A trajetória de Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, foi marcada desde cedo pela simplicidade, pela fé e pela proximidade com o povo. Nascido e criado no bairro de Flores, em Buenos Aires, ele construiu sua vocação sacerdotal entre brincadeiras em praças de terra batida e o cotidiano dos subúrbios argentinos. A reportagem original é de O Globo, publicada nesta segunda-feira (21), após a confirmação da morte do pontífice, aos 88 anos.
Na praça Herminia Brumana, onde hoje há brinquedos e canteiros, o jovem Jorge corria para jogar futebol após a escola. Meia quadra adiante ficava sua casa de infância, onde viveu com os pais e quatro irmãos. Mas foi em outra esquina do bairro que sua vida tomou outro rumo. Aos 17 anos, ao passar em frente à igreja San José de Flores, sentiu um chamado ao ver a luz acesa no confessionário. A experiência da confissão, espontânea e silenciosa, revelaria a vocação que só anunciaria um ano depois.

“Deixem a luz do confessionário acesa, vocês verão a fila se formar”, repetia ele anos mais tarde, já como bispo, inspirando colegas a manterem as igrejas acessíveis. Ainda jovem, Jorge deixou de frequentar bailes e, certa noite, reuniu os amigos para anunciar sua decisão de seguir a vida sacerdotal. O choque foi grande, especialmente entre as garotas que, segundo relatos, não esconderam as lágrimas.
Um padre no metrô e nas vilas
Mesmo depois de se tornar arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio nunca abandonou os ônibus e o metrô. Recusou privilégios, motorista oficial e segurança pessoal. Preferia circular sozinho, usando o antigo ônibus 5 ou a linha A do metrô, onde conversava com passageiros anônimos. “Gosto de usar o transporte público, é uma forma de sentir o calor das pessoas”, disse em entrevista a um jornal italiano. Em seus últimos dias como cardeal, confessou que uma das maiores saudades era justamente andar de transporte público.

Na vila 21-24, em Barracas, Darío Giménez nunca esqueceu o dia em que o então arcebispo aceitou almoçar em sua casa. A família tinha apenas macarrão com molho para servir. “Ele olhou pra mim e disse: ‘Gosto de sentar à mesa dos pobres, porque eles compartilham o coração’. Me senti valorizado”, contou Darío.
“A rua eu não largo”
Para Francisco, a rua era essencial. “Senão, fico neurótico, viro rato de sacristia”, dizia. Sabia que sua presença entre as pessoas — nas favelas, nos ônibus, nos mercados — era o que o tornava próximo, compreensível, humano. Quando foi alertado por sindicalistas sobre os perigos de caminhar sozinho por Buenos Aires, não recuou. Continuou visitando vilas e denunciando injustiças sociais, como as oficinas clandestinas que vitimaram trabalhadores em incêndios trágicos.
Na Igreja da Misericórdia, em Mataderos, o padre Fernando Gianetti recorda um dia chuvoso em que Francisco chegou de botas de borracha. “Pegou o metrô e o ônibus 103 para honrar a promessa de participar da festa do padroeiro”, relatou. Seu compromisso com os pobres se consolidou em iniciativas como o grupo dos “padres das favelas”, criado por sua inspiração direta.
De Buenos Aires para o mundo
Em 11 de setembro de 2001, data do atentado às Torres Gêmeas, Bergoglio fez uma oração inter-religiosa no Obelisco de Buenos Aires e depois seguiu, a pé, para a Cúria. Vinte dias depois, em Roma, assumiria inesperadamente a principal fala do Sínodo dos Bispos — um momento que muitos apontam como o início de sua ascensão à liderança global da Igreja.

No cotidiano, era também um homem de rituais simples. Morou até o fim de sua vida em Buenos Aires no terceiro andar da Cúria, ao lado da Catedral, e comprava pessoalmente o jornal La Nación todos os dias. Devolvia, anualmente, os elásticos das edições entregues. Aos domingos, passava cedo na banca, conversava com o jornaleiro Luis Del Regno e seguia de ônibus 28 até Lugano, onde distribuía mate a crianças doentes.
“Jesus caminhava entre o povo”
Em 2012, pouco antes de ser eleito Papa, ele resumiu sua visão pastoral: “Jesus passou fazendo o bem. Caminhou entre seu povo. Misturou-se com as pessoas. Sabem onde mais passava o tempo? Na rua”. Foi assim que Francisco moldou sua missão — nas ruas, nos ônibus, entre as crianças e os pobres, nas vilas esquecidas da capital argentina.

Ao ser eleito em 2013, o mundo conheceu o “papa do povo”. Mas para muitos em Buenos Aires, ele sempre será “o padre Jorge”, que preferia o metrô ao carro oficial e o afeto dos humildes às pompas do poder. Um homem que transformou sua cidade — e, depois, o mundo — com a força serena da presença e da escuta.







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