Vistos do alto, os balões formam um espetáculo no céu e inspiram uma liberdade almejada por quem os observa ir para longe. Carregam um gigantismo em diferentes formatos, tecidos e cores. A beleza, no entanto, se transforma em ameaça quando esses artefatos se inclinam em direção aos centros urbanos, expondo casas e edificações a acidentes. Em áreas verdes, a vegetação e a fauna viram alvos de risco a longo prazo.

Nas últimas semanas, o Rio de Janeiro registrou diversos acidentes com balões em diferentes pontos, em curto intervalo de tempo. Nos episódios mais recentes, houve queda de balão na Praia de Copacabana, no último dia 25. Já no dia 27, um balão de 20 metros desembocou na entrada da emergência e na lateral do heliponto do Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), em São Gonçalo, na Região Metropolitana.

No mesmo dia, outro caso também chamou atenção, desta vez na Floresta da Tijuca, no Alto da Boa Vista. A queda do balão, seguida de incêndio, atingiu a localidade no Morro da Anhanguera e mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros, do Instituto Chico Mendes e brigadistas do ICMBio. O fogo devastou o equivalente a três campos de futebol.

Área do Morro da Anhanguera, atingida em incêndio causado por balão | Crédito: Divulgação / ICMBio

Segundo o ICMBio, o local levará cerca de dez anos para recuperar a vegetação perdida. Os bombeiros não encontraram vestígios do artefato, o que é comum em ocorrências desse tipo. Isso porque, no momento do incêndio, os materiais utilizados na confecção do balão são inflamáveis e acabam consumidos pelo próprio fogo provocado por eles.

Quem explica é o tenente-coronel Fábio Contreiras, do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio, em entrevista à Agenda do Poder. “Muitas vezes, quando somos acionados para incêndios florestais, não é possível saber com exatidão se a ocorrência foi causada por um balão, porque o próprio fogo consome o material. Quando os agentes chegam, já foi tudo consumido”.

Os riscos, no entanto, são tratados à revelia por praticantes e turmas de baloeiros, principalmente nesta época do ano. Segundo dados da Polícia Militar levantados pela Agenda do Poder, no mês de abril, foram atendidas três ocorrências com quatro presos e três balões apreendidos.

De acordo com o Comando de Polícia Ambiental (CPAm), as principais regiões com registros de atendimento para balões são na capital, Itaboraí, Maricá e Teresópolis.

Período de soltura

Os registros recentes de soltura e acidentes com balões coincidem com o início de um período considerado mais sensível para esse tipo de ocorrência: a estiagem, que se estende até outubro e coincide com festas tradicionais.

O período é caracterizado por uma combinação de fatores: redução das chuvas e tempo mais seco, o que favorece tanto a soltura quanto a propagação de incêndios.

“A gente tem observado, principalmente nesse período que já começa a ter a estiagem, no final de abril, início de maio, vai até outubro, que coincide também com festas regionais, culturais. E, infelizmente, as pessoas associam isso ainda à cultura do balão”, afirma Contreiras.

A soltura de balões no Brasil está historicamente associada às festas juninas, tradição que chegou ao país durante o período colonial. Ao longo do tempo, a prática deixou de ser pontual e passou a envolver grupos organizados, conhecidos como turmas de baloeiros, que compartilham técnicas, linguagem própria e divisão de tarefas.

Victor Aleixo, de 35 anos, é contra a soltura dos balões pelos acidentes causados – Crédito: Sofia Miranda

Morador de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, o auxiliar administrativo Victor Aleixo, de 35 anos, acompanha a presença dos balões no céu desde a infância. Para ele, a percepção mistura admiração e preocupação.

“Ver o balão no céu a gente acha bem bonito, as bandeiras. Mas quando passa para cair na casa das pessoas, gera muito prejuízo”, afirma. Para ele, apesar do caráter estético da prática, ela deixa de fazer sentido quando o artefato perde o controle. “Não deixa de ser arte, porém é muito perigosa. No meu ponto de vista, se fere o direito do outro, não acho tão legal”, relata.

Queda

Olhando para cima e observando a gôndola de um balão, um morador de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, que preferiu não se identificar, ficou preocupado com a distância entre o equipamento e o teto onde vivia. Era a madrugada de um dia de agosto de 2019, e ele e os familiares passaram minutos fitando o objeto, na tentativa de prever onde ele cairia.

“Era de madrugada, quase umas 4h. Aí a gente vê uma nuvenzinha, sem saber onde isso vai cair. Será que vem para o nosso lado? Só que ele estava centralizado. E ficou por horas assim, de lá para cá, de lá para cá”, lembrou, em entrevista à Agenda do Poder.

Por fim, o balão caiu atingindo a casa da irmã, destruindo muros, telhados e janelas. “Ele caiu do lado da casa da minha irmã, que era atrás da minha casa. Quando aquilo caiu, fez um barulho, começou a quebrar os muros. Foi uma confusão danada, a minha irmã gritando. Aí, nisso, chegam os batedores”, recorda.

Balão de 15 metros apreendido por uma equipe de guarda- parques do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) em Petrópolis, na Região Serrana | Crédito: Divulgação / Inea

Os batedores

Para muitos, a soltura do balão se resume às etapas de produção do equipamento e ao momento em que ele atinge o céu, até desaparecer do campo de visão. Para as turmas de baloeiros, no entanto, a prática inclui também o resgate da peça.

Os batedores são integrantes desses grupos, responsáveis por acompanhar o trajeto do balão após a soltura. Em motos, carros e, em alguns casos, por áreas próximas a regiões de mata ou costeiras, eles seguem o artefato com o objetivo de localizar o ponto de queda e recuperar a estrutura. Não por apego, mas pelo custo elevado dos materiais e pelo valor atribuído aos componentes, que podem ser reaproveitados ou revendidos.

Segundo os moradores, alguns vão armados até o local de queda do artefato, para certificar que nenhum civil encoste na peça que resta. Outros, pintam os rostos para dificultar a identificação.

“E eles, malandramente, para não parecer que iam de moto seguindo o balão, o que fizeram? Pintaram a cara de vermelho, amarelo, para não dar para identificar, né?”, diz o morador de Campo Grande.

Lógica estruturada

Os balões podem atingir valores de até R$ 20 mil, a depender do tamanho, do nível de detalhamento e dos materiais utilizados. A recuperação, portanto, faz parte da dinâmica dessas turmas, que se organizam previamente para todas as etapas, da confecção ao resgate.

Segundo a delegada titular da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA), Josy Lima Leal Ribeiro, os grupos seguem uma lógica estruturada, com divisão de funções entre os participantes.

“Há, por exemplo, pessoas responsáveis pela confecção do balão que exige conhecimento técnico específico, outras encarregadas da logística de soltura, como escolha do local e monitoramento das condições climáticas, além de integrantes que atuam na recuperação do balão após a queda, o que também é uma etapa importante para eles.”

Em outros casos, segundo a delegada, há ainda financiadores, responsáveis por arcar com os custos dos materiais, e articuladores, que promovem eventos clandestinos e divulgam as solturas em redes sociais e aplicativos de mensagens.

Pontos de soltura

De acordo com Josy, a atuação da DPMA contra a soltura de balões envolve denúncias recebidas por meio do Disque Denúncia e monitoramento de grupos organizados em redes sociais e aplicativos de mensagens. Dessa forma, os agentes conseguem se infiltrar em grupos de baloeiros para identificar envolvidos e antecipar ações.

Entre os praticantes, os perfis são diversos, acrescenta a delegada. “Encontramos desde jovens atraídos pela prática por tradição cultural ou influência de grupos locais, até indivíduos mais experientes, que atuam há anos e possuem papel de liderança nessas organizações.”

Apesar do monitoramento, a atuação policial enfrenta limitações operacionais, principalmente em áreas de difícil acesso. Isso porque grande parte dos pontos de soltura está situada no interior de comunidades conflagradas pelo crime organizado.

“Apesar dos esforços, enfrentamos desafios significativos. Em muitos casos, os pontos de soltura estão situados no interior de comunidades dominadas por organizações criminosas, em áreas conflagradas e de difícil acesso, o que limita a atuação ostensiva da polícia e exige planejamento estratégico para garantir a segurança das equipes”, afirma.

Sociabilidade dos baloeiros

Nas regiões suburbanas, a soltura de balões historicamente se insere em encontros coletivos, onde há circulação de informações no “boca-boca” e formação de grupos que compartilham técnicas e referências próprias. A produção dos artefatos, assume um processo artesanal que exige tempo, organização e cooperação entre os integrantes.

