Datafolha: 82% dos brasileiros apoiam cotas em concursos públicos e cargos de liderança

Pesquisa mostra que maioria defende ações afirmativas; mulheres e negros ainda enfrentam barreiras no acesso ao serviço público

A maioria dos brasileiros é favorável à adoção de cotas em concursos públicos e cargos de liderança no setor público, informa reportagem da Folha de S. Paulo. É o que revela pesquisa Datafolha encomendada pelo Movimento Pessoas à Frente, divulgada nesta sexta-feira. O levantamento mostra que 82% apoiam a reserva de vagas em certames para negros, indígenas, quilombolas e mulheres — grupo que atualmente não é contemplado pela legislação.

O apoio também se estende a cargos de comando: 80% concordam com cotas para chefias e funções de liderança no serviço público, voltadas a esses mesmos grupos. Apenas 17% dos entrevistados se opõem às cotas em concursos e 19% rejeitam a aplicação da política para postos de liderança.

Proteção no ambiente de trabalho

Além da reserva de vagas, os dados indicam amplo apoio a medidas que visam garantir a proteção de servidoras no ambiente de trabalho. Segundo a pesquisa, 92% defendem a criação de redes de apoio para mulheres e 89% são favoráveis a programas de combate ao assédio no serviço público.

Apesar da aprovação majoritária, parte dos entrevistados apresentou ressalvas. Entre os que apoiam as cotas em concursos, 12% disseram concordar apenas parcialmente com a política. No caso das cotas para cargos de liderança, esse percentual sobe para 16%.

Desigualdade de gênero e raça

O levantamento reforça que o setor público federal ainda está distante da equidade. As mulheres representam 44,5% do total de servidores, contra 55,5% de homens. Em cargos de liderança, a disparidade se repete: elas ocupam 42,3% das chefias, enquanto eles respondem por 57,7%.

Quando o recorte é racial, a desigualdade se aprofunda. Mulheres negras são apenas 15,4% dos líderes, enquanto homens brancos chegam a 33%.

Segundo Jessika Moreira, diretora-executiva do Movimento Pessoas à Frente, parte da resistência às ações afirmativas vem da percepção de que as cotas seriam incompatíveis com a meritocracia. Para ela, esse argumento não se sustenta: “[Com as cotas], vamos garantir que essas pessoas entrem conseguindo romper um processo que é historicamente marcado por exclusão de pessoas negras e de mulheres”.

Resultados aquém do esperado

A promessa de ampliar a diversidade no serviço público ganhou força com o primeiro Concurso Nacional Unificado (CNU), mas os números mostraram que a desigualdade de gênero persiste. Embora as mulheres fossem maioria entre os inscritos (56%), representaram apenas 37% dos aprovados.

O resultado levou o Ministério da Gestão e da Inovação (MGI) a adotar medidas inspiradas no Itamaraty. Em 2023, o concurso para diplomata convocou candidatas adicionais para garantir que elas fossem ao menos 40% dos aprovados na segunda fase. Agora, o CNU prevê que mulheres sejam pelo menos metade dos classificados para a etapa seguinte.

Ainda assim, a experiência diplomática mostrou limites: na última edição, mesmo com a ação afirmativa, as mulheres foram 32% dos aprovados, apenas um ponto acima do ano anterior.

Barreiras estruturais

Para a especialista Ana Pessanha, da República.org, a falta de políticas específicas para mulheres e negros compromete a diversidade em posições de liderança. Segundo ela, fatores como a dupla jornada de trabalho e a necessidade de conciliar estudo com emprego dificultam a preparação para concursos. “Carreiras melhor remuneradas exigem preparação prolongada, com alta carga de estudo. Esse tipo de exigência tende a excluir candidatos que não dispõem de tempo e recursos para se dedicar exclusivamente à preparação”, afirmou.

Avanços na agenda legislativa

De olho na reforma administrativa, o Movimento Pessoas à Frente elaborou dois anteprojetos sobre equidade de gênero, entregues à deputada Soraya Santos (PL-RJ). As propostas incluem a criação de uma política nacional de promoção da paridade em cargos comissionados e outra de combate ao assédio no setor público.

Jessika Moreira defende que o tema seja incorporado pelo Congresso: “Qualquer tema [de diversidade] que não for absorvido pela proposta da reforma vai gerar uma grande frustração à população brasileira, como mostra o Datafolha. O parlamento tem um dever de responder muito concretamente, através da proposta, a esse anseio”.

A pesquisa ouviu 2.008 pessoas de 16 anos ou mais em 136 municípios, entre os dias 9 e 12 de junho deste ano. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou menos, com nível de confiança de 95%.

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