CPI desmascara ‘Prevent Senior’: fraudou atestados de óbito para esconder mortes por Covid19, e mentiu até sobre a mãe do dono da Havan, que morreu no hospital

Em depoimento à CPI da Covid, o diretor executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, afirmou que a operadora de saúde alterou fichas de pacientes internados em seus hospitais para retirar o registro de covid-19, inserindo outra doença no lugar. A empresa se tornou alvo da CPI após médicos afirmarem que a rede virou…

Em depoimento à CPI da Covid, o diretor executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, afirmou que a operadora de saúde alterou fichas de pacientes internados em seus hospitais para retirar o registro de covid-19, inserindo outra doença no lugar. A empresa se tornou alvo da CPI após médicos afirmarem que a rede virou uma espécie de “laboratório” para testes de medicamentos sem eficácia comprovada.

Senadores acusaram o executivo de ter confessado um crime. Seis médicos consultados pelo Estadão disseram que essa prática de trocar o CID (Código Internacional da Doença) “jamais” poderia ocorrer.

A empresa se tornou alvo da CPI após médicos denunciarem que a rede se tornou uma espécie de “laboratório” que transfrmou os pacientes em cobaias, sem consultá-los, para testar a eficácia da hidroxicloroquina no tratamento da covid, tese defendida pelo governo federal. Um dossiê elaborado por ex-funcionário da Prevent Senior, entregue à CPI, apontou inclusive atestados de óbitos fraudados de forma a omitir mortes pela doença.

O Estadão revelou ontem que um dos casos é o da mãe do empresário Luciano Hang, Regina, que foi internada em um hospital da rede em São Paulo com diagnóstico de covid no dia 31 de dezembro e morreu cerca de um mês depois. No atestado de óbito, no entanto, não há menção à covid. A revista Piauí informou que o mesmo ocorreu no caso do médico Anthony Wong, um defensor do chamado “tratamento precoce” nas redes sociais.

A OMISSÃO DO CFM

A colunista do Globo Malu Gaspar responsabilizar a própria corporação médica por estas situações: “O que é possível afirmar com certeza é que essas iniciativas só foram tão longe porque quem tinha a função de pará-las não o fez. Porque o Conselho Federal de Medicina, que deveria zelar pela ética médica, empenhou os maiores esforços não para proteger os pacientes, mas sim os macabros doutores brasileiros”, afirmou, referindo-se ao uso indiscriminado de tratamento precoce ineficaz contra a Covid19, causa de muitas mortes.

O volume de suspeitas de fraude complicou ontem a situação do diretor da Prevent. Pressionado pelos senadores, ele admitiu a troca do CID após ser confrontado com uma mensagem de Whatsapp, de 17 de novembro de 2020, na qual um médico da rede pede para “padronizar” o CID “para qualquer outro (código), exceto B34.2 (da covid)”.

“O CID era mudado no sistema para tirar o paciente de isolamento e não no atestado de óbito ou, então, no atestado que ia para a vigilância sanitária, já notificando o paciente que estava, sim, com covid-19”, afirmou Batista Jr. Ele acrescentou que a mudança ocorria após um período de 14 a 21 dias de internação.

“Sinceramente, modificar o código de uma doença é um crime. Infelizmente, o Conselho Federal de Medicina não pune o senhor”, disse o senador Otto Alencar (PSD-BA), que é médico. Procurado ontem, o CFM não comentou.

O Estadão conversou com seis médicos, chefes de Uti-covid, e eles afirmaram que “jamais” se altera o CID para retirar o paciente do isolamento. Um profissional de saúde classificou a mudança como “totalmente errada” e “antiética”, porque você altera o histórico do paciente. Outro afirmou ser “amoral” e “leviano”.

O resumo da internação de um paciente é um somatório de CIDS e não uma subtração, disse um dos médicos. Na condição de anonimato, afirmou que são se muda “a história de uma pessoa” para tirá-la do isolamento. No momento da alta do paciente ou fechar um caso, segundo este médico, deve-se listar todos os CIDS dele, e não retirá-lo. O CID é uma base internacional de códigos únicos para lesões, doenças e causas de morte. A classificação permite a identificação de tendências e estatísticas no mundo.

Óbitos. No dossiê entregue à CPI, 15 médicos que trabalharam na Prevent Senior apontaram “inúmeros casos” de irregularidades em declarações de óbito, entre eles a de Regina Hang e Anthony Wang.

“Como outros tantos casos de óbitos na rede Prevent Senior decorrentes da covid-19 que não foram devidamente informados às autoridades, a declaração de óbito da sra. Regina Hang foi fraudada ao omitir o real motivo do falecimento”, diz o documento. Hang é apoiador do presidente Jair Bolsonaro e incentivador do chamado “tratamento precoce”, composto por medicamentos sem eficácia comprovada ou contraindicados para tratar a doença.

O Estadão teve acesso à certidão de óbito de Regina. No documento, a causa da morte é descrita como “disfunção de múltiplos órgãos, choque distributivo refratário, insuficiência renal crônica agudizada, pneumonia bacteriana, síndrome metabólica, acidente vascular isquêmico prévio”. Não há menção a covid.

O Ministério da Saúde padroniza a codificação das causas de morte informadas na declaração de óbito por causa da covid. Segundo a pasta, as causas atestadas pelo médico no documento “refletem uma sequência de eventos que conduziram à morte e as relações existentes entre elas”. Quando há um caso confirmado de covid, o ministério afirma que a declaração de óbito deve seguir uma “sequência de eventos que levou ao óbito”, apontando a doença “na última linha” do documento. A identificação do número de óbitos por covid é fundamental para o País ter uma cenário real da doença.

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