Após mais de 200 anos sem serem vistas na natureza do Rio de Janeiro, as araras-canindé voltaram a sobrevoar a cidade. Quatro indivíduos da espécie, que haviam sido resgatados do tráfico de animais silvestres, chegaram nesta semana ao Parque Nacional da Tijuca, na Zona Norte, onde serão reintroduzidos à mata atlântica de forma gradual.
As aves passaram o último ano em recuperação num parque em Aparecida, no interior de São Paulo, após terem sido vítimas de maus-tratos. Durante esse período, foram submetidas a um processo de reabilitação, que incluiu treinos para readquirir a capacidade de voo e avaliações de comportamento, saúde e reprodução. Uma delas, inclusive, apresenta plenas condições reprodutivas, o que reforça a esperança de que o grupo possa formar descendentes no ambiente natural.
A viagem até o Rio foi de cerca de 280 quilômetros e durou cinco horas. As araras foram transportadas em caixas preparadas dentro dos padrões recomendados e chegaram tranquilas ao destino. No dia seguinte, já ambientadas ao novo cenário, começaram a explorar o espaço do viveiro onde ficarão temporariamente. Duas delas receberam os nomes de Fernanda e Selton, em homenagem à atriz Fernanda Montenegro e ao ator Selton Mello (ambos vencedores do Oscar em 2025). As outras duas ainda não possuem nomes.
A região escolhida para a reintrodução apresenta condições favoráveis à sobrevivência e reprodução das araras. Além disso, a presença delas contribui para o equilíbrio ecológico da floresta, por meio de serviços ambientais importantes como a dispersão de sementes. A espécie, nativa da América do Sul, já habitou as florestas do Rio, mas foi extinta localmente por conta da caça e da destruição de seu habitat.
O processo de reintegração será feito em etapas. Inicialmente, as araras vão se habituar aos sons, à umidade e à temperatura da mata. Também passarão por um treinamento para reconhecer os alimentos disponíveis no novo ambiente e para evitar a aproximação de seres humanos, estratégia importante para garantir a segurança das aves após a soltura.
No fim de maio, ninhos com armadilhas fotográficas foram inseridos em áreas estratégicas do Parque Nacional da Tijuca. Os ninhos vão ajudar as araras a encontrar locais adequados para botar ovos e cuidar dos filhotes. Ao mesmo tempo, os pesquisadores vão conseguir colher dados e informações sobre a forma como essas aves interagem. O estudo faz parte de um projeto de iniciação científica conduzido por estudantes da Universidade Federal do do Rio de Janeiro (UFRJ).
O retorno das araras-canindé ao Rio de Janeiro faz parte do Projeto Refauna, que conta com apoio do ICMBio e da UFRJ. A soltura definitiva poderá ocorrer dentro de até seis meses, caso as aves apresentem adaptação satisfatória.





