Datafolha: 51% dizem ser muito importante ter uma mulher no STF e 46% defendem pessoas negras na Corte

Pesquisa mostra que maioria dos brasileiros considera importante ampliar diversidade no Supremo em meio à vaga aberta e derrota do governo no Senado

A composição do Supremo Tribunal Federal voltou ao centro do debate político nacional após a rejeição inédita, pelo Senado, do nome indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ocupar uma cadeira na Corte, informa a Folha de S. Paulo. Em meio à crise provocada pela derrota do Palácio do Planalto, uma pesquisa Datafolha revelou que a maioria dos brasileiros considera importante que o próximo ministro do STF seja uma mulher e também uma pessoa negra.

O levantamento foi realizado nos dias 12 e 13 de maio, ouvindo 2.004 pessoas em 139 municípios do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O estudo está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-00290/2026.

Segundo os dados, 51% dos entrevistados afirmam que é muito importante a escolha de uma mulher para o Supremo, enquanto 18% consideram esse critério um pouco importante. Outros 27% disseram não enxergar relevância nessa característica.

Atualmente, a Corte conta com apenas uma mulher entre seus dez ministros: a ministra Cármen Lúcia. O cenário se consolidou após a aposentadoria de Luís Roberto Barroso, em outubro de 2025, deixando aberta a 11ª cadeira do tribunal.

A pesquisa também mostrou apoio relevante à indicação de uma pessoa negra para o STF. Para 46% dos entrevistados, isso é muito importante, enquanto 16% avaliam como um pouco importante. Já 34% afirmaram que a condição racial não tem importância para a composição da Corte.

Hoje, apenas dois ministros do Supremo se declaram pardos: Kassio Nunes Marques e Flávio Dino. Os demais integrantes do tribunal são brancos.

Derrota inédita no Senado

A discussão ganhou força após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sofrer uma derrota sem precedentes no Senado Federal. O advogado-geral da União, Jorge Messias, indicado por Lula para a vaga aberta no STF, teve seu nome rejeitado pelos senadores.

Foi a primeira vez, desde 1894, que um indicado de um presidente da República para o Supremo foi barrado pelo Senado.

Apesar da repercussão política, 59% dos brasileiros disseram não ter tomado conhecimento da rejeição de Messias. Entre os que souberam do episódio, 53% avaliam que o governo saiu enfraquecido, enquanto apenas 7% afirmam que o Planalto ficou mais forte. Outros 36% entendem que o episódio não alterou a força política da gestão petista.

A derrota ocorreu em um ambiente de disputa intensa nos bastidores de Brasília. Tanto o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, quanto integrantes do STF defendiam outro nome para a vaga: o senador Rodrigo Pacheco.

Mesmo diante da rejeição, Lula teria manifestado a aliados a intenção de reenviar o nome de Jorge Messias ao Senado, apesar das dificuldades políticas e regimentais existentes.

Diversidade divide eleitores

Os números do Datafolha também revelam diferenças importantes entre os grupos políticos do país.

Entre os eleitores que afirmam pretender votar em Lula nas eleições presidenciais, 64% consideram muito importante que o próximo ministro seja uma mulher. Já entre os apoiadores de Flávio Bolsonaro, esse índice cai para 41%.

No caso da escolha de uma pessoa negra, 60% dos eleitores de Lula classificam esse ponto como muito importante, contra 35% entre os simpatizantes de Flávio Bolsonaro.

A pesquisa ainda apontou apoio expressivo à escolha de um ministro religioso. Para 46% dos entrevistados, é muito importante que o indicado tenha religião, enquanto 20% classificam isso como um pouco importante.

A religiosidade era considerada um dos trunfos de Jorge Messias, evangélico e visto por aliados do presidente como uma ponte com esse segmento do eleitorado.

Lealdade política e independência

O levantamento também mostrou uma aparente contradição na visão da população sobre o papel dos ministros do Supremo.

Embora 64% afirmem esperar que integrantes da Corte sejam independentes de partidos e políticos, 51% dizem considerar muito importante que o indicado tenha lealdade total ao presidente da República responsável por sua nomeação.

Além disso, 47% avaliam como muito importante que o futuro ministro tenha afinidade política com deputados federais e senadores.

Outro dado chamou atenção: 53% dos entrevistados consideram muito importante que o escolhido tenha apoio dos atuais ministros do STF.

Apesar disso, o critério mais valorizado pela população continua sendo o conhecimento jurídico. Para 85% dos brasileiros, é muito importante que o indicado tenha amplo domínio do direito. Apenas 6% disseram que isso é apenas um pouco importante, enquanto outros 6% afirmaram que não tem relevância.

A Constituição Federal determina que ministros do STF tenham “notável saber jurídico” e “reputação ilibada”.

Impacto no futuro do Supremo

A indefinição sobre a vaga aberta no STF também pode ter impacto direto no próximo governo federal.

Caso a cadeira deixada por Barroso não seja preenchida ainda neste mandato, o vencedor da eleição presidencial deste ano poderá indicar até quatro ministros para o tribunal, alterando significativamente a composição da Corte nos próximos anos.

A situação também reacendeu cobranças de entidades e movimentos sociais por maior diversidade no Supremo, especialmente com a indicação de uma mulher negra para o cargo.

Nas últimas escolhas feitas por Lula para o STF, o presidente optou por nomes de sua confiança pessoal. Em 2023, indicou seu advogado Cristiano Zanin. Depois, escolheu Flávio Dino, então ministro da Justiça e aliado político próximo, para substituir a ministra Rosa Weber.

Com isso, o STF passou de duas mulheres para apenas uma integrante feminina.

Como mostrou a Folha, mesmo que todas as próximas vagas abertas no Supremo sejam preenchidas exclusivamente por mulheres, a Corte ainda permaneceria majoritariamente masculina por quase duas décadas, considerando a aposentadoria compulsória aos 75 anos.

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