No coração do bairro da Penha, entre igrejas seculares e o burburinho típico da Zona Norte carioca, um pedaço da memória afetiva da cidade gira, sobe, desce e toca uma sinfonia de risadas há mais de um século. O Parque Shanghai, fundado oficialmente em 1919, não é apenas o parque de diversões em operação contínua mais antigo da América Latina — título oficializado pelo Golden Pony Award em 2005. É um sobrevivente que resiste, até hoje, como um oásis de autenticidade em um mundo de entretenimento digital.

Sua saga começou, na verdade, ainda mais cedo, em 1910, com uma pequena fábrica em Niterói, para só depois ganhar o mundo, ou melhor, o Brasil, como um parque itinerante. Além dos clássicos carrosséis, o grande chamariz eram as lutas livres teatralizadas, o “telecatch”, que transformavam o ringue em um palco de dramas folhetinescos com heróis e vilões, atraindo milhares ao redor do tatame, conforme relatava o jornal O Globo.

De lá para cá, o Shanghai rodou mais que carrinho de bate-bate. Teve endereço na Ponta do Calabouço, até ser desalojado pela expansão do Aeroporto Santos Dumont. Encontrou abrigo por 25 anos na Quinta da Boa Vista, onde virou parte do roteiro clássico das famílias. E em 1966, sob um controverso despejo ordenado pelo governador Carlos Lacerda – que deu lugar a uma exposição financiada pela Aliança para o Progresso –, o parque fez sua última e definitiva mudança para a Penha. Lá, longe dos holofotes do centro turístico, ele se reinventou como um patrimônio afetivo local, provando que nem a Guerra Fria conseguiu parar seu carrossel.

Parque Shanghai: no coração da Zona Norte do Rio, local se reinventou e segue encantando famílias na cidade | Crédito: Divulgação

Origem

Nossa pequena Disneylândia carioca foi fundada oficialmente em 1919 por Bernardo Walle, a partir de uma pequena fábrica fundada em Niterói em 1910.

Originalmente concebido como um parque itinerante, o Shanghai circulava pelo Brasil com suas atrações, participando de grandes eventos populares e festas, sempre apresentando diversão em cenários diversos antes de pensar em um endereço fixo.

A mudança para a Guanabara, no entanto, foi o verdadeiro start para sua saga. Segundo o pesquisador e escritor Milton Teixeira, em depoimento ao portal Rio que Mora no Mar, a chegada ao Rio na década de 1930, iniciou uma jornada de várias sedes que marcaria profundamente a cultura de diversão da cidade.

Por que tem esse nome?

Você já ouviu falar de nomes como Hulk Hogan ou Ted Boy Marino? Ou assistiu ao drama O lutador, de 2008 com Mickey Rourke? Pois bem, aquele estilo de luta livre teatralizada que praticamente desapareceu no Brasil, ainda tem um público relevante nos Estados Unidos, e, sobretudo no México.

Mas segundo os fundadores do parque, essa tradição é mais antiga e remontaria à China milenar. No início do século XX, tudo que dizia respeito ao “Oriente” era visto como símbolo de exotismo e aventura, daí a homenagem à vibrante metrópole chinesa.

Nome do parque é homenagem à metrópole chinesa | Crédito: Reprodução

Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

Além de carrosséis e barracas de tiro, uma das maiores sensações do Shanghai em suas primeiras décadas foram as apresentações de “telequete” ou “telecatch”, inspiradas no tal estilo da América do Norte. As lutas não eram apenas um esporte, mas um espetáculo teatral, com personagens caricatos, narrativas de bem contra o mal e muito drama.

De acordo com reportagens do jornal O Globo, o ringue do Shanghai era palco de batalhas épicas que atraíam milhares de espectadores ávidos por ver seus heróis e vilões favoritos. Era uma atração que falava diretamente ao povo, misturando um pouco de atletismo com enredo tradicional de folhetim, consolidando o parque como ponto de entretenimento completo, não apenas infantil.

Nos tempos do calabouço

Em 1934, o Shanghai fixou-se em um local emblemático: a Ponta do Calabouço, área que hoje corresponde ao entorno do Aeroporto Santos Dumont, no Centro. O parque oferecia um leque diversificado de diversões, desde os clássicos carrosséis e carrinhos de bate-bate até um famoso tobogã aquático.

Conforme documentado pelo pesquisador Ricardo Bonalume Neto em seu levantamento sobre o parque, a atração mais impressionante era uma montanha-russa de madeira, considerada colossal para os padrões da época.

