Depoimento de Bolsonaro à PF marcado para 5 de junho reacende tensão sobre trama golpista e medo de prisão

Ex-presidente será ouvido em inquérito contra Eduardo Bolsonaro, acusado de articular sanções contra ministros do STF

A Polícia Federal (PF) marcou para o próximo dia 5, às 15h, o depoimento do ex-presidente Jair Bolsonaro, na sede da corporação em Brasília. O interrogatório será realizado no âmbito do inquérito aberto pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contra seu filho, o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). A informação foi confirmada à equipe da coluna de Malu Gaspar, em O Globo, por advogados que integram a defesa do ex-presidente.

A investigação foi instaurada pelo STF na terça-feira (27), a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), que acusa Eduardo de crimes como coação no curso do processo, obstrução de investigação de organização criminosa e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. A denúncia se baseia na atuação do parlamentar, que está radicado nos Estados Unidos desde fevereiro, junto a membros do governo Donald Trump e congressistas norte-americanos, para pressionar autoridades brasileiras por meio de sanções financeiras.

A PGR sustenta que Eduardo Bolsonaro utiliza de forma recorrente as redes sociais para divulgar contatos e articulações em favor de medidas contra ministros do STF — como Alexandre de Moraes —, o procurador-geral Paulo Gonet e delegados da PF envolvidos nas apurações da tentativa de golpe, entre eles Fábio Shor.

A condução do inquérito foi atribuída a Moraes, por decisão do presidente do STF, Luís Roberto Barroso. O próprio Moraes determinou que Bolsonaro seja ouvido pela PF, por considerá-lo o “responsável financeiro” pela permanência do filho nos EUA — o ex-presidente já declarou publicamente que custeia a estadia de Eduardo com doações recebidas via Pix.

Além disso, Moraes destacou que Jair Bolsonaro é diretamente beneficiado pela campanha internacional promovida pelo filho, que busca deslegitimar magistrados e investigadores que atuam no processo no qual ele próprio é réu por tentativa de golpe de Estado.

A abertura da investigação intensificou a tensão no núcleo familiar de Bolsonaro. Segundo apurou a coluna, o ex-presidente tem manifestado a aliados preocupação constante com a possibilidade de prisão preventiva, ou até mesmo flagrante, caso Moraes interprete que os atos do filho configuram crime continuado com sua anuência.

“Golpe de Estado é coisa séria”, afirmou o ministro Flávio Dino ao analisar outro episódio relacionado à tentativa golpista, rebatendo a tese de que a ausência de mortes isentaria os envolvidos de graves acusações. Já o ministro Luiz Fux declarou: “Não se pode de forma alguma dizer que não aconteceu nada. É impossível afirmar isso”.

A Primeira Turma do STF, por unanimidade, aceitou denúncia contra Jair Bolsonaro e sete de seus aliados pelo envolvimento na trama golpista. No processo, Alexandre de Moraes enfatizou que a denúncia é detalhada e consistente, com farta descrição dos fatos e das intenções de abolir o Estado de Direito.

Em paralelo, aliados de Eduardo Bolsonaro interpretaram, sob anonimato, a abertura do inquérito como uma oportunidade de reforçar a narrativa de “perseguição política” ao deputado e ao pai. Essa visão vem sendo cultivada por Eduardo desde que se licenciou do mandato e se mudou para os EUA, onde tenta mobilizar o entorno de Trump contra as instituições brasileiras, especialmente o STF.

Essa retórica, segundo os interlocutores do deputado, visa fortalecer a pressão sobre o Supremo e criar constrangimentos diplomáticos, aprofundando ainda mais o embate entre o bolsonarismo e a cúpula do Judiciário.

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