Ele é o único bairro carioca que tem uma ilha num rio. As da Barra não valem, ficam numa lagoa. E olha que não é uma ilha qualquer. Seu tamanho equivale a mais de dez campos semelhantes ao do Maracanã e conta com escola, empresas, residências e até com um time de futebol para chamar de seu e que faz parte do cancioneiro nacional: o simpático Pavunense, elevado ao hit parade nacional no sucesso Ela mora na Pavuna, de Jorge Benjor. Apenas uma das canções de sucesso que mencionam o bairro.
Dando uma volta na Pavuna, Benjor deve ter aprendido com Almirante que na Pavuna tem um samba que só dá gente reiuna desde os anos 1930. E que na década de 1980, Jovelina Pérola Negra deixou explícito para as rádios de todo o Brasil no sucesso Feirinha da Pavuna, porque afinal o lugar era de bambas:
“Dona cebola que estava invocada/Ela deu uma tapa no Seu pimentão/Seu tomate cheio de vergonha/Ficou todinho vermelho/E falou assim:/’-Eu também faço parte do tempero‘”.
O que começou como aldeia tupi, viu nascerem e morrerem fazendas coloniais, assistiu a chegada dos trens de carga, e hoje se transformou em zona urbana empobrecida, mas mostrando que, na Guanabara, até os bairros periféricos têm histórias para contar.
Qual a origem do bairro da Pavuna?
Bom, se for para ser historicamente beeem preciso, tudo começou por volta de 1550. Na primeira vez em que tentaram conquistar o Rio de Janeiro, os franceses trouxeram na bagagem um padre chamado Jean de Léry, que tinha talento menos eclesiástico do que militar: o padre era danado em desenhar mapas com precisão e rapidez.
Léry mais tarde veio a se se tornar personagem fundamental na documentação dos primeiros contatos entre europeus e brasileiros.
Mas o que importa aqui é que em um de seus mapas, produzido em 1555, a região onde hoje fica a Pavuna é identificável em como parte das terras habitadas por tupis nas margens de um rio conhecido pelos franceses como “Upabuna” ou “Upabuçu”.
Segundo os historiadores, essa “Upabuna” française é a palavra tupi “pab’una”, que significa “lugar de trevas”. O nome teria, portanto, relação com as águas turvas do tal rio. Com o tempo “pab’una” virou Pavuna.
O bairro tem uma ilha no meio?
Sim. O nome dela é Ilha Pavunense, e fica localizada exatamente na divisão do Rio Pavuna, entre as Avenidas Sargento de Milícias e Luís Silveira, terminando nas proximidades da Dutra.
Nela ficam situados o simpático Pavunense Futebol Clube, a Escola Municipal Manoel Abreu, uma empresa de transportes e várias residências em uma área equivalente a aproximadamente entre dez e 15 campos de futebol.
Mas o valor simbólico da ilha supera suas medidas físicas, representando um marco na história e na identidade da Pavuna.

A Fazenda de Nossa Senhora da Conceição
Por volta dos séculos XVIII e XIX, toda a região onde hoje é a Pavuna era permeada por engenhos e fazendas que surfaram os ciclos da cana-de-açúcar e do café. Mas nenhum deles foi tão bem-sucedido economicamente do que a Fazenda de Nossa Senhora da Conceição, da qual nossa simpática ilha era integrante.
A fundação da fazenda marcou o início de uma nova fase na história da região, caracterizada pelo desenvolvimento econômico e pela intensificação da atividade agrícola, que atraiu diversos colonos e trabalhadores para a área.
Sua sede resistiu bravamente ao descaso com o patrimônio público e a especulação imobiliária quando foi demolida em 1983 numa ação descrita como um ato criminoso contra o patrimônio histórico, já que a construção era uma das joias da arquitetura colonial do subúrbio carioca.

A descoberta da picota
Exatamente em 26 de julho de 1999, um jovem estudante chamado Marcos Davi Duarte da Cunha, então com 23 anos e apaixonado pela história de seu bairro, descobriu em um terreno baldio a picota original da Fazenda de Nossa Senhora da Conceição.
Uma “picota” é um tronco de castigo, com argolas de ferro e base de argamassa, usado para punir pessoas escravizadas. Costumava ficar na entrada das fazendas, para “dar exemplo”.
A descoberta foi significativa, pois foi o único exemplar desse tipo encontrado no Rio até então. Ela ainda estava em bom estado de conservação, permitindo aos pesquisadores estudar as técnicas de construção e os materiais utilizados na época colonial.
Sua localização exata foi preservada, tornando-se um ponto de interesse para estudos arqueológicos e históricos sobre a Pavuna.
Esperanças perdidas
Além da picota, os arqueólogos encontraram diversos outros artefatos durante as escavações na região da Fazenda de Nossa Senhora da Conceição. Entre os itens descobertos estavam utensílios domésticos, ferramentas agrícolas e fragmentos de cerâmica, que fornecem insights sobre a vida cotidiana na época colonial.
O local foi registrado no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como o Sítio Arqueológico Nossa Senhora da Conceição pelo Decreto nº 21.621, de 25/06/2002. E logo começou um alvoroço para criar no local um museu.
A ideia era adaptar um espaço para visitação, criando um “sítio-museu”, incluindo tratamento paisagístico, consolidação e valorização do monumento histórico existente. Mas tudo ficou perdido no vasto cemitério das boas intenções.
A canalização do Rio Pavuna
Quase 500 anos depois de ter sido desenhado por um padre (espião?) francês, o Rio Pavuna, que deu nome ao bairro, não escapou às mãos do progresso urbano.
Ao longo do século XX, o rio passou por obras de canalização que transformaram seu curso natural, buscando conter enchentes e organizar a expansão da cidade.
Apesar das boas intenções, a canalização trouxe efeitos ambíguos. O que era símbolo de natureza e história passou a ser tratado como simples escoadouro urbano.
Moradores antigos lembram do rio de águas turvas que inspirava o nome do bairro, agora confinado a um canal subterrâneo de concreto. Ainda assim, Pavuna resiste, mantendo viva sua identidade entre curvas de cimento e lembrando que nem todo progresso é limpo e linear.


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