A visita de Flávio Bolsonaro (PL) ao presidente norte-americano Donald Trump na Casa Branca nesta terça-feira (26) após o desgaste causado pelas revelações envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro tem sido visto por cientistas políticos ouvidos pela Agenda do Poder como um aceno mais voltado ao próprio bolsonarismo do que como uma manobra eficiente focada nas eleições presidenciais deste ano.

A pesquisa Datafolha, divulgada na última semana, havia registrado queda de quatro pontos percentuais do pré-candidato à Presidência da República, que indicou 31% das intenções de voto no primeiro turno, nove pontos percentuais atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O levantamento, feito entre 20 e 22 de maio, é o primeiro após a divulgação das conversas entre Flávio e Vorcaro reveladas pelo site The Intercept Brasil. O senador teria solicitado apoio financeiro de 24 milhões de dólares, o equivalente a cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, para a produção de um filme ‘Dark Horse’ sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Uma outra pesquisa revelada nesta quinta-feira (28) pelo Instituto Meio/Ideia aponta que o caso envolvendo Flávio e Vorcaro provocou desgaste político e pode afetar diretamente a campanha presidencial. A pesquisa aponta que 57% dos entrevistados enxergam impacto negativo do caso sobre o futuro político do senador. Quase metade dos entrevistados afirmou concordar que o episódio merece investigação aprofundada por órgãos como a Polícia Federal e o Ministério Público.

Relação de Flávio Bolsonaro (esq) com Daniel Vorcaro teve impacto em pesquisas, dizem especialistas / Crédito: Montagem

Estratégia para recuperar a confiança do eleitorado bolsonarista

O sociólogo Victor Escobar David vê a visita de Flávio Bolsonaro a Trump como uma estratégia para recuperar a confiança do próprio eleitorado de extrema direita em meio à queda de sua popularidade.

“É uma mera tentativa de contenção de danos para o público mais afeito ao bolsonarismo. Essa visita ao Trump agrega pouco para o eleitor que estaria fora da faixa da polarização. Mas é justamente esse o voto que a campanha de Flávio Bolsonaro deveria priorizar. Por isso, essa viagem agrega pouco à campanha, porque tem efeito mínimo para o eleitorado que realmente importa para as eleições”.

O sociólogo diz ver ainda uma tentativa de mudar o foco da própria imprensa, que tem concentrado a pauta política na crise causada pela relação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro.

“A pauta agora virou o encontro dele com o Trump, não mais o Banco Master. Mas me parece uma tentativa desesperada de minimizar a crise em que o Flávio se envolveu”.

Victor Escobar David, sociólogo

Encontro com Trump é busca de Flávio por protagonismo de discurso de extrema direita, dizem especialistas / Crédito: Divulgação

Discurso para a bolha e sem efeito em votos, diz especialista

Para a cientista política Mayra Goulart, a prioridade do encontro de Flávio Bolsonaro com Donald Trump é a busca pelo protagonismo no discurso bolsonarista.

“O tema envolvendo a política externa tem pouco efeito sobre o voto. Mesmo que não seja uma manobra suficiente para ganhar a eleição, a estratégia parece ser a manutenção do espólio bolsonarista dentro do núcleo familiar formado pelos filhos de Jair Bolsonaro”.

Mayra Goulart, cientista política

Ela também vê o episódio como uma encenação para o eleitorado conservador. “E esse encontro também ressalta a dimensão sistêmica do populismo da extrema direita global. As lideranças se ajudam e buscam legitimar umas as outras, falando para as suas próprias bolhas”.

Mayra Goulart cita ainda um contraste, principalmente em um paralelo traçado com o encontro de Trump com Lula, favorito na corrida presidencial. “O Lula fez um aceno para fora da sua base, como alguém que quer ganhar a eleição majoritária”, analisa.

Na avaliação da cientista política, as conversas reveladas com Vorcaro fizeram com que o senador agora já passe a lidar com uma rejeição em meio à campanha. “Antes disso, ele era um receptáculo de votos diretamente de Jair Bolsonaro. Agora, vê diminuir a velocidade de transferência desses votos.

Flávio Bolsonaro tenta lidar com a crise causada pelo vazamento de conversas com Vorcaro / Crédito: Agência Senado

Falta de preparo para lidar com a crise

O cientista político Geraldo Tadeu vê o encontro com Trump como reflexo do que entende ser uma falta de preparo de Flávio Bolsonaro para lidar com a crise. “Ele fez uma manobra diversionista para mudar de assunto. A própria classe política percebeu que ele estava pedindo por socorro. Há uma certa fragilidade e desorientação do comando da campanha”, critica.

Houve perda significativa para a campanha na classe política e junto à opinião pública após o vazamento das conversas com Vorcaro. A visita ao Trump é uma tentativa de mostrar que ele tem alguma influência e legitimidade no exterior. Mas o impacto no eleitorado é muito baixo. Particularmente, avalio como uma tentativa inábil de reverter o jogo.

Geraldo Tadeu, cientista político

Para o cientista político, a crise envolvendo a campanha de Flávio Bolsonaro pode dar espaço para o crescimento de uma nova candidatura ligada à direita e o eventual surgimento de um novo outsider. “Em torno de 90% dos eleitores do Flávio são antilulistas. Se esse eleitorado perceber que ele não é a melhor opção e a candidatura colapsar, haverá uma migração de votos”, avalia Geraldo Tadeu, traçando um cenário ainda aberto e capaz impactar as eleições presidenciais de 2026.

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