Nem parece que já passamos pela Revolução Francesa, ou pela queda dos impérios europeus. Em tempos em que bilionários trocam de lugar nas listas dos “mais ricos” como alguns jogadores de futebol trocam de clube, é surreal constatar que essa competição absurda continua a ser entre monarquias. De um lado temos o sultão de Brunei, cuja fortuna cheira a petróleo bruto e ouro metálico; do outro, o rei da Tailândia, cujos cofres somam propriedades, bancos e participações que mais parecem o inventário de um shopping center real. Enquanto Elon Musk e Jeff Bezos brigam com ações e foguetes, estes senhores disputam a liderança com palácios, contas estatais e coleções de carros que desafiam senso prático e até eficiência de garagem.

É óbvio que ninguém anuncia extratos de contas pessoais quando se fala de monarquias absolutas ou de patrimônios controlados por escritórios reais. Daí a diversão: estimativas, boatos bem documentados e um punhado de análises jornalísticas que fazem o trabalho sujo de transformar luxo em números. Assim nascem manchetes que misturam “estimado”, “avaliado em” e “pode chegar a” — locuções tão confortáveis quanto um tapete persa de seda.

No fundo, essa disputa tem um ar de fábula contemporânea: enquanto alguns bilionários acumulam participações em empresas cujas ações sobem e descem, os monarcas   empilham imóveis e prerrogativas históricas que, na maioria das vezes, nem aparecem nas planilhas oficiais. O ponto prático é simples: riqueza é uma coisa; transparência é outra; e pompa real é um espetáculo à parte.

Quem afinal é o homem mais rico do mundo?

Depende de quem faz a conta. Segundo o ranking mais popular, atualizado em tempo real pela revista Forbes, os três primeiros lugares frequentemente têm sido ocupados pelos mesmos nomes: Elon Musk, da Tesla e Starlink; Bernard Arnault, dono do grupo LVMH e Jeff Bezos, da Amazon. Suas fortunas oscilam entre US$ 180 e US$ 230 bilhões (de R$ 979,2 bilhões a R$ 1,236 trilhão na conversão atual).

A Forbes reporta os números com base em participações acionárias divulgadas, avaliações públicas e estimativas. Por isso as cifras aparecem com vírgulas que variam conforme o mercado. Se você quiser a cifra exata “de hoje”, a Forbes atualiza em tempo real; mas a ideia-chave é essa: tecnologia e luxo dominam as primeiras posições quando a riqueza é calculada por participações financeiras públicas.

Mas existe outra contagem, extraoficial.  Fora do cardápio da Forbes estão monarcas que tratam fortunas nacionais como extensão da carteira pessoal. Nessa liga, brilham dois nomes com coroas na cabeça e cifras que fazem Musk parecer um estagiário bem remunerado: o rei da Tailândia, Maha Vajiralongkorn, e o sultão de Brunei, Hassanal Bolkiah. No caso destes dois personagens, ninguém sabe ao certo onde termina a fortuna pessoal e começa o caixa do Estado.

Eles não disputam com sócios, não dependem da bolsa, nem têm que fingir humildade em entrevistas. No fundo, quem é o mais rico não importa. A pergunta real é: quem é o único que pode rir da Forbes sem precisar vender uma única ação sequer?

Quem é o sultão de Brunei?

O sultão Haji Hassanal Bolkiah governa Brunei desde 1967 e exercendo funções executivas, seja como primeiro-ministro ou ministro das finanças.  Em carioquês, ele é o dono do morro. A fonte primária da riqueza atribuída ao sultão é pouco romântica: petróleo e gás. Brunei é um pequeno Estado-petrolífero do Sudeste Asiático e durante décadas a renda hidrocarbônica abasteceu o tesouro real e as posses da família Bolkiah.

Quanto ao número, as coisas se complicam. A Forbes estima que a fortuna do Sultão gire em torno dos US$ 30 bilhões (mais de R$ 163,5 bilhões). Isso na conta bancária. O sultão mora no maior palácio residencial do mundo, o o Istana Nurul Iman, com 1.788 cômodos, 257 banheiros e capacidade para abrigar cinco mil convidados em banquetes. Tudo isso decorado com ouro, mármore importado e lustres que fariam inveja a Versalhes.

Mas é na garagem que o sultão se consagra. Ele possui nada mais nada menos do que cerca de sete mil carros, incluindo Ferraris, Rolls-Royces, Bentleys e até modelos únicos encomendados sob medida. Só a frota de Rolls-Royces chega a cerca de 600 veículos, muitos deles banhados em ouro 24 quilates. E, como se não bastasse, a família real de Brunei também é conhecida por seus jatos privados — inclusive Boeings customizados com interiores de ouro e cristais da luxuosa marca francesa Lalique. É luxo em escala industrial, mas raramente mostrado em balanços auditáveis, principalmente por algum jornalista ocidental xereta.

Haji Hassanal Bolkiah | Crédito: Reprodução

Quem é o rei da Tailândia?

Maha Vajiralongkorn (Rama X) é o rei da Tailândia desde 2016. Parte considerável da “riqueza real” associada a ele provém do Crown Property Bureau (CPB), órgão que detém vastos ativos imobiliários e participações majoritárias em empresas importantes como o Siam Commercial Bank. Nos últimos anos, reformas legais e administrativas fortaleceram o controle direto do monarca sobre o portfólio de bens e empresas tailandesas, o que leva os analistas a quebrarem a cabeça para estimar o montante ligado ao rei.

Rama X não tem sete mil carros, mas seu palácio é uma das maravilhas de Bangkok desde 1762. É uma verdadeira cidade-murada de mais de 200 mil metros quadrados com templos dourados, salões cerimoniais e pavilhões que parecem ter sido desenhados por arquitetos que não conheciam a palavra “discreto”.  Além disso, sua majestade é conhecida pelas viagens frequentes à Europa, onde só se hospeda em cinco estrelas alugados inteiramente para ele e sua corte. As estimativas de gastos com suas viagens e estilo de vida chegam a centenas de milhões de dólares anuais, bancados direta ou indiretamente pelo patrimônio do CPB.

As estimativas “oficiais” da fortuna de Rama X oscilam na faixa dos US$ 70 bilhões (mais de R$ 380 bilhões). Mas se o sultão do Brunei é o dono do morro, o rei da Tailândia é o chefe da facção. Ele é praticamente o dono do país, com 17 mil propriedades em seu nome só em Bangkok. Isso sem falar em dezenas de palácios, 300 carros de luxo e 52 embarcações reais. A fortuna do rei tailandês é um exemplo de como a falta de transparência pode elevar drasticamente o valor registrado de uma coroa. E é exatamente essa complexidade que torna a comparação entre bilionários privados e soberanos reais um verdadeiro desafio contábil.

Rama X: praticamente o dono da Tailândia | Crédito: Reprodução

Por que as listas não concordam — e nunca vão concordar

Diferentemente de empresas listadas em bolsa, os monarcas não prestam contas públicas de suas fortunas. Não há relatórios trimestrais, nem auditorias obrigatórias. A linha que separa o que é do Estado e o que pertence à família real é, muitas vezes, propositalmente borrada.

Enquanto bilionários como Jeff Bezos, o fundador da Amazon, têm patrimônios baseados em ações negociadas publicamente, cujos valores oscilam conforme o mercado e são auditados por órgãos reguladores, os monarcas de regimes absolutistas jogam conforme suas regras próprias. O luxo é visível, mas os números são opacos.

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