Em tempos de hiper-regulamentação, onde até ambulante precisa de QR Code para vender mate na praia, não é razoável imaginar que uma aldeia indígena acabe processada por construir ocas sem alvará. Mas a burocracia brasileira nunca falha. Principalmente quando uma pandemia nunca antes vista nesse século monopolizasse as atenções. E assim tentaram passar a boiada.
Em Paraty-Mirim, uma comunidade guarani em território tradicional e reconhecido pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), foi surpreendida em maio de 2019 com uma autuação da Prefeitura de Paraty por construir moradias “irregulares”. A acusação era grave: os indígenas estariam infringindo a lei ao erguer ocas exatamente iguais as que seus antepassados construíam e no mesmo lugar.
Assim, em pleno século XXI, enquanto cidades inteiras afundam em grilagens e condomínios clandestinos brotam como cogumelos, uma aldeia com práticas ancestrais foi multada por manter vivas suas tradições.

História de Paraty-Mirim
Paraty-Mirim já foi mais do que um refúgio indígena: foi vila, entreposto comercial, porto de escoamento do ouro e um dos caminhos coloniais mais estratégicos do Brasil. Ali, no século XVII, desembarcavam riquezas e escravizados; embarcavam madeiras e contrabando. Restaram ruínas, memória e uma estranha inversão de papéis e o que era a periferia da colônia, virou centro de disputa legal entre ancestralidade e Estado.
Depois da decadência do ciclo do ouro e do fechamento do porto, Paraty-Mirim retornou a seu estado mais puro: floresta, mar, trilhas e… presença indígena. A natureza engoliu o que sobrou da arquitetura colonial e devolveu o território aos povos originários. Mas nem mesmo a selva é invisível ao olho atento e voraz da fiscalização urbana.
Entenda o caso
Em 2019, a aldeia Itaxĩ Mirim foi autuada por construir estruturas em “área de preservação permanente sem autorização”, segundo denúncia do Ministério Público com base em relatório da Prefeitura de Paraty. A resposta indígena veio firme: a terra é reconhecida pela Funai e pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o que garante o direito de uso tradicional. A defesa incluiu antropólogos, ONGs, juristas e, claro, a resistência milenar de quem já sobreviveu a séculos de ocupação.
A cena beirava o surrealismo: um povo que prega o respeito à natureza sendo acusado de desmatamento por montar ocas com folhas e cipó. A burocracia, cega à lógica circular do tempo guarani, preferiu tratar o tema como se fosse uma obra de alto impacto em Angra. O caso virou assunto internacional e escancarou o desconforto do Brasil moderno com suas raízes mais antigas.
Quem são os guaranis que habitam a região?
Os guaranis mbya que vivem em Paraty-Mirim fazem parte de uma rede de aldeias que se estendem pelo litoral sul e sudeste do Brasil. Com organização social própria, falam sua língua, praticam o culto à natureza e vivem em harmonia com a mata atlântica, da qual se consideram parte, e não donos. Estão ali muito antes de qualquer “projeto de urbanização”. Pela última contagem eram cerca de 300 integrantes.
São famílias oriundas de antigas migrações, que mantêm práticas agrícolas, artesanato e cosmologia próprias. Sua presença na região é reconhecida pelo governo federal e por entidades internacionais de direitos indígenas. Mas isso, como vimos, não os isentou de precisar fazer um cadastro junto à prefeitura para levantar um teto de palha como ensinaram seus avôs.

Onde fica?
Paraty-Mirim faz parte do município de Paraty, no sul do Rio de Janeiro. Encravada entre a serra e o mar, a comunidade vive entre o verde intenso da mata atlântica e o azul turquesa da baía da Ilha Grande.
A localização é estratégica, tanto para a história quanto para o turismo. Está dentro da Área de Proteção Ambiental do Cairuçu, gerida pelo ICMBio, e sua praia abriga a igreja mais antiga daquela rica e histórica região.
Melhor época para visitar e por que
Se o plano for visitar Paraty-Mirim sem virar oferenda aos mosquitos, o ideal é ir entre maio e agosto. É o período mais seco, menos quente e com menor incidência de chuvas tropicais que transformam trilhas em escorregadores. É também quando o céu se abre em azul chapado e o verde parece ter sido retocado com o filtro mais moderno da ultima semana. Evite, se possível, os feriadões e réveillons, quando a paz guarani vira rave.
O que tem para fazer lá?
Lá se faz o que a pressa urbana desaprendeu: observar, caminhar, conversar e, com sorte, ter a oportunidade de aprender algo com os guaranis. Não esqueça, qualquer visita deve ser respeitosa. É território indígena, não “atração alternativa” ou atração da Disney. Ainda assim, há muito a experimentar: a praia de areia fina e mar calmo, a trilha para a Cachoeira do Iriri, as ruínas da igreja colonial de Nossa Senhora da Conceição e o manguezal que resiste à especulação.
Se for com tempo e abertura, é possível comprar artesanato diretamente das famílias guaranis, aprender sobre sua cosmovisão e até participar de rodas de conversa. Tudo depende da escuta — e da disposição de calar o turista interior.

Como chegar
Saindo do Rio de Janeiro, são cerca de 4h30 de viagem até Paraty, pela BR-101 (Rodovia Rio-Santos). De lá, uma estrada de terra leva a Paraty-Mirim em aproximadamente 40 minutos de carro, dependendo do humor do tempo e do carro (idealmente, um com tração). Não há transporte público regular, então é melhor ir de carro ou contratar serviço local. De ônibus, as passagens custam a partir de R$ 110, com tempo de viagem estimado em umas cinco horas.
Onde ficar?
Se você está buscando um refúgio ecológico sem estourar o cartão de crédito, considere a Pousada Paraty Paradiso: com diárias a partir de R$ 133,50, segundo o site Melhores Pousadas, incluindo café da manhã, wi‑fi e bicicletas gratuitas para se sentir um morador temporário da Mata Atlântica. E se quiser uma opção mais artística ao custo de uma obra conceitual, a Pousada Arte Paraty Mirim tem suítes familiares com café da manhã incluso — embora o valor exato só apareça ao digitar as datas no Booking, sabe como é, a emoção de reserva em tempo real.
Para os mais despojados (ou econômicos de carteirinha), o ReMo Hostel fica na vila, com diárias que começam em R$ 60 por pessoa, café incluso e estrutura de bambu.


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