A relação entre Brasil e Estados Unidos entrou em um novo momento de tensão após o Ministério das Relações Exteriores criticar a conduta do governo americano e adotar uma medida de reciprocidade envolvendo a cooperação policial entre os dois países. A decisão foi anunciada após a retirada de um delegado da Polícia Federal brasileira que atuava em território norte-americano.
Segundo o Itamaraty, os Estados Unidos não seguiram a “boa prática diplomática de diálogo” ao determinar a interrupção das funções do delegado Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava como oficial de ligação em Miami.
Resposta imediata do Brasil
Como reação, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, determinou a retirada das credenciais de um agente norte-americano que atuava dentro de uma unidade da PF em Brasília.
Com a medida, o servidor dos Estados Unidos deixa de ter acesso às instalações da Polícia Federal e às bases de dados utilizadas na cooperação entre os dois países.
De acordo com o governo brasileiro, a decisão segue o princípio da reciprocidade. “Os termos da aplicação da reciprocidade envolvem a interrupção imediata do exercício de funções oficiais de representante norte-americano em território brasileiro”, informou o Itamaraty.
Falta de diálogo e críticas diplomáticas
O Ministério das Relações Exteriores afirmou que a decisão americana ocorreu sem comunicação formal adequada. Segundo a pasta, o delegado brasileiro foi informado apenas de forma verbal sobre a interrupção de suas atividades.
“O agente brasileiro atuava com base em memorando de entendimento firmado entre os dois governos”, destacou o Itamaraty, ao reforçar que a medida não respeitou os mecanismos previstos para cooperação bilateral.
O governo brasileiro também afirmou que a atitude dos Estados Unidos rompeu práticas consideradas padrão nas relações diplomáticas entre os dois países, que mantêm cooperação há mais de 200 anos.
Contexto do caso
O delegado Marcelo Ivo de Carvalho exercia função de ligação junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA (ICE) desde 2023, em uma missão considerada transitória. Em 2025, sua permanência havia sido prorrogada.
O episódio ganhou repercussão após a atuação do delegado em uma operação que resultou na prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem em território norte-americano. Ele foi detido no dia 13 de abril e liberado dois dias depois.
Ramagem havia sido condenado anteriormente pelo Supremo Tribunal Federal a 16 anos de prisão em um processo relacionado a crimes contra o Estado democrático de direito.
Posição do governo brasileiro
A resposta do Brasil também foi respaldada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já havia sinalizado a possibilidade de adotar a mesma medida em caso de confirmação de abuso por parte do governo americano.
“Se houve um abuso, nós vamos fazer a reciprocidade com os deles no Brasil”, declarou o presidente, ao afirmar que o país não pode aceitar “ingerência” ou “abuso de autoridade”.
A declaração reforça o posicionamento do governo de que a cooperação internacional deve seguir regras claras e respeitar acordos previamente estabelecidos.
Impacto nas relações internacionais
A adoção da reciprocidade marca um novo capítulo na relação entre Brasil e Estados Unidos e pode impactar a cooperação em áreas estratégicas, como segurança e combate ao crime.
Especialistas apontam que o episódio pode levar a uma revisão dos protocolos de atuação conjunta entre os países, especialmente no intercâmbio de informações e agentes.
Apesar da tensão, o governo brasileiro afirma que busca manter o diálogo, desde que baseado no respeito às normas diplomáticas.





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