Ações ousadas envolvendo o uso de caminhões e batedores para furtar cabos subterrâneos ajudaram a desvendar um esquema milionário ligado ao Comando Vermelho (CV). A rota envolvia o desvio do material para empresas de ferro-velho e de reciclagem em áreas sob o domínio da facção criminosa no Rio de Janeiro. E, em seguida, a quadrilha usava empresas de fachada com o auxílio de “laranjas” em São Paulo, Minas Gerais e no Tocantins para ocultar uma operação que movimentou mais de R$ 400 milhões nos últimos cinco anos, uma média de quase R$ 7 milhões por mês.

A Agenda do Poder teve acesso com exclusividade a detalhes da investigação da Polícia Civil, que identificou núcleos bem estruturados com ações distintas, em uma apuração que resultou no cumprimento de mandados de busca e apreensão contra mais de 30 investigados. Eles são suspeitos de participação no esquema pelos crimes de furto, lavagem de dinheiro, receptação e organização criminosa.

Investigadores apreenderam farta quantidade de dinheiro com membros da quadrilha | Crédito: Polícia Civil

O prejuízo causado por esse tipo de crime pode ser percebido pela população com impacto na conectividade de hospitais e escolas. O furto de cobre também pode ocasionar falhas em semáforos espalhados pela cidade, aumentando o risco de eventuais acidentes de trânsito devido à falta de sinalização nos cruzamentos entre as vias.

A investigação da Delegacia de Roubos e Furtos (DRF) começou em 2021, quando vídeos de câmeras de segurança flagraram a movimentação. A quadrilha costumava agir durante a madrugada, com caminhões para retirar cobres subterrâneos na capital fluminense. Enquanto isso, outros integrantes do grupo usavam motos para se posicionar estrategicamente no entorno, monitorando eventuais movimentações policiais.

Com o material já retirado e colocado em caçambas, as motos eram usadas para escoltar o deslocamento do grupo.

Cabos furtados por quadrilha são recuperados em meio à investigação | Crédito: Polícia Civil

As investigações identificaram, então, que o material havia sido levado para um estabelecimento de reciclagem irregular no Morro do Urubu, em Pilares, Zona Norte do Rio. Mas o principal destino do material costumava ser as favelas do Complexo do Alemão e Penha, de acordo com a Polícia Civil. O deslocamento até favelas sob o domínio do CV era estratégica, para dificultar o acesso das forças de segurança ao local. Nesses locais, era feita a queima do cobre para impedir o rastreamento. E, só depois, o material acabava sendo colocado à venda, abastecendo o comércio ilegal.

“O Comando Vermelho atua como gestor de mercados ilícitos, com regras e fluxo financeiro próprios. Essa é a lógica da governança criminal: explorar o furto e a receptação de cobre para sustentar o poder do crime organizado. Ao atingir essa engrenagem, a polícia desorganiza o modelo de negócios da organização”.

Thiago Neves, delegado da DRF

Ação da DRF em meio a investigações contra quadrilha que movimentou mais de R$ 400 milhões | Crédito: Polícia Civil

Transações via Pix rastreadas com auxílio do Coaf

A Polícia Civil desvendou um negócio lucrativo, que envolvia a atuação de núcleos distintos, em uma cadeia com o setor operacional para cometer os furtos, os receptadores nos ferros-velhos e o setor financeiro, encarregado pela lavagem de dinheiro.

Os valores eram fragmentados em depósitos via Pix, para dificultar o rastreio. Mesmo assim, a Polícia Civil conseguiu monitorar as transações com o auxílio do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Esquema milionário contava com criminosos em atuação em quatro estados | Crédito: Polícia Civil

Com base nessas informações, as investigações identificaram as principais lideranças de um esquema em parceria com o crime organizado. Um deles inclusive tinha quase R$ 100 milhões na sua conta bancária, o equivalente a 23% do montante rastreado.

Todos os valores e bens dos suspeitos de envolvimento com o grupo foram bloqueados com autorização da Justiça. Entre esses bens, estavam dois imóveis e nove veículos, incluindo carros e caminhões.

Expansão para outras atividades criminosas

Especialistas ouvidos pela Agenda do Poder entendem que o negócio envolvendo o furto de cobre não é novo, mas se potencializou e se fortaleceu com base na parceria com o crime organizado.

“Não é só o tráfico de drogas que está envolvido nisso. Também tem a estrutura miliciana. Os grupos armados sempre viram esse tipo de crime como uma das formas de se capitalizar e expandir os seus negócios. Existe uma estrutura muito mais ampla de corrupção e de lavagem de dinheiro”, diz o sociólogo José Cláudio Souza Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Paulo Storani, antropólogo e ex-capitão do Bope, entende que a atuação do CV no negócio milionário envolvendo o furto de cobre faz parte do processo de ampliação de atividades criminosas na facção, que vem atuando em outras atividades econômicas nos últimos anos.

“Não é mais só o tráfico de drogas. Hoje, o Comando Vermelho também atua com o contrabando de cigarros, com estabelecimentos comerciais e interfere até na distribuição de combustível. Não é só o Beira-Mar dando ordens da cadeia. Hoje, existem advogados, economistas, administradores e empreendedores, que buscam financiamento junto à facção criminosa para outras atividades criminosas”.

Paulo Storani

Storani entende que a única forma de combater essa expansão das organizações criminosas é com a atuação das forças de segurança. “O Rio ainda tem uma polícia operante, que tem combatido o crime. Por isso, reforço a necessidade de apoio às instituições policiais”.

Homem é preso em outra ação da Operação Caminhos do Cobre | Crédito: Reprodução/TV Globo

Ações da Operação Caminhos do Cobre

24 de abril – Pessoas com habilidades técnicas no segmento de energia eram captadas para o trabalho de retirada de fios de subestações de energia, de redes subterrâneas de telecomunicação e de torres de transmissão elétrica no Rio em uma ação em parceria com facções criminosas do Rio, segundo investigação que prendeu sete pessoas. Na ação, também foi identificada parceria entre empresários e o CV.

22 de setembro – Policiais da DRF fizeram operação em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, mirando estabelecimentos de reciclagem clandestinos envolvidos na receptação qualificada de materiais metálicos furtados, como cabos e estruturas de cobre pertencentes a concessionárias de serviços públicos. Na ocasião, a investigação já havia detectado operação em pontos de receptação sob proteção do tráfico local.

15 de outubro – Agentes da DRF prenderam o dono um ferro-velho clandestino em Queimados, na Baixada Fluminense. Na ação, foram apreendidos mais de 300 Kg de fios de cobre. As investigações apontaram que o estabelecimento funcionava como ponto de receptação de materiais furtados, como cabos de cobre e peças metálicas de concessionárias de energia, transporte e telecomunicações. Diversos cabos haviam sido incinerados, método usado para eliminar as inscrições das concessionárias, apagando os indícios de procedência e facilitando a comercialização no mercado clandestino.

7 de janeiro – Polícia Civil e Light se reúnem para criação de uma força-tarefa para combater furtos de cabos.

22 de janeiro – Na primeira ação da força-tarefa, a DRF prendeu um prestador de serviço responsável por desviar energia elétrica e utilizar cabos de uma concessionária de forma indevida. As diligências ocorreram em dois endereços ligados ao colaborador da companhia em Queimados, na Baixada Fluminense.

3 de fevereiro – A DRF e a Draco fizeram uma ação em conjunto para desarticular uma estrutura criminosa especializada na receptação qualificada de materiais metálicos furtados, especialmente cabos e componentes pertencentes a concessionárias de serviços públicos. Um suspeito foi preso em uma apuração que identificou a utilização de uma empresa de reciclagem como fachada para aquisição, armazenamento e revenda de materiais ilícitos.

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