Desde que o mundo é mundo, diferenças existem — a vida não é um tabuleiro de xadrez com peças pretas e brancas, afinal. Com as eleições presidenciais em 2016, nos Estados Unidos, e dois anos depois no Brasil, em 2018, a sociedade se viu diante de um binarismo político: esquerda e direita. As divergências, antes saudáveis, tornaram-se irrefreáveis, sem espaço para conversa. Neste sábado (30), Dia do Perdão, o Agenda do Poder conta histórias de quem conseguiu superar a polarização no ambiente familiar.
Segundo o sociólogo e cientista político Paulo Baía, o cenário brasileiro é um bom exemplo da dimensão histórica desse fenômeno. “A simbologia do perdão na vida pública brasileira se mostra cada vez mais distante. O país atravessa uma das fases mais intensas de polarização política desde o processo de redemocratização. A lei que instituiu o Dia Nacional do Perdão foi sancionada justamente por Michel Temer, personagem central de um dos momentos mais divisivos da história recente”, lembra.
O impeachment de Dilma Rousseff em 2016 colocou Temer em um papel ambivalente na memória política do país, explica o cientista. Para alguns, ele trouxe estabilidade após um período conturbado; para outros, simbolizou ruptura e traição. Desde então, seu nome tornou-se alvo de ressentimento. Ao sancionar o Dia do Perdão, revelou uma ironia histórica.
A eleição de 2018, com a vitória de Jair Bolsonaro, aprofundou essa fenda na sociedade. “A pandemia de covid-19 agravou ainda mais o quadro. De um lado, apoiadores de Bolsonaro reforçavam sua confiança no discurso do presidente, que minimizava os efeitos da doença. Do outro, críticos denunciavam a negligência governamental diante de milhares de mortes. O luto coletivo foi atravessado pela disputa política, como se até a dor pudesse ser capturada pelo partidarismo”, explica Baía.

Opinião e ameaça: uma combinação sensível
Não faltam histórias de pessoas que, desde as eleições presidenciais de 2018, interromperam laços afetivos ou se afastaram de alguém com que não compartilhavam os mesmos ideais. Um levantamento da 23ª edição da pesquisa Edelman Trust Barometer mostrou que, em 2023, 78% dos brasileiros avaliaram que o país estava mais dividido que no passado, e 80% apontaram que a falta de respeito mútuo cresceu no país.
Os embates começam com discussões em grupos da família, comentários indesejados que desrespeitam a escolha alheia, passam a exclusões e podem avançar para brigas intensas, com xingamentos e violência física.
Foi assim que um assistente jurídico, de 30 anos, que preferiu não se identificar para não expor os pais, viu as tensões se acirrarem para fora do teto onde moravam, em Vila Valqueire, Zona Oeste do Rio. Em plena madrugada, o jovem acabou expulso de casa.
“A briga aconteceu há quatro meses, em abril. Durante a discussão, tanto minha mãe quanto meu pai mandaram que eu saísse de casa. Num primeiro momento, ignorei, porque já era noite, quase meia-noite, e eu não tinha para onde ir. Mas depois refleti. Já tinha idade para sair da casa dos meus pais e aproveitei toda aquela circunstância para tomar a decisão”, lembrou.
A expulsão do rapaz não aconteceu de repente. Os primeiros sintomas ocorreram muito antes do binarismo político. Filho de evangélicos, ele conta que, desde menino, percebia a mãe reproduzindo informações enganosas, que considerava por conta da religião. Ainda criança, frequentava a igreja e lembra do incômodo quando tinha que mudar as vestimentas por conta do código religioso ou quando escutava os discursos terraplanistas do pai. Com o passar do tempo, surgiram outras questões:
“Desde 2018, por exemplo, quando meu pai começou a fazer discursos terraplanistas, questionando a ciência e absolutamente tudo que eu já havia estudado na vida. Ele passou a duvidar de tudo e deixou de acreditar no jornalismo. Basicamente, passou a confiar apenas em grupos de WhatsApp. Meus pais se tornaram isso”, conta. Com as eleições de 2018 e subsequente de 2022, os valores seguiram para uma corrente que o jovem não concordava, mas qualquer tentativa de diálogo escalonava rapidamente para uma discussão.