O parque tinha capacidade para receber milhares de pessoas por noite, tornando-se point obrigatório da noite e da família carioca, em uma zona que fervilhava com a vida noturna dos cassinos e hotéis da então capital federal.

Mas as obras de expansão do aeroporto obrigaram o parque a buscar novo endereço.

Parque Shanghai tem vista para a Igreja da Penha, no coração do subúrbio carioca | Crédito: Reprodução

Os anos dourados

Após deixar a Ponta do Calabouço, o Shanghai encontrou abrigo em outro território histórico: a Quinta da Boa Vista, no bairro de São Cristóvão. Ele instalou-se próximo ao lago, onde hoje está o estacionamento, e permaneceu no local por cerca de 25 anos, de 1940 a 1965. Foi seu período mais glorioso. Na Quinta da Boa Vista, o parque se integrou à paisagem familiar do local, que já abrigava o Jardim Zoológico e o Museu Nacional.

De acordo com relatos em publicações como a revista Manchete da época, o parque investiu em novas atrações mecânicas importadas, aumentou o número de barracas de jogos e manteve um palco para shows musicais. Em depoimentos colhidos pelo projeto “Memória da Diversão Carioca”, antigos frequentadores relatam que era comum as famílias combinarem um dia no zoológico com a emoção dos brinquedos do Shanghai, tornando a Quinta um complexo de lazer completo para a cidade.

O despejo controverso

Logo após o Golpe Militar de 1964, alguns jornais iniciaram uma campanha para expulsar o parque da Quinta, sob a desculpa de obras de restauração. E para o frenesi dos teóricos de conspiração, em 1966 o governador Carlos Lacerda despejou compulsoriamente o Shangai, apesar de forte reação popular.

Imediatamente após a saída, foi montada no mesmíssimo lugar uma exposição internacional financiada pela “Aliança para o Progresso” que surpreendia o público com as então novidades tecnológicas norte-americanas, como a televisão em cores, por exemplo. O problema é que a tal “aliança”, oficialmente criada para estimular o desenvolvimento da América Latina, era uma política do governo dos EUA para impedir o crescimento do socialismo na região. Mas nem a Guerra Fria conseguiu matar o Shanghai.

A mudança para a Penha representou uma nova fase. Saindo do eixo turístico e central da cidade, o parque se tornou ainda mais um patrimônio local, um reduto de resistência da diversão tradicional em uma metrópole que começava a acelerar seu ritmo vertiginoso. No novo endereço, ele precisou se reinventar mais uma vez, agora como uma atração de bairro com apelo nostálgico.

Ele é mesmo o parque de diversões mais antigo em atividade na América Latina?

Bom, não há discussão sobre o Shanghai ser considerado o parque de diversões mais antigo em operação no Brasil e um dos mais longevos da América Latina. Mas essa história de “o mais” sempre vira treta.

É importante destacar que a afirmação se refere ao parque privado e tradicional em atividade contínua. Existem parques públicos ou jardins de épocas anteriores, mas não com a mesma natureza comercial e de entretenimento mecânico do Shanghai. Sua longevidade é um testemunho único da história do lazer no continente.

Mas, resumindo, para orgulho nacional, em 2005 o Parque Shanghai foi premiado com o Golden Pony Award como mais antigo da América Latina em operação contínua, mesmo tendo mudado de local várias vezes ao longo de sua história.

Parque mantém entre 20 e 30 brinquedos em uma área de 17 mil metros quadrados | Crédito: Reprodução

Como está o Shangai hoje?

O parque mantém entre 20 e 30 brinquedos em uma área de 17 mil metros quadrados, e recebe em média seis mil visitantes por semana. Tudo bem, não chega a dar nem um Epcot Center em termos de público, mas em um mundo de parques que custam uma fortuna e simulam realidades digitais, o Shanghai oferece algo mais raro: autenticidade.

Hoje, o Shanghai é mais do que um museu vivo que cobra ingresso. Ele prova que embora a internet e o videogame tenham mudado os hábitos, há focos de resistência.  Leves, lúdicos, clássicos como só mesmo um parque de diversões com roda-gigante, carrinho bate-bate, algodão doce e um pedaço da história carioca, onde o passado e o presente se encontram em cada volta do carrossel.

Para você que se animou

O Parque Shangai fica no Largo da Penha 19, no coração da Zona Norte da Guanabara. Ele funciona de quinta a sexta, das 18h às 22h, e sábados, domingos e feriados, das 15h às 21h. O passaporte para todos os brinquedos sair por R$ 30 durante a semana e R$ 50 nos demais dias. Aniversariante não pagam ingresso.

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