Tudo bem, a gente sabe que Itaocara não está na sua lista de “lugares imperdíveis para conhecer antes de morrer” — e provavelmente nunca estará. Mas essa cidade que mais parece um bairro bagunçado que ficou de fora de algum mapa de turismo insiste em existir desde 1890, e encontrar seu lugar ao sol.
Entre índios em guerra, frades pacificadores e sírio-libaneses que chegaram para abrir o comércio e as portas para o mundo, o município se construiu menos na grandiosidade e mais na persistência. Não virou capital cultural, mas também não se rendeu ao anonimato completo. E como toda cidade na vastidão fluminense, ela também quer um título para chamar de seu: no caso o de “cidade das esculturas”.
Tudo porque, entre as delícias naturais e as produzidas pelos descendentes dos imigrantes, Itaocara abriga esculturas contemporâneas que a população considerada surpreendentes, como a de “Adão e Eva”, o “Frei Tomás” (o fundador que convenceu os indígenas a virar aldeia pacífica) e uma Diana Caçadora descansando pós-banho, todas elas assinadas pelo bom filho da terra: o artista Henrique Resende — que se você não ligou o nome à pessoa é o responsável pelas estátuas de Dercy Gonçalves em Santa Maria Madalena.
Hoje, sem a pompa dos tempos do café, tampouco o fervor catequizador dos frades, o município reinventa sua identidade com arte pública e ritmo pacato. Depois de estabelecer novas crenças e ver sua economia ruir, Itaocara sobrevive justamente daquilo que não se impõe: a contemplação silenciosa de suas esculturas.

A história da cidade
No coração do Noroeste Fluminense, Itaocara (em tupi “Praça de Pedra”) começou, como quase tudo na história do Brasil, em um acordo cheio de segundas intenções. De um lado, da mesa os índios coroados, donos da terra; do outro, os frades capuchinhos, enviados em 1679 para convencer os primeiros habitantes de que renunciar a seu território e costumes ancestrais em nome da fé cristã era um bom negócio.
Deram ao entendimento o nome de “acordo de paz”, mas, na prática, foi a oficialização de um processo de domesticação da resistência indígena, com promessas de proteção contra bandeirantes e outros escravizadores em troca de uma nova vida nos aldeamentos. Claro, sob regras bem menos espontâneas que as da floresta.
Com o tempo, a cidade trocou o discurso missionário pelo som dos carros de boi levando café até o Rio Paraíba do Sul. O século XIX transformou Itaocara em ponto estratégico da economia cafeeira, até que a chegada dos trilhos e o colapso do ciclo do café devolveram a região ao silêncio das pequenas vilas.
A fundação oficial em 1890 foi quase um carimbo burocrático sobre uma terra já marcada por missões religiosas, disputas coloniais e a inevitável decadência de quem apostou todas as fichas no café.
A imigração sírio-libanesa
Fugindo das agruras da vida e do Império Otomano destemidos imigrantes libaneses aportaram em terras brasileiras, no fim do século XIX. Muitos deles se estabeleceram em Itaocara, onde contribuíram para o desenvolvimento comercial e cultural local com seu espírito empreendedor e sua culinária inconfundível.
E mesmo que Itaocara não seja amplamente reconhecida por suas festas tradicionais, o barato aqui é que as festividades são mais discretas, mantendo viva a chama da herança cultural em um ambiente mais íntimo e familiar.
A “cidade das esculturas”
Talvez nem a Itália defenda Michelangelo e Leonardo da Vinci com a veemência que Itaocara protege seus escultores locais. Nomes como Honório Peçanha, Manoel Florentino e Henrique Resende espalharam muitas esculturas ao ar livre em praças, espaços públicos e trevos — o que dá um certo charme artístico incomum à cidade.
Henrique é o nome mais conhecido, não só pelas estátuas de Dercy Gonçalves, em Santa Maria Madalena, como por ter dado forma ao mito bíblico em “Adão e Eva”, homenageado o fundador da cidade, Frei Tomás, e ainda surpreendendo com uma Diana Caçadora num momento de descuido (ou trégua) contra a estética clássica.
Outro bom exemplo desse acervo artístico é o Trevo de Itaocara, onde se encontram quatro esculturas abstratas em ferro — batizadas de “Aldeia da pedra” — que homenageiam os índios Puris, Coroados, Botocudos e Coropós. Essas peças estão pintadas nas cores vermelho e azul, inspiradas na pintura corporal indígena, e suas calçadas também trazem grafismos que homenageiam essas etnias.

Como chegar?
Prepare-se: são 247 km de estrada saindo da Guanabara. De ônibus, a saídas diárias da Rodoviária do Rio a partir de R$ 102 em poltrona convencional e seis horas de estrada. Mas, dizem, as esculturas compensam qualquer esforço. Será?


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