Conflito de trincheiras
Segundo o médico psiquiatra Cyro Masci, há diversos sinais de comportamento que alertam para a inflexibilidade. Ao ativar uma reação biológica de ameaça, o sistema nervoso simpático aumenta a produção de cortisol, o hormônio do estresse, que deixa o indivíduo em estado de alerta constante. Entre eles estão:
- Pensamento em “Preto e Branco”: a pessoa perde a capacidade de enxergar tons de cinza. O mundo vira um tabuleiro de xadrez onde só existem peças brancas, que representam o bem, portanto: eu. E pretas, que simbolizam eles, logo o mal.
- Deslegitimação do outro: deixa de debater ideias e passa a atacar o caráter.
- Reatividade emocional intensa: discussões mínimas disparam reações desproporcionais.
- Evitamento e isolamento: constrói muros invisíveis ao seu redor, afastando-se de quem representa ameaça a suas crenças.
- Exaustão e “nevoeiro mental”: a mente fica esgotada, incapaz de processar novas informações.
- Incapacidade de ouvir: escuta apenas para rebater, incapaz de absorver perspectivas diferentes.
“Nas relações mais próximas, esse alarme falseado é catastrófico. A conversa deixa de ser uma troca entre pessoas que se amam e se torna um ‘campo minado’ emocional, onde cada palavra pode ser o fio que detona uma explosão. A pessoa amada é temporariamente recategorizada pelo cérebro como uma ‘ameaça’ ideológica”, conta.
Ainda segundo Masci, a consequência é um “conflito de trincheiras”:
“O resultado é que o jantar em família pode se sentir como um ‘conflito de trincheira’, onde cada lado se entrincheira atrás de suas convicções, e o objetivo deixa de ser a conexão e passa a ser a defesa e o ataque”.
Na sequência, o afeto vai sendo sufocado pela vigilância constante e os efeitos se revelam nas relações, explica o médico. As amizades desgastam-se, como um tecido que vai ficando esgarçado a cada puxão. O relacionamento amoroso, que deveria ser um “porto seguro”, se transforma em mais uma frente de batalha que corrói a intimidade e o respeito mútuo, não pela discordância em si, mas pelo estado de estresse tóxico que a envolve.
O distanciamento saudável, segundo o especialista, é uma estratégia de autocuidado pontual, que não quebra o vínculo de afeto; já a ruptura profunda gera sofrimento intenso, marcado por raiva e deslegitimação.
Os três pilares da polarização
Hoje, a polarização é um sintoma de um sistema sustentado por três pilares: redes sociais, crise de confiança nas instituições e fragmentação partidária. É o que explica o sociólogo e cientista político Rafael Mello. Segundo ele, os algoritmos trafegam na rede permitindo aos usuários uma bolha onde apenas conteúdos de seus interesses circulam, fazendo-os acreditar que não há espaço para o diferente.
“É um erro tratar as redes sociais como ferramentas neutras. Elas são plataformas de negócios que lucram com o engajamento emocional e a paixão. Os algoritmos criam câmaras de eco, expondo-nos a conteúdos que apenas confirmam nossas crenças e nos isolam da diversidade de opiniões”, conta.
Em segundo lugar, o confronto constante entre Executivo, Legislativo e Judiciário transformou-se em um espetáculo permanente de crise. O embate reforça discursos extremistas, que exploram a desconfiança popular para enfraquecer adversários e questionar a credibilidade do próprio sistema. A ausência de caminhos democráticos claros e acessíveis abriu espaço para que líderes críticos às instituições ganhassem poder.
“O conflito institucional é um espetáculo de hostilidade e deslegitimação mútua que serve como validação para o ódio que as pessoas sentem em suas relações pessoais. O ódio entre o deputado A e o ministro B se torna a justificativa para a briga de um vizinho com o outro. O ringue entre os Poderes é um show que nos convence de que o problema é moral, e não estrutural”, pontua.
Por fim, há o problema da fragmentação partidária. A multiplicidade de partidos, prevista pela Constituição de 1988 como sinal de uma democracia vibrante, acabou revelando suas fragilidades. Em vez de traduzir a pluralidade em representação efetiva, muitos grupos políticos que propõem mudanças estruturais têm dificuldade de colocar no debate público os temas que realmente afetam a vida da população trabalhadora. Esse vácuo acaba ocupado por forças que se comunicam diretamente com a frustração das pessoas.
