Você provavelmente nunca acordou pensando “hoje vou para Santa Maria Madalena”, e na boa, está tudo bem. Afinal, são poucas as almas destemidas que têm disposição para encarar 219 km de curvas serranas em uma viagem de quase sete horas de carro, ou com uma única saída de ônibus por dia, e chegada no meio de pastos silenciosos em uma cidade onde o tempo parou e ainda não se decidiu se vai recomeçar.
Mas lá está ela, Santa Maria Madalena, uma cidadezinha do interior fluminense que abriga o improvável: uma igreja neogótica, um busto de Dercy Gonçalves com cara de poucos amigos e um mausoléu onde a atriz repousa, literalmente de pé e eternamente afrontosa. Tudo isso num município que ostenta com orgulho o título oficial de “Cidade das Estrelas”.
Com pouco mais de 10 mil habitantes e uma economia sustentada por suspiros de quem pisa nos astros, distraído, e repartições públicas, não necessariamente nessa ordem, Santa Maria Madalena é a prova viva de que não é preciso muito para ser inesquecível.

Onde fica Santa Maria Madalena
Santa Maria Madalena está localizada na Região Serrana do estado do Rio de Janeiro, a aproximadamente 219 km da Guanabara, entre as cidades de Campos dos Goytacazes e Nova Friburgo. Está encravada na borda do Parque Estadual do Desengano, em uma área montanhosa, com altitude média de 615 metros. O município faz parte da chamada “Rota do Frio” e compõe o circuito turístico das cidades históricas e ecológicas da serra fluminense.
História
Em meados do século XIX, um padre chamado Francisco Xavier Frouthé teria trocado as terras onde hoje está o centro da cidade por uma espingarda, numa negociação com um certo José Vicente. Sim, a fundação da cidade envolveu fé, pólvora e uma lógica que só o Brasil arcaico entenderia.
O povoado cresceu durante o ciclo do café, época em que a região viveu seu auge econômico, com direito a canalização de água, iluminação a gás de mamona (!) e até estrada de ferro. Em 1862, foi elevada à condição de município, desmembrando-se de Campos dos Goytacazes. Com o declínio do café, a cidade voltou ao seu ritmo original: vagaroso, tranquilo e introspectivo, um verdadeiro spa para a alma (e para quem não tem a menor pressa de chegar a lugar algum).
Ainda assim, Madalena preserva com orgulho sua herança colonial, sua arquitetura neogótica e, claro, sua filha mais ilustre: Dercy Gonçalves, cantora, umorista, atriz e ícone nacional, que fez da irreverência uma bandeira e do túmulo, uma vertical de resistência.
O que tem para ver lá?
Em pleno cemitério municipal, cercado por lápides humildes, ergue-se o mausoléu de Dercy Gonçalves, um monumento de mármore branco reluzente, com colunas dóricas, vitrais coloridos na forma de uma pirâmide e, no centro, a escultura de uma mulher de braços abertos, como se dissesse: “Eu avisei.” A atriz, que morreu aos 101 anos, descansa de pé, por vontade própria, numa espécie de desafio à horizontalidade da morte. É talvez um dos túmulos mais teatrais do Brasil.
A poucos metros dali, no centro histórico da cidade, o Museu Dercy Gonçalves funciona na casa onde ela nasceu. Lá dentro estão vestidos de plumas, sapatos de salto, troféus do Faustão, santinhos de todos os tipos e um painel com frases que hoje seriam prato feito para cancelamentos na redes sociai.
Uma urna decorativa com a inscrição “ainda não é agora” completa a experiência. Tudo cuidadosamente preservado para que o visitante sinta a presença de Dercy ecoando nas paredes.

