Imagine um disco voador pousado, tranquilamente, em meio às matas da Serra Fluminense, com vista privilegiada para a exuberância da Reserva Biológica de Tinguá. Mas, como todo ente sensível, ele foi vítima dos efeitos da modernidade terrestre. A duplicação da BR-040 transformou sua plateia em um grupo de espectadores passando apressados, e assim o “Restaurante Disco”, uma das maiores sensações do Rio de Janeiro dos anos 1960, foi sendo empurrado suavemente para o quase esquecimento.
Quase, porque ele ainda está lá. Entre vigas expostas e expectativas soterradas, o point que teria sido inspiração de um dos projetos mais icônicos de Oscar Niemeyer, parada obrigatória de quem ia e vinha de Petrópolis, permanece fechado, longe dos holofotes que um dia lhe fizeram companhia. Mas calma porque ainda há quem lute pela sua revitalização, com direito a abaixo-assinado e tudo mais.
O Belvedere do Grinfo é como um velho amigo de viagem que todo mundo ama lembrar. É memória, é história e lembrança de uma época em que você pegava a estrada para apreciar a paisagem, e não para ficar com a cara enfiada numa telinha de celular. E não, ele não tem nada a ver com a antiga rede de supermercados, como sugere outra de suas lendas urbanas mais sem sentido. Afinal, quem ia comparar preço das fraldas com uma vista daquelas?

História
Fincado na pista de descida da BR-040 entre Petrópolis e Xerém, o Belvedere do Grinfo nasceu no final dos anos 1950 e ganhou vida mesmo nos anos 1960 com a inauguração de um restaurante sofisticado chamado Restaurante Disco. Sofisticado, naturalmente, para o espírito do seu tempo. O point bombou servindo lanches rápidos e pratos leves, estilo meio lanchonete dos anos 1950, com direito a vista espetacular.
A rodovia operava em mão dupla, o que transformava o local em parada obrigatória. No entanto, a duplicação da BR-040 mudou o destino do mirante. Com a construção da pista de subida, em mão única, o acesso ficou limitado apenas a quem descia a Serra. O movimento caiu, o restaurante fechou, e desde então até canteiro de obras fizeram ali.
Inspiração para Niemeyer: fato ou fake?
Todo bom lugar tem que ter uma lenda urbana, e no caso do Belvedere do Grinfo, dizem que ele teria sido a inspiração circular para Oscar Niemeyer projetar o icônico Museu de Arte Contemporânea (MAC), de Niterói. E que os dois edifícios parecem, parece.
Tecnicamente, porém, não há nenhuma confirmação acadêmica ou documental dessa história. Mas convenhamos, ela é boa demais para não ser contada. Quem pode dizer quais curvas modelam a inspiração? Mas ao que tudo indica trata-se mais de lenda urbana arquitetônica com um fundo poético.

Restaurante ou supermercado?
Sabe-se lá por que, outra confusão recorrente quando se fala no Belvedere do Grifo é que ele teria sido uma filial bacanérrima da rede de supermercados Disco. O que não faz nenhum sentido. Nenhum mercado ia querer uma vista daquelas desviando atenção de presuntos, farinhas e águas sanitárias.
Não há nenhum registro de relação entre o Restaurante Disco e a rede de supermercados Disco. O nome provavelmente foi só uma boa sacada na época — moderna e ousada como o formato da estrutura.
Há quanto tempo está fechado?
O Restaurante Disco foi uma ideia que tinha tudo para dar certo. Um local lindo, vista deslumbrante, farto estacionamento, infraestrutura, e de certo modo até deu, principalmente no fim dos anos 1960. Mas desde meados dos anos 1970 ele está fechado e sem uso. A Pavelka pensou em ocupar o local, mas a ideia — infelizmente — não foi adiante.
Somente em 2017 ele voltou a chamar atenção do grande público quando foi usado como canteiro de obras para modernização da estrada. O que gerou mobilização da sociedade e de órgãos públicos de proteção a bens históricos pedindo seu tombamento.
Existe algum projeto de recuperação?
A Associação Petropolitana de Engenheiros e Arquitetos (Apea) lidera o Movimento Pró-Revitalização do Belvedere do Grinfo. Eles já reuniram mais de 10 mil assinaturas e apresentaram ao Ministério Público e à Agência Nacional de Transportes Terrestre (ANTT) o pedido para que o mirante saia da área de concessão da rodovia para receber investimentos e voltar a ser patrimônio público restaurado.
Ou seja, projetos e mobilização existem, o problema é que o concreto toma seu tempo e idealização. Hoje, abandonado, ele ainda recebe visitantes esporádicos que se encantam com a paisagem e a construção em ruínas.


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