Desde os tempos em que os franceses decidiram se apossar de um rochedo batizado como Bateria Ratier, lá em 1555, o Forte da Laje já demonstrava sua vocação para ser palco de grandes decisões e pensamentos imperfeitos. Ele levou seis anos para ser construído, entre 1710 e 1716, em pedra lavrada e cal com óleo de baleia para impermeabilizar, com uma coragem raramente vista hoje em dia por aqui. E foi ali, bem no meio da entrada da Baía de Guanabara, que se viu surgir mais do que uma fortaleza, mas a nossa “Alcatraz tropical”, principalmente para presos políticos.

Ao longo dos séculos, a fortaleza manteve seus canhões cruzando fogo com Santa Cruz e São João, largando o aço para defender a cidade. No século XIX ele ganhou uma cúpula blindada de aço e 3.060 toneladas da mais pura grosseria militar, tudo para manter a ordem na baía. Até que, adivinhe: os canhões viraram sucata e o local acumulou mais ferrugem do que relevância militar.

Hoje ele ainda está logo ali, majestoso em ruínas: com janelas corroídas pela maresia, pisos cheios de cacos de vidro e canhões enferrujados testemunhando o descaso generalizado com este patrimônio histórico. Ninguém sabe o que fazer com aquilo, mas acredite: alguém já teve a brilhante ideia de transformá-lo em um restaurante japonês chique, o que literalmente deu com os sashimis na água. Hoje, sua maior façanha é resistir à maresia, aos planos milionários e à própria presença humana.

Vista aérea do Forte da Laje | Crédito: Reprodução

História

A Bateria Ratier foi ocupada por franceses que tentaram em vão conquistar a Guanabara, em 1555, mas só foi concluída em 1716, sobre um afloramento rochoso de cerca de 100 × 60 m — quase o tamanho de um campo de futebol. Reformas importantes ocorreram em 1893 após a Revolta da Armada, e sua moderna cúpula blindada, estilo bunker, foi instalada entre 1896 e 1906. Oficialmente seu nome era Forte Almirante Tamandaré da Laje.

Como ela foi construída?

Ela foi edificada em alvenaria de pedra e cal com técnicas como impermeabilização com óleo de baleia. O forte tem muralhas com mais de quatro metros de espessura e uma cúpula de aço-níquel pesando 3.060 toneladas, projetada para resistir a ataques com navios com poderosos canhões Krupp um must have das marinhas do passado.

Prisioneiros famosos

O forte teve como primeiro prisioneiro político o Patriarca da Independência, José Bonifácio, que passou por lá uma temporada com seus irmãos após o fechamento da Assembleia Constituinte em 1823. Entre muitos outros, a lista tem nomes como Cipriano Barata, o jornalista mais perseguido do Século XIX, Rafael Tobias de Aguiar (líder da Revolução Liberal de 1842),  o poeta Olavo Bilac até o marechal Henrique Lott, e naturalmente várias histórias.

Tem até uma prequel do sucesso hollywoodiano Fuga de Alcatraz com o capitão Pedro Ivo Veloso da Silva, um dos líderes da Revolução Praieira, numa versão tupiniquim do papel consagrado por Clint Eastwood nos cinemas. Num vacilo dos guardas, ele conseguiu mergulhar entre as ondas e nadar até um barco amigo no maior crawl da história política brasileira.

Bento Gonçalves, um dos líderes da Revolução Farroupilha (aquela que os gaúchos perderam, fingem que empataram, e festejam como se tivessem ganhado), também tentou fugir, serrando grades e se arrastando entre túneis. Mas seu parceiro no plano, Pedro Boticário, não possuía um tipo físico tão atlético como o do coronel e acabou entalando. Bento Gonçalves desistiu da escapada para não abandonar o amigo. Para evitar novas tentativas o primeiro foi despachado para Pernambuco e o segundo para a Bahia.

O episódio mais sinistro porém envolveu o Almirante Negro, João Cândido, que, após a Revolta da Chibata, aquela que pôs fim aos castigos físicos na marinha impostos pelos oficiais brancos à marujada, composta exclusivamente por homens negros. Um perdão aos amotinados fazia parte do acordo para pôr fim a revolta. Mas o governo agiu com traição a quem sempre lhe deu a mão. João Cândido foi preso com outros 18 companheiros na sufocante e famigerada “Cela 5”. Quando as grades foram abertas, apenas João Cândido e mais um marujo estavam vivos. João Cândido ficou tão chocado com a situação que antes de prendê-lo de novo, a Marinha o enviou para um manicômio.

Quando foi desativada e por quê

O forte foi desativado em 1997, após mais de dois séculos de atividade militar, quando o Exército retirou a guarnição e desartilhou o local, transferindo sua guarnição para a Fortaleza de São João. A degradação acelerada, aliada aos altos custos de restauração e à perda do papel defensivo em plena era da aviação e mísseis, selou seu destino como ruína histórica. O marechal Lott foi o último preso a passar uma temporada de 15 dias por lá, em 1961 pôr se opôr a tentativa de impedir que João Goulart assumisse a presidência após a renúncia de Jânio Quadros.

Local abrigou prisioneiros famosos | Crédito: Reprodução

O restaurante que não deu certo

Em 2012, as Forças Armadas abriram uma licitação para arrendar o forte. A vencedora foi a empresa Plâncton Comércio e Representações Ltda, representada pelo empresário Rodolfo Simões. E aí começou a confusão. Outra empresa envolvida, Mama e Nona Conveniência Ltda., foi registrada por Linda Akemi Suzuki Simões, ex‑mulher de Rodolfo, conforme apontado em reportagem do jornal O Globo. Ambas usavam o mesmo telefone de outra empresa, Tecno Química S.A., presidida por Rodolfo.

Mas isso tudo é detalhe. A ideia era tão ousada quanto sem lastro na realidade. A proposta inicial era investir cerca de R$ 15 milhões em um projeto que incluía a retirada dos canhões enferrujados para exposição no Forte de São João, instalação de atracadouro flutuante e rampas de embarque também flutuantes, com botes vindo da Urca, Marina da Glória e Niterói. Em dias de ressaca, não haveria funcionamento. 

O ambicioso “Espaço Laje” teria um restaurante japonês sofisticado, bares com vistas privilegiadas e capacidade para mil pessoas. O Iphan até autorizou as obras. Mas o orçamento estimado era algumas boas milhas náuticas do que o que posteriormente foi calculado: algo em torno dos US$ 40 milhões (R$ 221,6 milhões, na cotação atual). Nunca mais ninguém tocou no assunto. E basta você passar uma única vez de barco por perto para conferir por que essa história não tinha a menor chance de dar certo.

Forte abrigaria restaurante, mas projeto acabou engavetado | Crédito: Reprodução

É possível visitá-la?

Bem, oficialmente falando, é sim possível visitá-lo mediante pré-agendamento com o Centro de Capacitação Física do Exército, na Fortaleza de São João. Contatos devem ser feitos por telefone para consulta de disponibilidade de visitas guiadas. Os militares dizem que não há entrada livre como turista comum, mas o YouTube tem uma coleção de vídeos de cariocas e simpatizantes que vão até lá de barco na cara e na coragem. No fim das contas, uma ironia para uma fortaleza que um dia teve fama de ser “intransponível”.

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