Sem reclamar dos prejuízos, Graciele Sodré, de 48 anos, agradeceu por estar viva junto da filha. Ela perdeu a mesinha onde a criança dedicava os estudos, móveis e teve as paredes de casa afetadas pela umidade da água. Mas o importante era estar viva. Moradora do Jardim Maravilha, sub-bairro de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio, ela foi uma entre as milhares de vítimas afetadas pelas fortes chuvas que atingiram o estado nas últimas semanas.
“Entrou água nos dois guarda-roupas, na altura de um palmo. Estragou uma mesinha da minha filha, onde ela coloca o computador e as coisas de estudo, e também duas cadeiras minhas, de madeira. Algumas paredes ficaram danificadas também, com marcas de umidade. Mas, graças a Deus, não foi um prejuízo tão grande. Tiveram pessoas aqui no bairro que ficaram muito pior, muito pior mesmo. Perderam tudo”.

No mesmo bairro, moradores tiveram que ser resgatados em um barco do Corpo de Bombeiros, depois de a rua ser tomada pela água. As fortes chuvas que atingiram o estado do Rio entre os dias 21 e 23 de fevereiro, desencadearam uma cadeia de ocorrências: famílias desabrigadas e ruas inundadas.
Para além disso, os temporais revelaram ainda as fragilidades no sistema hídrico em todo o estado. Ouvidos pela Agenda do Poder, especialistas explicam porquê o Rio ainda reage mais que se antecipa diante de eventos climáticos.
Padrão de chuvas excepcional
Segundo a meteorologia Camilla Visibeli, da Corretora e Consultoria de Riscos e Seguros do Brasil eventSEG, o padrão de chuvas do fim de fevereiro e início de março, foi acima do esperado para o Rio de Janeiro neste ano. Por isso, inclusive, fevereiro atingiu a marca do mês mais chuvoso nos últimos 30 anos.
Parte dos responsáveis pelo padrão de chuvas é a combinação de sistemas frequentes no verão. Neste caso, do dia 21 ao dia 23 de fevereiro, o que o estado viu foi a combinação de um canal de umidade que se formou na Amazônia, contornou a topografia e desembocou no Sudeste. Como um verdadeiro corredor de umidade. As famosas Zonas de Convergência do Atlântico Sul (ZACAS).
“Os canais de umidade são bastante comuns no verão, pelo alinhamento de alguns outros sistemas e também pela maior umidade da floresta amazônica nessa época do ano”, salienta Camilla.
O que já estava tornando o ambiente bastante úmido, recebeu o reforço de mais duas frentes frias, entre os dias 19 e 22. A passagem desses eventos fortaleceu ainda mais a umidade no estado. A primeira frente fria foi mais esperada para o padrão da época. Já a segunda, chegou com ventos acima do aguardado para o período, expõe a meteorologista.
“Essa maior entrada de umidade e esse potencial de ventos fizeram com que houvesse ainda mais umidade disponível na atmosfera, o que potencializou ainda mais a formação de chuva”, conta.
Os três eventos resultaram nos temporais vistos nas últimas semanas de fevereiro.
“A combinação dessas duas frentes com esse canal de umidade gerou esses acumulados tão elevados em apenas três dias, em um período tão curto de tempo.”
Camilla Visibeli, meteorologista da eventSEG
A chuva que desabou no céu do Rio de Janeiro encontrou, mais uma vez, territórios despreparados para o volume de água que seria recebido.
As regiões reagiram de maneiras diferentes aos temporais. Na Baixada Fluminense, por exemplo, os volumes registrados colocaram os municípios de São João de Meriti, Nova Iguaçu e Duque de Caxias em estado de alerta, com vítimas fatais.
Baixada Fluminense como anfiteatro ambiental
Entre os dias 21 e 23 de fevereiro, São João de Meriti foi o município onde mais choveu na região e registrou o terceiro maior acumulado de todo o estado, de acordo com a Defesa Civil municipal. Entre os bairros afetados, Venda Velha registrou 105,4 milímetros de chuva em apenas 30 minutos no dia 23.
Na cidade, foram 36 ocorrências atendidas, ainda segundo a Prefeitura, com cerca de 1.100 pessoas afetadas e 620 desalojadas nos bairros mais impactados: Venda Velha, Engenheiro Belford, São Mateus, Tomazinho, Vila União e Parque Juriti.
A força da água também derrubou uma casa e matou uma moradora. A vítima era uma idosa de 85 anos, com dificuldades de locomoção, moradora da Rua Piauí, no Morro Santa Helena, no Centro do município.
