Num estado onde o sol é democrático, as praias são Patrimônio Mundial e o cidadão médio considera “camping” uma palavra de seis letras capaz de causar urticária, centenas de aventureiros estão trocando o ar-condicionado pelo canto dos pássaros. E voltando amarradões! O Rio de Janeiro abriga dezenas de opções de acampamento espalhadas por serras nevoentas, ilhas proibidas para carros e vilas caiçaras que a estrada asfaltada ainda não descobriu. Os endereços desta relação provam que dormir numa barraca, longe do conforto de um quarto de hotel com frigobar e serviço de quarto, pode ser a melhor decisão que um ser humano consciente tome num feriado prolongado.
A arte de acampar vem da antiguidade, quando os romanos já montavam tendas com eficiência militar impressionante para a época, mas longe de qualquer glamour turístico. No Brasil, o camping só aportou em 1910, pelas mãos da Marinha de Guerra, que trouxe o escotismo, mas a prática levou décadas para se tornar lazer de verdade.
Claro, ninguém é obrigado a gostar. A proposta aqui não é convencer os amantes do room service de que a vida debaixo da lona é superior. É mapear os lugares onde acampar é uma experiência que pode surpreender até o mais avesso ao mosquito e ao chuveiro às vezes frio e sem pressão. Porque, no fim das contas, como canta Gilberto Gil: “quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou”.

O homem que odiava paredes
Se existe um patrono não oficial da arte de dormir mal por escolha própria, ele atende pelo nome de Thomas Hiram Holding, um alfaiate inglês nascido em 1844. Ele escreveu a primeira edição de The Camper’s Handbook, em 1908, tirando o camping do universo dos soldados e o colocando na frente de uma bicicleta e uma barraca pequena. Holding é ainda o fundador da Association of Cycle Campers, que até hoje continua em plena atividade com o nome de Camping and Caravanning Club.
Em 1897, aos 52 anos, Holding projetou uma barraca ultraleve, pensada para ser transportada em uma bicicleta, e partiu em uma viagem de três dias pela Irlanda do Sul com o filho e dois amigos. O relato dessa jornada, publicado como Cycle and Camp in Connemara, ajudou a popularizar o “cycle‑camping” e mostrou que explorar o mundo com pouca bagagem era possível para qualquer um com disposição e um fogareiro.
Em 1910, a Marinha de Guerra introduziu o escotismo no país, trazendo consigo a prática de acampar como atividade educacional para jovens. Em 1966 foi fundado no Rio o Camping Clube do Brasil (CCB). Inspirado nos modelos europeus, o clube buscava oferecer infraestrutura mínima para que a classe média brasileira pudesse fingir que era nômade sem perder o acesso a um chuveiro quente.
Durante as décadas de 70 e 80, o camping viveu sua era de ouro em terras brasileiras, impulsionado pela popularização do Fusca e da Brasília, veículos que carregavam famílias inteiras e suas cozinhas portáteis para as praias do litoral do Rio de Janeiro. O que antes era uma aventura de pioneiros, ou exercício militar, tornou-se um rito de passagem para jovens em busca de liberdade, frequentemente acompanhada de um violão desafinado, incensos de sândalo e muita citronela.
O Retiro Arbóreo de Guapimirim
Guapimirim não é exatamente um destino que alguém escolhe por impulso. É preciso querer subir a BR-116 no sentido Teresópolis e chegar ao km 98, onde o Parque Nacional da Serra dos Órgãos abriga o Camping Araçari, que oferece uma estrutura aconchegante para até 20 pessoas, com um ambiente acolhedor e integrado à natureza.
O espaço oferece área delimitada para barracas, mesas e bancos de cimento, além de banheiros e um local para lavar louças, tudo em atmosfera de simplicidade que faz o acampante se sentir menos “turista” e mais figurante de documentário sobre Mata Atlântica do Discovery Channel.
As atrações nas redondezas incluem o Poço Verde, principal atrativo natural do local, um conjunto de cachoeiras, corredeiras, poços artificiais e naturais do nada modesto Rio Soberbo, ótimo para banho, localizado a 20 minutos de caminhada do Centro de Visitantes. Dica de ouro: reserve com antecedência diretamente pelo sistema online do ICMBio, chegue cedo nos feriados e leve repelente nível militar. A mata pode ser linda, mas nem toda ela é bem-vinda dentro da barraca.

