A reeleição unânime de Rodrigo Bacellar (União Brasil) para o comando da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, em fevereiro deste ano, simbolizou o ponto mais alto de sua trajetória política. Pela primeira vez desde a fusão entre Guanabara e Rio, os 70 deputados presentes votaram na mesma chapa.
No discurso pós-vitória, Bacellar agradeceu a aliados como o governador Cláudio Castro (PL) e celebrou até o apoio do Psol, último partido a aderir à sua candidatura.
Meses depois, o homem que chegou ao topo do Legislativo fluminense protagonizou uma virada brusca. Bacellar foi preso pela Polícia Federal por determinação do ministro Alexandre de Moraes, acusado de repassar informações sigilosas ao então deputado Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias (MDB), apontado como ligado ao Comando Vermelho.
Relembre a prisão
Para Moraes, há indícios de que o presidente da Alerj atuou para atrapalhar investigações sobre a facção.
Segundo a PF, Bacellar teria alertado TH, na véspera da Operação Zargun, sobre mandados que seriam cumpridos.
Após receber o aviso de Bacellar na véspera da ação, TH Joias retirou objetos da própria casa e chegou a organizar uma mudança para eliminar provas, utilizando um caminhão-baú. O deputado também apagou o conteúdo do celular e passou a usar um aparelho novo.
Nesse novo telefone, porém, TH Joias manteve conversas com Bacellar. Em um vídeo enviado ao presidente da Alerj, o deputado perguntou se poderia deixar para trás alguns objetos, como um freezer.
Bacellar respondeu: “Deixa isso, tá doido? Larga isso aí, seu doido”.
O diálogo foi recuperado pelos investigadores. As mensagens, segundo a PF, indicam que Bacellar atuou para alertar o colega de parlamento e interferir na operação. A polícia ainda tenta identificar quem repassou a ele as informações sigilosas.
A defesa nega qualquer irregularidade e classifica a prisão como desproporcional.
Investigação sobre evolução patrimonial
A detenção ocorre em meio ao avanço de outras frentes de desgaste. O Ministério Público estadual reabriu a apuração sobre a evolução patrimonial de Bacellar, que apresentou salto expressivo entre 2018 e 2022.
Os promotores também investigam se o deputado teria participação oculta em um frigorífico de grande porte em Campos dos Goytacazes.
Relação com Castro
Com a indicação de Thiago Pampolha, então vice-governador, para o Tribunal de Contas do Estado, uma articulação que contou com o aval de Cláudio Castro, Bacellar passou a assumir o governo sempre que o titular se ausentava do estado.
A movimentação ampliou sua projeção política e o colocou como nome praticamente certo da centro-direita para a disputa de 2026, respaldado pelo próprio governador.
No entanto, a relação com Castro, antes marcada por sintonia, entrou em colapso quando Bacellar, no exercício interino do governo, exonerou o secretário de Transportes Washington Reis.
A decisão provocou reação dura de Castro, que ressaltou a falta de diálogo e a ausência de uma aprovação prévia de sua parte e dos campos políticos de sua base, antes da decisão tomada pelo presidente da Alerj.
PEC que endurece regras penais
Em setembro, a Alerj aprovou, em discussão única, o Projeto de Lei 5.908/25, de autoria do presidente da Casa. A proposta cria o Pacote de Enfrentamento ao Crime (PEC-RJ), um conjunto de medidas que endurece a legislação penal no estado.
O texto se estrutura em quatro eixos centrais: a criação do Sistema Estadual de Cerco Eletrônico Inteligente (SISCEI/RJ), que usará inteligência artificial e reconhecimento facial para monitorar reincidentes em crimes violentos, e a proibição de visitas íntimas para condenados por crimes hediondos ou violentos.
Também fazem parte da espinha dorsal da PEC a cobrança parcial de despesas de presos com capacidade financeira e a previsão de internação mínima de dois anos para adolescentes infratores envolvidos em atos graves.
Na justificativa, o deputado Rodrigo Bacellar destacou que o pacote é uma resposta legislativa ao aumento da violência no estado em 2024, quando houve crescimento de aproximadamente 39% nos roubos de veículos e de 13% nos roubos de rua, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ).
Vazamento de dados sigilosos
A ação que prendeu o presidente da Alerj mira o suposto vazamento de informações sigilosas sobre a Operação Zargun, deflagrada em setembro, quando o então deputado estadual TH Joias acabou detido.
A ofensiva desta quarta-feira inclui um mandado de prisão preventiva, cumprido contra Bacellar, além de oito mandados de busca e apreensão e uma ordem de intimação para medidas cautelares alternativas à prisão. Todos foram autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
A ação se insere no contexto da decisão do STF no âmbito do julgamento da ADPF 635/RJ (ADPF das Favelas) que, dentre outras providências, determinou que a Polícia Federal conduzisse investigações sobre a atuação dos principais grupos criminosos violentos em atividade no estado e suas conexões com agentes públicos.
A Alerj informou que ainda não foi comunicada oficialmente sobre a operação ocorrida nesta manhã. “Assim que tiver acesso a todas as informações, irá tomar as medidas cabíveis”, diz a nota.
O partido União Brasil foi procurado, mas não retornou. O espaço segue aberto para eventuais manifestações.
Relembre prisão de TH Joias
A Polícia Federal e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) prenderam, em setembro, Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias (MDB).
O parlamentar é investigado por tráfico de drogas, corrupção, lavagem de dinheiro e negociação de armas com o Comando Vermelho (CV). Ele foi detido em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, Zona Oeste.
A Operação Zargun, da Polícia Federal, cumpriu 18 mandados de prisão preventiva e 22 de busca e apreensão, além do sequestro de bens avaliados em R$ 40 milhões.
Segundo as investigações, o esquema de corrupção envolvia o deputado TH Joias, chefes do Comando Vermelho e outros agentes públicos — entre eles um delegado da PF, policiais militares e ex-secretários.






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