Perto dali, em Nova Iguaçu, a situação também foi alarmante. A região registrou 395 ocorrências entre os dias 20 e 24 de fevereiro. Mais de 50 localidades, entre bairros e sub-bairros, foram afetadas. Os maiores registros ocorreram em Miguel Couto (46), Carmari (40) e Ambaí (40). Ao todo, 5.797 pessoas foram impactadas diretamente, com 360 desalojadas e sete desabrigadas, segundo informado pela Defesa Civil municipal à Agenda do Poder.

A região da Baixada, como diz o nome, funciona como um anfiteatro, localizado no meio de regiões mais altas. Mas isso, quem explica é o professor Julio Cesar Wasserman, do departamento de Análise Geoambiental da Universidade Federal Fluminense (UFF).
“Quando falamos das regiões de baixada — como a Baixada Fluminense — estamos falando de áreas planas que recebem drenagens das regiões mais altas ao redor, como se fosse um anfiteatro. A chuva cai nas montanhas e vai se acumulando na parte baixa”.
Este tipo de geografia pode agravar o resultado das chuvas e resultar em enchentes e inundações, quando há ausência de sistemas de canalização que permitam o escoamento da água.
“Quando temos asfalto ou concreto, a água fica na superfície e aumenta o risco de inundação. Se a área for muito plana e não tiver declividade adequada para escoamento, a água se acumula”, explica.
É o que acontece quando há uma obra em casa. Se o pedreiro faz um piso sem o caimento correto, há prejuízo na certa com acúmulo de água. O mesmo acontece nas cidades, mas em escala muito maior, explica Wasserman.
Carro levado em enchente
A rapidez e a força da água ainda é o que ressoa na mente de Josenilton Rosendo da Silva Junior, 38 anos, que viu seu carro, um Doblo, ser levado para dentro de um córrego, no último dia 21.
O veículo acabara de ser adesivado pela plataforma de comércio online Shopee, já que o carioca trabalhava entregando encomendas.

Depois da chuva, Josenilton ficou desempregado, sem o carro e com um prejuízo de R$ 40 mil, além de R$ 200 no total, pelos pacotes que haviam ficado dentro do veículo. Na ocasião, ele estava em uma festa de aniversário na Rua Luiz Vargas Fernandes, no bairro Marco II, em Nova Iguaçu. O episódio traumático foi relembrado à Agenda do Poder.
“Entre os dois lados da rua tinha um córrego, não tem como acessar diretamente. O córrego passa ali no meio. Eu cheguei na festa por volta das 16h da tarde. Quando foi por volta de 17h30 começou a chover. O meu carro estava encostado no muro das escadas, não estava perto do córrego nem nada”, lembra.
Na ocasião, ele comentou com uma amiga que estava chovendo e ficou receoso pela presença do córrego na rua, principalmente por não conhecer o local. Depois de 40 minutos, um amigo foi ao trecho.
“Quando ele abriu o portão, ficou desesperado. A rua já estava tomada. O rio já tinha invadido tudo. Eu estava em um ponto mais alto da rua. A água não chegava a bater totalmente no meu joelho. Mas a força da água era muito grande”, relembra.
Além do carro de Josenilton, um outro veículo também foi arrastados pela água. “Primeiro arrastou o meu carro. Aí começou aquela histeria toda. Falaram: ‘Não vai sair ninguém daqui, vocês vão morrer”.
Mas a enchente levou mais que isso. Arrastou expectativas e a garantia de qualidade de vida das vítimas.
“No dia 4 de fevereiro enveloparam o carro e eu passei a ter trabalho garantido todos os dias. Foi quando eu pensei: ‘agora vai ficar tudo tranquilo’. Só que pouco tempo depois veio essa chuva e levou o carro”.
Josenilton Junior, autônomo
Josenilton abriu uma vaquinha online, apelidada de “Amigos da Shopee” com o valor do prejuízo, estimado em R$ 40 mil. Além disso, recebeu ajuda de pessoas que se solidarizaram com a perda dele e de outras pessoas afetadas no temporal.

Adensamento populacional e ocupação irregular
Além da posição geográfica que desfavorece a Baixada, outro fator contribui para o agravamento das enchentes: o adensamento populacional aliado à ocupação irregular do território.
Segundo o arquiteto e urbanista Gerônimo Leitão, da Universidade Federal Fluminense (UFF), a região ainda apresenta limitações estruturais nos sistemas de drenagem urbana.
“Na Baixada Fluminense, por exemplo, são poucas as situações em que existe o sistema separado de drenagem. Muitas vezes é um sistema único, o que, em situações de enchente, gera um risco ainda maior.”
