No coração do bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, uma pequena porta revela um dos mais importantes centros de preservação da cultura popular brasileira. Trata-se da sede da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), instituição que reúne um acervo com mais de 150 mil folhetos e 12 mil títulos de cordelistas de todo o país, mantendo viva uma tradição que por décadas resistiu ao preconceito e à marginalização.
A reportagem foi publicada pela Folha de S.Paulo e destaca como o espaço tornou-se um reduto de valorização da literatura de cordel, reunindo temas que vão das clássicas pelejas entre poetas a assuntos como filosofia, ciência e história — tudo isso estampado em xilogravuras coloridas que marcam o estilo visual do gênero.
A trajetória da ABLC começa com a história de Gonçalo Ferreira da Silva, considerado um dos maiores nomes do cordel no Brasil. Nascido em Itu, no Ceará, ele chegou ao Rio de Janeiro aos 13 anos, na década de 1950. Ao lado da esposa, Maria do Livramento Lima da Silva, a “Madrinha Mena”, sustentou a família vendendo cordéis na Feira de São Cristóvão. “Era uma época muito difícil. Tinha que pegar dois ônibus para ir à feira, chegava às 6h da manhã e ficava vendendo os cordéis”, relembra ela, hoje com 74 anos, ainda presente na sede da ABLC, tocando violão e declamando versos aos visitantes.
Foi inspirado por outras academias literárias que, no fim dos anos 1980, Gonçalo idealizou a criação de uma entidade voltada exclusivamente à literatura de cordel. Após reunir 40 autores, fundou oficialmente a ABLC em 1988. A sede atual, no entanto, só foi inaugurada cinco anos depois graças à doação do espaço pelo general Humberto Pelegrino, um admirador da arte popular que acompanhava as dificuldades dos cordelistas para realizar encontros.
“Aquilo foi um divisor de águas para o cordelista que lutava sozinho, vendendo sua obra em feiras e estações de trem”, explica Marlon de Herval, filho de Gonçalo e curador da entidade. “Com a Academia, eles passaram a ter um fundamento, inclusive para resistir ao preconceito.”
O atual presidente da ABLC, Almir Gusmão, reforça o papel da instituição na valorização dos autores: “Ninguém acreditava que pudesse dar certo. Muitos cordelistas eram semi-analfabetos, mas Gonçalo acreditava que todos podiam estudar, fazer faculdade, dominar o português”.
A ABLC mantém até hoje plenárias mensais e continua publicando obras de autores de todo o Brasil. A Academia também alimenta e apoia as cordeltecas — bibliotecas especializadas no gênero. Um levantamento da instituição já identificou ao menos 22 cordeltecas, principalmente no Nordeste, mas o número pode ser maior. “O Gonçalo falava em 36 cordeltecas no Brasil, mas nunca deixou isso por escrito”, observa Gusmão.
Algumas dessas bibliotecas homenageiam o fundador da entidade e sua companheira. Em Bauru (SP), uma cordelteca criada por um menino de 13 anos leva o nome de Gonçalo Ferreira da Silva. Já outras fazem referência a Madrinha Mena.
A pesquisadora Joseilda Souza Diniz, do Museu dos Três Pandeiros, na Paraíba, destaca a importância desses espaços: “Hoje o cordel entra na escola, é visto como cultura e educação, e até fora do país. Mas ainda há preconceito. As cordeltecas são fundamentais para que a tradição chegue às novas gerações”.
O reconhecimento da literatura de cordel como patrimônio cultural brasileiro pelo Iphan, em 2018, consolidou a relevância do gênero. Ainda assim, é graças à resistência de nomes como Gonçalo e Mena que o cordel segue vivo, declamado, cantado e estudado por novas gerações de poetas populares.





