Comunidade científica e políticos se unem contra troca do presidente da Faperj por ex-deputado federal aliado do governo

Indicado para o cargo seria o empresário do ramo de corretoras de seguros e ex-deputado federal Alexandre Valle, candidato não eleito à prefeitura de Itaguaí

Uma manifestação diante do prédio onde funciona a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), no Centro do Rio, nesta quinta-feira terminou com um abraço ao prédio

Do ato, participaram centenas de representantes da comunidade científica, políticos e funcionários da instituição, que não aceitam a substituição do presidente do órgão, o professor e pesquisador Jerson Lima Silva, por um político do PL.

Segundo informações do Globo, o secretário de Ciência e Tecnologia, Anderson Moraes, convocou Jerson para uma reunião esta semana. Na conversa, Anderson informou a Jerson que ele seria substituído por um quadro do PL, partido do governador Cláudio Castro. O indicado para o cargo seria o empresário do ramo de corretoras de seguros e ex-deputado federal Alexandre Valle, candidato não eleito à prefeitura de Itaguaí.

Castro e Moraes se mantêm em silêncio sobre o assunto, e os atos de exoneração e nomeação não estão publicados no Diário Oficial desta quinta-feira. O processo já teria saído do gabinete da Secretaria de Ciência de Tecnologia e estaria na mesa do governador.

Permanece sem resposta o documento encaminhado ao chefe do Executivo fluminense, pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), manifestando preocupação sobre os rumores de que a presidência da Faperj seria ocupada por um político.

— O governador não respondeu a nossa carta, o que pode ser um bom sinal — diz Helena Nader, presidente da ABC.

A presidente da Associação de Funcionários da Faperj, a nutricionista e assistente de estudos e pesquisas da fundação Luciana Lopes, que participou do abraço, concorda.

— A gente acredita que essa mobilização de toda a comunidade científica está, pelo menos, botando um pontinho de interrogação na cabeça do governador — afirma Luciana. — Nossa questão não é a retirada do presidente, o que é uma prerrogativa do governador. É, sim, a pessoa que ele quer colocar para comandar uma fundação de amparo à pesquisa, que coordena mais de 6 mil bolsistas (de pré-iniciação científica, iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado) e mais de nove mil pesquisadores. Essa pessoa tem que ter um currículo minimamente compatível. Tememos que essa ação possa significar o extermínio e o corte de recursos para a ciência e tecnologia no Rio de Janeiro – disse.

Diante da possibilidade de a Faperj passar a ser presidida por um político, a deputada Dani Balbi (PCdoB), vice-presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa (Alerj), protocolou projeto de lei na Casa, com o objetivo de impedir que o órgão “fique refém de indicações políticas para a sua presidência”.

A proposta prevê a indicação, pelo Conselho Superior da Faperj, de uma lista tríplice para ocupar a presidência da fundação, a ser submetida ao governador.

— A Faperj desenvolve inúmeras pesquisas com base em políticas públicas. Ou seja, presta relevantes serviços para a sociedade. O governador quer trocar o presidente atual por um correligionário seu, que não tem nenhuma ligação acadêmica, quebrando uma longa tradição. Seria interessante ouvir a comunidade científica antes — diz a deputada

Procurados desde quarta-feira, o governador e Anderson Moraes não se manifestaram.

Com informações de O Globo.

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