E quando o grande volume de água se soma ao sistema de esgoto, os riscos se multiplicam.
“Isso ocorre porque há a mistura da água da chuva com esgoto, o que amplia o quadro de dificuldades em termos de saúde pública e de doenças de veiculação hídrica”, afirma.
A ausência de espaços arborizados também contribui, sem condições para o escoamento natural da água:
“Hoje, as áreas de maior vulnerabilidade são justamente aquelas onde não há infraestrutura implantada. Não há drenagem, não há plantio nas encostas e arborização, que contribuiriam para a contenção do solo através do enraizamento e da proteção proporcionada pelas folhas das árvores. As folhas reduzem o impacto da água da chuva no solo”, acrescenta o arquiteto.
O crime organizado no caminho das manutenções
Em outros territórios, os serviços de manutenção podem encontrar obstáculos em lugares onde o acesso é limitado pelo controle armado do crime organizado. Lembra o especialista:
“O acesso ao córrego que atravessa a favela deixou de existir. E esse acesso é fundamental para realizar a manutenção da vazão do córrego, porque os sedimentos reduzem o espelho d’água e a capacidade de vazão do rio. Em momentos de chuvas torrenciais, ocorre o extravasamento”.
Sem falar da prática do descarte de lixo em áreas de mangue e reservas ambientais. Neste caso, lembra Gerônimo, o lixo cria barreiras que comprometem a vazão da água.
Além disso, na Região da Baixada, há a ocupação imprópria de encostas, lagunas e rios. Justamente áreas que não são recomendadas para ocupação.
“Áreas consideradas de risco acabam sendo ocupadas, não porque as pessoas desejem, mas porque precisam”, lembra o arquiteto.

Piscinões e jardins verdes: a resposta está na prevenção
Segundo Gerônimo, há maneiras de lidar com o adensamento populacional através de ferramentas de geotecnia. A Rocinha, inclusive, conhecida por ser a favela mais populosa na Zona Sul do Rio, é uma exemplar neste tipo de prática.
A região recebeu obras na época do programa Favela-Bairro, pioneiro da prefeitura em termos de infraestrutura e saneamento básico, nos anos de 1994-2000.
“O Rio de Janeiro tem excelência em obras de geotecnia. Eu trabalhei durante anos na Rocinha, e a comunidade se tornou um laboratório de soluções de geotecnia: muros de peso, cortinas atirantadas, impermeabilização de taludes, calhas. Tudo isso reduziu drasticamente as situações de risco”, explica.
O asfalto como modernidade
No perfil de intervenções, há ressalvas sobre o uso do asfalto. De acordo com os especialistas, o concreto é recebido como um símbolo de modernidade, mas contrasta com o ideal de impermeabilização. Neste caso, o bloco de concreto intertravado seria uma alternativa, explica o arquiteto Gerônimo Leitão.
“O asfalto é associado à modernidade, à ideia de cidade. Mesmo que ele traga problemas em termos de recomposição do pavimento, conforto térmico e impermeabilização do solo”, explica.
Além disso, os especialistas também citam os piscinões como sugestões de saneamento. Estruturas que fazem a retenção inicial e depois orientam a água para um corpo hídrico maior, no caso do Rio, a Baía de Guanabara. É o que aponta o professor Julio Cesar Wasserman:
“Entre as soluções possíveis estão ampliar canalizações e construir reservatórios de retenção, como os chamados piscinões. Mas antes de fazer qualquer obra é preciso conhecer bem a bacia de drenagem. Mapear o relevo com precisão, saber onde há solo permeável ou impermeável”.
Tudo as informações são inseridas em modelos matemáticos, que simulam diferentes cenários de chuva e mostram quais áreas podem inundar. Ainda conforme Wasserman, é muito mais barato fazer essas simulações do que construir obras baseadas em tentativa e erro.
“Outro ponto importante é investir em soluções baseadas na natureza. Por exemplo, pavimentos permeáveis, jardins de chuva e áreas verdes que permitem a infiltração da água. Em vez de cobrir tudo com concreto, é possível criar espaços que absorvam parte da água da chuva”.
Um Rio outro: investimentos e obras
Segundo a Prefeitura do Rio, desde 2021 o município tem ampliado os investimentos em ações de prevenção e obras voltadas para reduzir os impactos das chuvas e das ondas de calor.