O gelo elegante de Visconde de Mauá
Em Visconde de Mauá, o Camping Barragens (aka Barragens Camping) oferece a experiência de acampar em uma altitude onde o termo “fresquinho” é usado para descrever temperaturas que fariam um pinguim buscar casaco. Localizado em Maringá, o distrito mais badalado da região, ele tem a elegância discreta de quem não precisa anunciar muito que é bom.
São 14 mil metros quadrados de área totalmente arborizada, com portaria e cantina. Uma das características peculiares do “Barragens Camping” são as áreas individualizadas para cada barraca. A infraestrutura inclui banheiros individuais masculino e feminino com água quente, área para lavar louças e roupas, cantina, quadra de vôlei, pontos de luz 220 volts e gerador para iluminação em caso de falta de energia. Internet aqui é um suspiro.
O destaque vai para as barragens naturais formadas pelo rio Preto que corta a propriedade, proporcionando hidromassagens naturais gratuitas. É o lugar perfeito para casais que querem testar a resistência entre comer truta gourmet e voltar humildemente para o miojo da barraca. Importante: os donos de vez em quando fecham o camping sabe-se lá por quê. Então confira antes a disponibilidade.

O pulsar das águas no Sana
O Camping Beira Rio é, como o nome sugere sem qualquer ambiguidade, de frente para o rio Sana, e funciona como um dos endereços mais estruturados da região. O espaço conta com estacionamento, WiFi, vários pontos de luz espalhados por toda a extensão do acampamento, banheiros masculino e feminino com água quente, trocador de fraldas, pontos de água, área bem arborizada, cozinha com fogão a lenha e duas geladeiras.
O barato aqui são os rios e cachoeiras que circundam o camping. A Cachoeira do Escorrega, por exemplo, vive à altura do nome e já deixou muitos turistas com o traseiro arroxeado. Para quem prefere atividades mais contemplativas, há trilhas que levam a mirantes e piscinas naturais, tudo envolto pela paz característica do Sana. Que, vale o alerta, some nos feriadões, quando a região, apesar da atmosfera hippie controlada, fica lotada de visitantes tão barulhentos quanto uma escola de samba em ensaio técnico.

Sal e areia em Arraial do Cabo
Apesar deste nome de bloco carnavalesco o Camping Curió do Bico Doce, em Arraial do Cabo, é daquelas raridades que consegue aliar a badalação de um dos points mais procurados do estado com o sossego de um camping bem estruturado. Localizado a apenas 300 metros da Praia do Pontal, uma das mais famosas da cidade, o camping oferece uma área gramada e arborizada para até 150 barracas, além de vagas para motorhomes e trailers.
O Bico Doce tem pontos de energia por toda a extensão, Wi‑Fi, cozinha coletiva com fogões e geladeiras, banheiros com chuveiros de água quente (limpos com rigor várias vezes ao dia, um detalhe que não é pouca coisa) e até chuveirões externos para aquele banho pós-praia sem arrastar areia para dentro da barraca. Há também sala de TV com sofás e puffs, para os dias em que a preguiça de encarar o mar fala mais alto.
Um diferencial do Curió é a parceria com uma rede de estabelecimentos locais: restaurantes, passeios de barco, buggy, trilhas com guia credenciado, mergulho com cilindro e sessões de fotos nas praias mais instagramáveis da cidade, tudo com desconto especial para os campistas.
Ruralidade em Paulo de Frontin
Se a sua ideia de aventura envolve pastos verdes e o cheiro de café coado no fogão a lenha, a Fazenda Boa Vista dos Leões, em Engenheiro Paulo de Frontin, é o seu lugar. Este camping opera dentro de uma fazenda histórica, oferecendo uma experiência única, que os guias descrevem como um mergulho na vida rural, longe das hordas de turistas litorâneos.
A fazenda oferece cozinha coletiva com fogão, geladeira, talheres e panelas, chuveiro quente e ducha direto da nascente para quem prefere o banho gelado como ritual de coragem. O diferencial aqui é a integração completa com a vida rural. É possível fazer trilhas ecológicas dentro da própria fazenda, nadar e pescar no lago, tomar banho de cachoeira e se deslumbrar com a vista descrita pelos próprios proprietários como “alucinante”, tudo isso com ar puro e água fresca que nasce dentro da propriedade.