“Nesse ponto, é fundamental destacar como a religião e a moral foram usadas para aprofundar essa divisão. Grupos religiosos, especialmente os neopentecostais, têm ganhado espaço na política usando doutrinas como a Teologia da Prosperidade e a Teologia do Domínio. A ideia é simples: a fé é um caminho para a riqueza e o sucesso. Em vez de lutar por direitos, as pessoas são incentivadas a buscar a vitória individual através da fé. Isso esvazia a luta coletiva e, ao mesmo tempo, transforma a política numa batalha entre o bem e o mal”, analisa o cientista.
Existe perdão para quem pensa diferente?
A psicóloga Cristine Schwengber explica os processos do perdão: “Dois elementos são especialmente presentes quando se pensa no perdão como um processo de cura: o foco na moralidade, compreender o que é certo fazer — e a boa vontade — a disposição de realizar o ato de perdoar. Outros fatores também influenciam o processo. Para que o perdão aconteça, é necessário que tenha ocorrido um evento que causou sofrimento físico, emocional, social ou psicológico”, afirma.

Ainda segundo a especialista, o perdão não é um pedido de desculpas trivial: “Ele é mais profundo e duradouro. Deve existir alguém responsável pelo prejuízo ou ferida causada, mesmo que sem intenção, e a pessoa que perdoa precisa escolher voluntariamente mudar sua postura em relação ao ofensor, reduzindo ressentimento, desejo de vingança e afetos negativos”.
E como o perdão se concretiza? Quando a pessoa consegue diminuir pensamentos, sentimentos e comportamentos negativos em relação ao ofensor e passa a reconhecer sua humanidade e valor. Ruminamentos e tentativas de esquecer o ocorrido dificultam o processo, reforça Cristine: “Perdoar a si mesmo pode ser ainda mais difícil quando há padrões elevados de autocrítica, pensamentos como ‘eu não deveria ter feito isso’, que exigem um olhar de autocompaixão”.
Seja entre famílias ou amigos, a polarização política testou laços e criou rupturas que pareciam irreversíveis. A jornalista Brenda São Paio, de 26 anos, só descobriu o afastamento dos primos através dos grupos nas redes sociais.
“No começo, eu estranhei bastante não estar mais no grupo da família. Era ali que eu me comunicava muito, falava diariamente com todos. Sempre fomos muito unidos, fazíamos festas juntos, passávamos o Dia das Mães, o Dia dos Pais, o Natal, a Páscoa. Na época da briga ainda existia o churrasco dos primos, que acontecia todo mês, e isso também acabou. Acho que, de todas as perdas, essa foi a que mais senti, porque eu gostava muito de estar com eles. Gostávamos de estar em família”, conta.

Depois, foi a vez da amiga próxima se afastar. Com ela, a situação foi semelhante e começou com a jornalista criticando o ex-presidente Bolsonaro em um status que a amiga, Ana Julia, havia publicado:
“Ela veio discutir de forma incisiva, dizendo que eu estava misturando política e religião. A conversa escalou, brigamos feio, e acabamos nos bloqueando em todas as redes sociais. Voltamos a conversar apenas em 2020 ou 2021. Nesse tempo, ela também percebeu que tinha se equivocado em apoiar Bolsonaro daquela forma ferrenha. Nos reencontramos, pedimos desculpas, reconhecemos que não havia necessidade de tudo aquilo e retomamos a amizade”.
Hoje, as duas se reaproximaram, e Ana Julia, está presente na criação do filho de Brenda, de 1 ano. Sobre o significado do perdão, ela resume:
“Perdoar não é esquecer. Perdoar é conseguir lidar com as diferenças daquela pessoa sem estar mais magoado pelo que ela fez. É perceber que aquilo já não te afeta como antes, que a pessoa já não tem mais o poder de te ferir com aquilo que aconteceu. Perdoar é virar a página. É conseguir deixar o erro no passado e escrever uma nova história, sem ficar revisitando dores antigas”.
Já para o assistente jurídico, o perdão fica na única fronteira possível: a do distanciamento. “Sobre o perdão, acho que se resume a conseguirmos estar no mesmo ambiente, mesmo que pouco tempo, de forma harmoniosa, abrindo mão de alguns ideais para convivermos. Esse é o perdão possível”, finaliza.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes






Deixe um comentário