Quem foi Dercy Gonçalves?
Se a sua única recordação de Dercy é como jurada sem meias palavras ou memes associados a grandes palavrões, você precisa rever suas convicções. Dolores Gonçalves Costa nasceu em 1907, fugiu de casa aos 17, enfrentou fome, preconceito e moralistas armados de Bíblia e porrete. Em troca, entregou ao Brasil um século de samba de primeira, piadas escatológicas, gargalhadas sem freio e a ousadia de uma mulher que causava muito tempo antes mesmo do feminismo saber que tinha nome.
Noel Rosa a considerava um das suas vozes preferidas para gravar seus sambas. Dercy cantou em circos e teatros de revista, ajudando a popularizar a música brasileira nos anos 1930. Atriz, comediante, produtora, senadora informal do palavrão brasileiro, Dercy foi o tipo de patrimônio que o Iphan jamais conseguiria tombar. Só respeitou uma regra: não respeitar nenhuma.
Por que a cidade é chamada de ‘Capital das Estrelas’ do Rio de Janeiro?
Em 2022, o Governo do Estado do Rio de Janeiro reconheceu oficialmente Santa Maria Madalena como a “Cidade das Estrelas”, graças ao seu potencial para o astroturismo. Uma modalidade poética de experiência de viagem que atrai gente que anda por aí com um telescópio na mala e muita expectativa no coração.
Mas, sem ironia, o Parque Estadual do Desengano, que envolve o município, possui um dos céus mais escuros do Sudeste, com qualidade visual classificada como “excelente” por astrônomos e curiosos.
O motivo é óbvio: o que falta de luz urbana sobra em céu limpo. A cidade, incrustada na Serra do Desengano, está a cerca de 600 metros de altitude e praticamente isenta de todas as modernidades que atrapalham qualquer bom céu noturno, como poluição luminosa, luzes do trânsito ou excesso de postes.
Resultado: um dos melhores céus do estado do Rio de Janeiro para observar estrelas, planetas, meteoros e, com sorte, até os próprios limites da paciência, porque nessa cidade até as estrelas têm dramaturgia própria.
O que mais tem para fazer por lá?
Provar o charme colonial: não perca a Igreja Matriz de estilo neogótico francês, erguida em 1892 com vitrais pareados e rosáceas, torre de 52 metros e até um galo de um metro no topo, montrando um fervor arquitetônico que deixa muitos outros centros históricos urbanos no tamanco.
O centro histórico da cidade foi incluído no Programa de Cidades Históricas do Iphan em 2009 e recebeu parecer favorável ao tombamento em 2011, mas até hoje aguarda selos de aprovação final e… ações de preservação efetivas.
A antiga estação ferroviária de 1890, hoje Casa da Cultura, e o Hotel Brasil de 1894 estão na fila de construção simples mas na Zona de Risco da descaracterização.

Melhor época do ano para viajar
Com clima tropical de altitude, temperaturas variam de 6 °C (no inverno) a até 35 °C no verão, e chuvas mais fortes em janeiro, que já chegou a registrar volume diário recorde em 2012 .
Para evitar as chuvas torrenciais e aproveitar o céu limpo premiado pela “Cidade das Estrelas”, os meses secos de maio a setembro são ideais — menos calor, menos mosquitos e muito mais visibilidade para o firmamento.
Carnaval e festas literárias podem adensar o turismo, mas quem prefere a natureza sem muvuca deve escolher o meio do ano, quando trilhas e cachoeiras do Desengano funcionam como caminhos quase privados.
Como chegar
A melhor rota é sair do Rio via BR‑101 até Macaé e depois acessar estradas secundárias até Madalena, com bom trecho pavimentado, mas atropelando calma e silêncio. Para os mais aventureiros, a chegada faz parte do charme: prepare o carro, as paradas em fazendas produtoras de doces e licores e aquele sentimento clássico de: “cadê a civilização”?
Agora, chegar de ônibus é uma daquelas experiências que testam sua fé: não na Santa, mas na pontualidade rodoviária. Com uma única saída diária às 6h da manhã na Rodoviária do Rio, a viagem dura cerca de sete horas, cruzando vilarejos adormecidos. A passagem custa a partir de R$ 108, e nem em sonho o wi-fi vai funcionar a partir de algum ponto do caminho.


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