Ao todo, já foram destinados R$ 5,4 bilhões para esse tipo de intervenção. Desse montante, R$ 2,8 bilhões integram o Plano Verão 2025/2026, anunciado em outubro, que reúne 151 obras em andamento ou em fase de contratação nas cinco regiões da cidade.
Entre as iniciativas citadas está o programa Bairro Maravilha, na Zona Oeste, voltado à urbanização de áreas com obras de drenagem, saneamento, pavimentação e construção de calçadas, com o objetivo de melhorar a mobilidade e a infraestrutura urbana.
A próxima fase das intervenções no bairro Jardim Maravilha será executada com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com investimento previsto de R$ 340 milhões. O projeto inclui a construção de um dique e de reservatórios para conter as cheias do Rio Cabuçu-Piraquê. As obras devem começar ainda neste semestre.
Leia a nota da Prefeitura na íntegra:
“Desde 2021, a Prefeitura do Rio tem investido maciçamente em ações de prevenção e obras voltadas para os impactos das chuvas e calor em toda a cidade. Já foram totalizados R$ 5,4 bilhões em investimentos e, deste total, R$ 2,8 bilhões fazem parte do Plano Verão 25/26 anunciado em outubro, com investimentos em 151 obras em andamento ou em fase de contratação, que somam intervenções estruturantes nas cinco regiões da cidade. Antes, de 2021 a 2025, foram 392 obras realizadas, com R$2,6 bilhões de investimentos.
Na Zona Oeste, somente com as obras do programa Bairro Maravilha, foram concluídas 64 intervenções e realizados investimentos que superam R$ 480 milhões. O programa atualmente segue com obras em mais 14 localidades, com investimentos de R$226 milhões. O Programa Bairro Maravilha é uma iniciativa de urbanização e infraestrutura que transforma localidades com obras de drenagem, saneamento, asfalto e calçadas, melhorando a qualidade de vida e a mobilidade de milhares de moradores.
Uma das principais intervenções está no projeto desenvolvido para o bairro Jardim Maravilha que, mesmo atingido pelas chuvas do mês de fevereiro, o mais chuvoso dos últimos 30 anos, já sentiu os impactos das melhorias. A primeira fase de obras foi entregue em março de 2025, onde foram investidos mais de R$ 50 milhões em infraestrutura e urbanização. E essa região beneficiada não registrou problemas alagamentos nas últimas chuvas.
A próxima fase das intervenções no Jardim Maravilha será via PAC, com investimentos de R$ 340 milhões. Nessa fase estão incluídas a construção do dique e reservatórios para conter as cheias do Rio Cabuçu-Piraquê e será iniciada ainda neste semestre. A Rua Campo Mourão está contemplada nesta etapa das obras.
Além disso, a Prefeitura mantém máquinas nos rios da região de Jardim Maravilha por meio de um contrato permanente de manutenção. Foram retiradas mais de 8 mil toneladas de resíduos dos rios Cabuçu-Piraquê e afluentes neste verão.
As obras do PAC na Zona Oeste seguem em Realengo, com a implementação de um novo sistema de drenagem, que vai mitigar os transtornos causados por alagamentos em dias de muita chuva. Ao todo, serão mais de cinco quilômetros de novas galerias pluviais que serão construídas para reduzir enchentes.
Há também intervenções previstas no Rio Catarino e a construção de um reservatório para conter as águas do Rio Piraquara. Os investimentos são de R$ 123,5 milhões, com recursos do Governo Federal, por meio do Ministério das Cidades, que coordena o programa Novo PAC, e da Caixa Econômica Federal.
Além disso, desde novembro do ano passado, a Prefeitura vem atuando na limpeza de rios e canais da região da zona oeste, tendo retirado mais de 48 mil toneladas de resíduos até o momento.
Já o Centro de Operações e Resiliência (COR-Rio) é o ponto de integração da Prefeitura do Rio e um hub de tecnologia de diversos órgãos municipais que atua 24 horas por dia no monitoramento e prevenção aos efeitos das intempéries climáticas na cidade. Funciona 24 horas por dia, reúne tecnologia de ponta, radares meteorológicos, sistema de alerta de raios e um parque de 5,5 mil câmeras espalhadas pela cidade. Recentemente, o COR-Rio recebeu, recentemente, R$ 7 milhões de investimento na aquisição de um segundo radar meteorológico e R$ 38 milhões na expansão de sua estrutura física e tecnológica.
Além disso, gerentes regionais da Defesa Civil Municipal mantém contato constante com moradores de áreas sensíveis a alagamentos para apoiar e orientar na busca por locais seguros e abrigados.”
*Estagiária sobre supervisão de Thiago Antunes





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