A poucos meses da realização da COP30, conferência global do clima marcada para novembro, em Belém (PA), o governo brasileiro lida com crescente pressão internacional e tensão com o setor hoteleiro local por causa dos altos preços de hospedagem. Segundo reportagem do jornal O Globo, diplomatas e representantes da sociedade civil alertam que os valores inflacionados para o período da cúpula climática já estão forçando países, sobretudo em desenvolvimento, a reduzir suas delegações — algumas, segundo relatos, pela metade.
O descontentamento ganhou força durante a reunião preparatória da Convenção do Clima das Nações Unidas, encerrada nesta quinta-feira (26) em Bonn, na Alemanha. Representantes europeus expressaram preocupação direta à presidência da conferência, após uma apresentação do secretário extraordinário da COP30, Valter Correia, que assegurou que Belém estaria preparada para receber o evento.
“O que ouvi em Bonn é uma profunda preocupação da sociedade civil e de muitos países quanto à sua capacidade de participar da COP30 devido à falta de acomodações e preços”, disse um integrante de uma ONG ambiental global que pediu anonimato. Segundo ele, diplomatas classificaram como insatisfatória a apresentação do governo brasileiro sobre a logística.
Os temores de exclusão de delegações de países em desenvolvimento repercutem de forma crítica em um dos temas centrais da COP30: o financiamento climático. Para além dos altos valores, que chegam a mil dólares por diária, há queixas sobre a dificuldade de reservar acomodações. Delegações alegam que a prometida plataforma oficial de hospedagens — anunciada para junho — ainda não está disponível.
Ameaça de mudança de sede
Embora apenas o Brasil tenha a prerrogativa para alterar o local da conferência, cresce nos bastidores a especulação de que o Secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima possa formalizar um pedido de mudança da sede, caso o impasse persista. Um precedente recente ocorreu em 2019, quando a COP25 foi transferida de Santiago, no Chile, para Madri, na Espanha, a apenas três meses do evento.
Diante da crise, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça, notificou 24 estabelecimentos de hospedagem, além do Sindicato de Hotéis e Restaurantes de Belém e Ananindeua. A ação, de caráter preventivo, visa apurar possíveis práticas abusivas e aumentos atípicos nas tarifas para o período da conferência.
Os hotéis têm dez dias para responder sobre os preços praticados e as justificativas para eventuais aumentos. Já o sindicato recebeu pedido distinto, com prazo de cinco dias, incluindo informações sobre possíveis ações coordenadas com entes públicos ou privados e lista de associados. Em resposta, o sindicato alegou que a solicitação “ultrapassa os limites legais” e representa tentativa de ingerência na iniciativa privada.
Reação do setor hoteleiro
Eduardo Boullosa Júnior, presidente do sindicato, nega qualquer boicote à COP30 e critica a falta de diálogo por parte do governo federal. “O trabalho desenvolvido em Belém em relação às acomodações começou muito tarde”, afirmou. Segundo ele, a organização cogitou inicialmente alojar delegações em instalações do Exército, o que seria incoerente e impraticável.
Boullosa também responsabiliza a especulação em imóveis de luxo pela escalada nos preços e defende o direito de cada hotel estabelecer suas próprias tarifas. “Acho que cada hotel deve cobrar o preço que deseja. Se não tiver ocupação total, é problema do empresário. A COP são 15 dias, não é como o Círio de Nazaré”, disse ao Globo.
A Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Pará (ABIH-PA), por sua vez, reforça que não aceitará ameaças. O presidente da entidade, Tony Santiago, garante que há empenho para garantir tarifas viáveis: “Estamos comprometidos a hospedar todas as 159 delegações num esforço conjunto”.
Governo reforça compromisso com Belém
Apesar da tensão, tanto a Secretaria Extraordinária da COP30 quanto o Comitê Estadual reiteram que a conferência ocorrerá em Belém. O governo do Pará afirma atuar em parceria com instituições privadas para garantir uma COP “acolhedora, segura e acessível”.