Esse ambiente ajuda a explicar a permanência da prática ao longo do tempo, mesmo diante da proibição legal. A atividade não se restringe ao momento da soltura, mas envolve um conjunto de interações que contribui para a formação de vínculos entre os participantes.

Foi nesse contexto que se desenvolveu a infância do carioca Emerson Souza, que corria atrás dos balões junto aos batedores pelas ruas de Acari, na Zona Norte do Rio. Segundo ele, a movimentação nas ruas e a agitação dos grupos chamavam atenção e incentivavam a participação, mesmo que na época ele ainda não compreendesse os riscos envolvidos.

“Eu presenciei quando eu tinha 12 anos. Muita gente soltava balões. Eu já vi muita gente brigar também, já vi gente perder quase a vida por causa disso. Eu também já fui uma dessas pessoas que corria atrás, ia no bonde, sem saber de nada, só para fazer parte”, contou.

A prática, segundo ele, era acompanhada por disputas pelos materiais após a queda, o que intensificava a corrida e os conflitos. “Quando o balão cai, todo mundo parte pra briga. Eles brigam pelo dispositivo, pelo material, pelo tecido”, relata.

Hoje, na casa dos 30 anos, Emerson afirma que foi a intervenção da mãe que o afastou da prática, já considerada crime à época. Posteriormente, ao ingressar no curso de Química, passou a compreender os riscos associados às estruturas.

“Dentro do balão tem um dispositivo que solta o gás. E o que acontece? Esse dispositivo é muito caro e muita gente briga por causa dele, porque às vezes eles revendem e também às vezes reutilizam para outros negócios. E quando reutilizam o balão, às vezes ele pode ficar rarefeito no ar e queimar”, explica.

Consequências

Ao alcançar o solo, os impactos vão além dos incêndios diretos e incluem riscos à infraestrutura urbana e à população. Quando os balões caem no mar, há risco de ingestão por animais marinhos, que confundem o material com alimento, além da contaminação provocada por resíduos não biodegradáveis, como plásticos presentes na estrutura.

Já quando atingem áreas urbanas, os impactos podem incluir incêndios em residências, terrenos e edificações, além de curtos-circuitos ao alcançar redes elétricas, interrupções no fornecimento de energia e danos a equipamentos.

Segundo dados da concessionária Light, obtidos pela Agenda do Poder, somente nos últimos três meses, duas ocorrências envolvendo queda de balões sobre a rede elétrica deixaram 1.801 clientes sem energia na Zona Oeste do Rio.

Já a concessionária Enel informou que, no primeiro trimestre de 2026, foram registradas 11 ocorrências com balões na rede elétrica nos 66 municípios atendidos no estado. As cidades de Niterói e São Gonçalo concentram os maiores números, seguidas por municípios da Região dos Lagos e Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense.

Em áreas verdes, a recuperação pode levar anos e ainda provocar efeitos posteriores.

“Quando o balão cai numa região de mata fechada sem dúvida alguma esse solo fica mais compacto, com menos chance de absorver a chuva. Quando chega no verão, com muitas chuvas, ele fica mais suscetível a deslizar. Se tiver residências próximas, as pessoas podem ficar soterradas por essa situação”, alerta o tenente-coronel Fábio Contreiras.

Orientações

Diante do aumento das ocorrências, Agenda do Poder, em conjunto com o Corpo de Bombeiros, listou recomendações a moradores, especialmente aqueles que vivem próximos a áreas de vegetação, para reduzir riscos:

  • Manter terrenos limpos e com vegetação baixa, o que diminui a propagação de incêndios;
  • Criar aceiros — faixas sem vegetação que funcionam como barreiras para o fogo;
  • Evitar o acúmulo de materiais inflamáveis próximos às residências;
  • Redobrar a atenção durante o período de estiagem.

Em caso de queda de balões ou focos de incêndio, a orientação é acionar o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193. Também é possível realizar denúncias anônimas sobre soltura de balões por meio do Disque Denúncia, pelo telefone 2253-1177.

A prática é considerada crime ambiental, prevista na Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98), com pena que pode chegar a até três anos de prisão, além de multa. 

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

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