O portal do Abraão na Ilha Grande
Chegar ao Camping Nas Ondas, na Vila do Abraão, exige uma viagem de barco e uma caminhada, o que já serve como filtro para os menos motivados. De frente para o mar, o estabelecimento é um clássico da Ilha Grande, oferecendo uma infraestrutura que equilibra bem o rústico com as necessidades básicas do turista moderno.
O camping oferece cozinha, coberturas, redes, Wi-Fi, banho quente e bar no próprio interior do espaço. Mas o destaque absoluto é acordar com a vista da enseada e o som dos barcos pesqueiros saindo para o trabalho. As instalações contam com áreas de sombra e segurança reforçada, permitindo que você explore as praias vizinhas, como Lopes Mendes, sem levar sua barraca nas costas.
A dica universal para Ilha Grande continua válida: leve dinheiro em espécie e organize deslocamentos de barco com antecedência. A natureza é exuberante, mas o caixa eletrônico mais próximo está em outra dimensão.
O Refúgio de Jaconé em Maricá
Maricá vem se destacando por razões diversas nos últimos anos, mas o Camping Mandala Praia, prefere a fama mais antiga e mais honesta: a de estar de frente para o mar de Itaipuaçu, aos pés da Pedra do Elefante, com 3.000 metros quadrados de área beira-praia.
Localizado literalmente do outro lado da rua da praia de Itaipuaçu, o camping oferece energia elétrica 110 V para alguns pontos de barraca, wi‑fi, chuveiros elétricos, cozinha comunitária, churrasqueiras ao ar livre, piscina e chuveirão de água salgada em uma área de camping bem delimitada.
O destaque é a proximidade com a praia de Jaconé, famosa por suas ondas fortes e pelos pescadores locais. É o lugar perfeito para ler aquele livro que você comprou há dois anos e nunca abriu, desde que os mosquitos permitam a concentração. Hang loose, brow!

O esconderijo de Paraty Mirim
Para quem acha que Paraty ficou “comercial demais”, o Camping Piratas Cabanas é o antídoto necessário. Inaugurado em outubro de 2020, fica a apenas 300 metros da Praia de Paraty Mirim. Conta com área gramada, cinco duchas com vestiários individuais sendo duas com água quente, três sanitários femininos, dois masculinos e espaço de convivência com geladeira, fogão e pia.
O diferencial que transforma o Piratas num ponto de parada e não apenas de passagem é o bar/café integrado na entrada do estabelecimento. Das 7h30 às 10h30 ele serve um variado café da manhã para os campistas e o público em geral. À noite são servidos hambúrgueres artesanais, porções, sucos, caipirinhas, cerveja gelada e música ambiente.
Não espere grandes luxos tecnológicos, mas prepare-se para noites de céu límpido e mergulhos matinais antes que os barcos de turismo cheguem. É o refúgio ideal para quem quer desaparecer do mapa por alguns dias sem precisar de passaporte.
Conforto híbrido em Silva Jardim
Escondido na Aldeia Velha, distrito de Silva Jardim, o Camping Pousada d’Aldeia é um pacote completo para quem quer fugir do caos sem precisar encarar uma trilha de três horas. A propriedade oferece área de camping gramada, chalés individuais, piscina ao ar livre e um restaurante que serve comida caseira com ingredientes regionais.
O destaque fica por conta do charme dos chalés à beira do rio, do clima serrano e da vida selvagem ao redor. É comum avistar pássaros exóticos e, com sorte, até mesmo micos-leões-dourados, já que a região faz parte de uma área de preservação da Mata Atlântica.
A cachoeira das Andorinhas (a 10 minutos de trilha) e o complexo da Cachoeira Macharet são os passeios mais indicados. Para quem busca descanso e contato com a natureza sem grandes perrengues logísticos, a Pousada d’Aldeia é uma escolha certeira.

O épico da Praia do Sono
Acampar no Sono’s Bar (oficialmente listado como Camping Atobá Praia do Sono), na lendária Praia do Sono, dentro da Reserva Ecológica Estadual da Juatinga, é uma das experiências mais exclusivas de Paraty. Talvez porque chegar lá já seja uma aventura por si só. O acesso é feito exclusivamente por trilha ou barco, o que já garante um isolamento total da civilização e da maioria dos turistas preguiçosos.
A praia em questão é lendária por suas águas calmas e areia branca, perfeita para quem quer passar o dia boiando sem se preocupar com ondas fortes. Mas o grande destaque é o isolamento. Aqui, a falta de sinal de celular não é um defeito, mas uma funcionalidade. É o lugar para onde você vai quando quer realmente entender por que o Thomas Hiram Holding postulava que dormir no chão pode ser uma boa ideia.
À noite, o bar do camping se anima com música ao vivo e encontros de mochileiros de todo o mundo. Daí surgiu o apelido “Sono’s Bar”, o que é uma baita pegadinha, já que aqui é o último lugar onde você vai conseguir dormir cedo. A diária é mais salgada que a média dos campings desta relação, mas o cenário compensa: acordar com o sol nascendo atrás das montanhas e o mar batendo leve é um daqueles momentos que você guarda para sempre (e posta no Instagram com a legenda “living the dream”).


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