Condenado no mensalão, José Dirceu fracassa na tentativa de voltar à Câmara 24 anos depois

Ex-ministro da Casa Civil ficou em 17º lugar entre os candidatos do PT em São Paulo. Condenações da Lava-Jato foram anuladas pelo STF em 2024, permitindo a recuperação dos direitos políticos

Adicione o Agenda do Poder como fonte preferencial no Google

José Dirceu (PT), ex-ministro da Casa Civil durante o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, não conseguiu retornar à Câmara dos Deputados nas eleições de 2026. Aos 80 anos, ele recebeu 78.450 votos na disputa por uma vaga de deputado federal por São Paulo e terminou na 17ª posição entre os candidatos do partido.

Condenado no julgamento do mensalão e posteriormente alvo da Operação Lava-Jato, Dirceu voltou a disputar uma eleição 24 anos depois de sua última candidatura, em 2002. A anulação das condenações impostas na Lava-Jato pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2024, permitiu que recuperasse seus direitos políticos.

A tentativa de retorno ao Congresso foi apresentada pelo ex-ministro como uma oportunidade de retomar sua trajetória parlamentar, interrompida em 2005, quando teve o mandato cassado pela Câmara dos Deputados.

Da eleição de 2002 à saída da Casa Civil

A última eleição disputada por Dirceu havia sido em 2002, quando conquistou a reeleição para deputado federal por São Paulo com aproximadamente 556 mil votos, a segunda maior votação daquele pleito.

Naquele ano, ele também coordenou a campanha presidencial que levou Lula ao Palácio do Planalto. Com a vitória do petista, licenciou-se do mandato parlamentar para assumir o comando da Casa Civil, tornando-se um dos principais integrantes do governo.

A atuação de Dirceu na articulação política do Executivo foi interrompida em junho de 2005, durante a crise do mensalão. Ele deixou o ministério e reassumiu a cadeira na Câmara, afirmando que pretendia se defender das acusações no Congresso.

Cassação do mandato e condenação no mensalão

A permanência no Legislativo durou menos de seis meses. Em dezembro de 2005, a Câmara cassou o mandato de Dirceu por quebra de decoro parlamentar, por 293 votos a 192.

O ex-ministro negava participação no esquema e sustentava que não havia provas contra ele. A decisão encerrou sua sequência de mandatos parlamentares, iniciada em 1990.

Em 2012, Dirceu foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão. Após alterações na pena, recebeu sentença de sete anos e onze meses de prisão e começou a cumpri-la em 2013. Posteriormente, a pena foi extinta por indulto.

Lava-Jato levou a novas condenações e prisões

Em 2015, enquanto ainda enfrentava as consequências judiciais do mensalão, Dirceu foi preso novamente, desta vez no âmbito da Operação Lava-Jato.

O então juiz federal Sergio Moro o condenou em dois processos. As penas impostas nas ações chegaram, somadas, a 34 anos de prisão. Dirceu sempre negou as acusações.

A situação jurídica começou a mudar em 2024, quando decisões do STF e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) alteraram o cenário das ações contra o ex-ministro.

STF anulou condenações e restituiu direitos políticos

Em maio de 2024, a Segunda Turma do Supremo reconheceu a prescrição em uma das ações contra Dirceu.

Em outubro, o ministro Gilmar Mendes anulou as condenações impostas por Sergio Moro ao estender ao ex-ministro o entendimento do STF sobre a parcialidade do então magistrado em processos da Lava-Jato.

A decisão retirou os efeitos das condenações que impediam Dirceu de disputar eleições por meio da Lei da Ficha Limpa, restituindo seus direitos políticos. Em dezembro, o STJ encerrou processos remanescentes da operação contra ele.

Com a situação eleitoral regularizada, o ex-ministro pôde apresentar sua candidatura à Câmara em 2026.

Lula pediu retorno de Dirceu à política

Dirceu afirmou que decidiu disputar uma vaga de deputado federal após um pedido de Lula. Em entrevista publicada em junho, relatou que o presidente conversou com ele e com o dirigente petista Edinho Silva sobre seu retorno à direção do PT e ao Congresso.

A candidatura também recebeu apoio público do presidente. Em setembro, Lula gravou um vídeo pedindo votos para o antigo aliado e classificou uma eventual eleição como uma “reparação histórica”.

A expressão foi utilizada pelo próprio Dirceu ao defender sua volta à vida parlamentar, após mais de duas décadas afastado do Congresso.

Trajetória política começou na resistência à ditadura

A história de Dirceu na política brasileira começou antes da fundação do PT. Nos anos 1960, ele ganhou projeção como líder estudantil e foi preso durante a ditadura militar.

Em 1969, foi banido do país e viveu em Cuba. Retornou clandestinamente ao Brasil na década de 1970, utilizando outra identidade. Após a anistia, retomou a atuação política e participou da fundação do Partido dos Trabalhadores.

Em 1986, foi eleito deputado estadual em São Paulo. Quatro anos depois, conquistou seu primeiro mandato na Câmara dos Deputados.

Durante a primeira passagem pelo Congresso, participou da articulação que levou à criação da CPI do PC Farias, investigação relacionada ao esquema de corrupção que antecedeu o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello.

Dirceu tentou disputar o governo paulista em 1994, mas voltou à Câmara em 1998 e foi reeleito em 2002. Sua tentativa de retornar ao Legislativo em 2026, entretanto, terminou sem a conquista de uma nova cadeira.

Relacionadas

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo