Eles fazem parte da “facção dos excluídos”, formada há 20 anos por presos por estupro e ameaçados de morte inicialmente em busca de melhores condições no sistema prisional do Rio de Janeiro. Com 18 mil membros espalhados por 13 presídios, o Povo de Israel tem o equivalente a 39% dos internos. Com isso, superou as principais facções do Rio, como Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP).
A facção se expandiu ao criar a sua própria fonte de lucro, movimentando cerca de R$ 70 milhões em apenas dois anos com os golpes do falso sequestro e com o “disque-extorsão”, segundo o Ministério Público do Rio. A organização criminosa não lucra apenas com esses crimes. Ela também explora o próprio presídio como uma espécie de balcão de negócios, vendendo drogas, celulares e bebidas alcoólicas.

Há apenas uma semana, a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) realizou uma das maiores apreensões dos últimos anos no sistema prisional do Rio ao interceptar 130 celulares e mais de 20 quilos de drogas no Presídio Nelson Hungria, no Complexo de Gericinó, em Bangu, Zona Oeste do Rio.
Em meio aos entorpecentes apreendidos, havia maconha, cocaína, pedras de crack e haxixe. O material apreendido foi encaminhado à Delegacia de Repressão ao Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Draco), unidade da Polícia Civil que investiga o caso.
O diretor, o subdiretor e o chefe de segurança da unidade conhecida como Bangu 7 foram afastados diante da abertura de procedimento interno para apurar possíveis responsabilidades administrativas. A unidade é um dos principais redutos do Povo de Israel.

Diante do grande volume de material apreendido por agentes do Grupamento de Portaria Unificada, a secretaria determinou a intervenção imediata no presídio, com suspensão de visitas por tempo indeterminado. O material só foi apreendido porque os policiais penais desconfiaram do comportamento de uma visitante e do grande volume de sacolas que ela carregava ao passar pelo scanner corporal. Identificada como Maria Carolina Primo Ferreira, ela conseguiu fugir e agora é considerada foragida da Justiça por tentativa de introdução de carga ilícita em unidades prisionais.
Na mesma unidade, uma inspeção ocorrida em setembro de 2023 encontrou mais de 20 quilos de drogas, 70 celulares e outros equipamentos, em uma carga de mais de R$ 1,5 milhão, segundo informaram as autoridades.
Os celulares que chegam nas unidades dominadas pelo Povo de Israel servem como instrumento de trabalho. Com as ligações, os membros aplicam os golpes. O dinheiro arrecadado é encaminhado para contas de “laranjas” fora do sistema prisional, segundo investigações da Polícia Civil.
“É uma facção especializada na prática de golpes no interior do sistema prisional, com o uso de celulares contrabandeados. Eles também controlam a economia informal de produtos na prisão. Mas a atuação é restrita aos presídios, sem controle territorial nas ruas e sem atuação junto ao tráfico de drogas”.
Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos (Geni) da UFF
Pesquisador e especialista em Segurança Pública, Anderson Sanchez diz que os presos historicamente ameaçados nos presídios do Rio se organizaram para exigir melhores condições nas unidades prisionais. Já mobilizados, passaram a se especializar em golpes. “Antes, eles eram isolados e ficavam em porões nas cadeias”, lembra.

Proibido falar ‘estuprador’: o que diz o estatuto da facção
Como forma de proteção, o Povo de Israel criou as suas próprias regras para minimizar o risco de ataques de outros detentos. O estatuto da facção “isenta” presos por estupro ou por outros crimes que poderiam torná-los vulneráveis atrás das grades.

“Do portão pra dentro, zera tudo. No Povo de Israel, não é permitido falar ‘estuprador’. Temos que falar ‘amigo do artigo’, porque o espaço é deles. O nosso lema é dormir e acordar tranquilo”, diz o estatuto, anexado a um inquérito conduzido pela Polícia Civil.
O estatuto da facção também foca na responsabilidade de seus membros para que arquem com o pagamento de dívidas atrás das grades. “Não fazer dívida que não possa pagar para não atrasar a correria dos amigos. Dívida não é mancada e sim responsa.

As regras da facção também focam na manutenção da limpeza do ambiente interno, cuidado com o espaço onde ocorre a alimentação dos presos e respeito aos policiais penais. “Não jogar lixo nem escarrar na galeria, pois nela passa nossa alimentação. Na hora da alimentação, não é permitido nenhum tipo de porcaria. Essa hora é sagrada (…). O ‘confere’ é do guarda. Todos de camisa, mão para trás e cabeça baixa”.
“Não agredir verbalmente nem fisicamente (…). No pátio de visita, não levantar a camisa, não colocar as mãos nas partes íntimas, não constranger a família com olhares constantes e só ir à mesa do amigo se for convidado por ele”.
Trechos do estatuto da ‘facção dos excluídos’

Quem são os líderes
A ação da Seap que resultou em uma das maiores apreensões de celulares e drogas em uma unidade prisional em Bangu 7 há uma semana também revelou a nova cúpula do Povo de Israel com a transferência de quatro detentos apontados como lideranças da facção criminosa para Bangu 1.
Um dos transferidos, Luiz Henrique Amaral da Paixão, o Bicudo, foi identificado pelas autoridades como a principal liderança da organização criminosa. Além dele, também foram transferidos Marlon Jorge Pereira, o Tiziu; Vitor Gabriel Guedes Domingues, o VG; e Deivid da Silva Oliveira, o DVD. Contudo, fontes ouvidas pela Agenda do Poder identificaram outras quatro lideranças no grupo: Luis Paulo Gonçalves, o Doce; André Berto Resende, Goefley de Oliveira Rodrigues, o Jefinho; e Robson Moreira da Silva, o PQD.

A nova cúpula da facção começou a ser formada há pouco mais de dois anos, após a transferência do então líder Avelino Gonçalves Lima de Bangu para o presídio federal de segurança máxima em Porto Velho (RO). Ele retornou ao Rio em abril deste ano após ser constatado com câncer em metástase. Mas já não estava mais na cúpula da facção.
Condenado a 46 anos de prisão por crimes como homicídio, roubo e estupro, Avelino morreu em agosto deste ano. Ele também era acusado de ser o mandante de uma rebelião em represália a sua transferência, que resultou na morte de um interno em 2018, que resultou na morte de um detento. A Seap também suspeitava do envolvimento dele na morte de dois presos encontrados enforcados em 2022.


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