiando a coreografia.

— É bom demais. O pessoal chega junto no baile. Como quem vai para a pista do samba passa pela pista do charme, o público acaba parando para dançar — explicou ele, que acompanhou de perto a expansão da noite na Região Portuária: — Virou um point. Tem gente bonita, liberdade de expressão, clima de descontração. É muito a cultura do Rio, e, ao mesmo tempo, um reduto global. Todo mundo quer dançar, bater papo.

Muita gente dispensou sapato fechado e lançou o chinelo de dedo para compor o look da noite. De morador a turista, passando por alguns mais arrumadinhos, não é incomum ver rapazes sem camisa.

— Estou sempre assim, de chinelo, bermuda, camisa, cordãozinho, tatuagem. Padrão, “né segredo” — disse o analista Lucas Ribeiro, de 22 anos, recorrendo à gíria muito comum no meio do funk carioca.

Como ele, dois turistas franceses também exibiam chinelos:

— Está muito quente hoje, estamos de férias. Amei isso de sair de chinelo, é muito gostoso — entrega a professora de francês Isabel Simao, de 26 anos.

Os ‘bears’ cariocas

Ficar sem camisa também é liberado na festa Woof, que teve um especial de Natal no segundo fim de semana de dezembro, na London Underground, na Rua Sacadura Cabral. O evento é voltado para os “bears” (ursos, na tradução do inglês), uma subcultura dentro da comunidade gay, da qual fazem parte homens mais corpulentos, peludos e de barba. Vestindo calça, suspensório de couro e diversos assessórios, um deles era a sensação da pista.

— Isso aqui é a minha Las Vegas, é onde o público vai para extravasar, curtir sem preconceito, sem amarras. A gente se solta, vive a nossa essência e se diverte muito. E é aquilo: o que acontece em Vegas, fica em Vegas — disse ele, que preferiu não se identificar.

Pisca-pisca no ritmo do batidão: A boate de música eletrônica D-Edge: óculos escuros para se proteger da profusão de LED — Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo
Pisca-pisca no ritmo do batidão: A boate de música eletrônica D-Edge: óculos escuros para se proteger da profusão de LED — Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo

Na outra ponta do bairro, perto do Armazém da Utopia, outra tribo enchia a casa D-Edge Rio, uma das principais boates de música eletrônica da cidade. Boa parte do público, entre 20 e 40 anos, usava um mesmo acessório: óculos escuros. “Para proteger os olhos das luzes”, explicou um dos frequentadores. As paredes e o teto são, de ponta a ponta, iluminados por linhas de LED que mudam de cor conforme o ritmo da música. Para dar um “up” na adrenalina, uma parte do piso é transparente e dá para ver o andar de baixo.

— A gente adora techno. No Chile, frequentamos muito essas festas, mas essa aqui é uma das melhores que já fui — comentou empolgada a turista chilena Ana Muñoz, de 23 anos.

E ainda tem a saideira: no Porto ela fica especificamente na Rua Pedro Ernesto, 5. No melhor estilo de boteco com mesa na calçada e cerveja de garrafa, o Bar Delas tem o adicional da pista de dança com DJ até 6h da manhã. O público tem um quê de alternativo, e é bem diverso. É só chegar.

Com informações de O Globo.

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