Comando Vermelho se expande em Paraty e afeta moradores, comércio e turismo

Tráfico domina comunidades próximas ao Centro Histórico, provoca expulsões e afeta serviços básicos em cidade Patrimônio Mundial

A tarde chuvosa de 23 de janeiro manteve vazia a Praça da Paz, em Paraty, na Costa Verde fluminense. O espaço, que abriga a primeira pista de skate da cidade, inaugurada em 2016, além de um parquinho e uma quadra de futebol cercada por alambrado, estava tomado apenas por urubus. A grama alta e a ausência de moradores reforçavam a sensação de abandono. Para quem vive na região, a praça está cada vez mais distante da tranquilidade evocada no nome.

Ao redor dela, o tráfico de drogas se expandiu ao longo de mais de 15 anos em dois bairros caiçaras que convivem com a violência e a marginalização em um município conhecido internacionalmente como Patrimônio Mundial da Unesco. A poucos minutos de caminhada do Centro Histórico, essas comunidades permanecem fora do cartão-postal que projeta Paraty para o mundo. A reportagem é do jornal O Globo.

Facções e disputas territoriais

Separadas apenas pela Rua Central, as comunidades da Ilha das Cobras e da Mangueira ficam a cerca de 13 minutos a pé do centro e próximas ao aeroporto. Moradores usam como referência uma tenda de açaí montada em frente à praça. Ambas passaram a ser ocupadas por facções entre 2010 e 2011, período em que as Unidades de Polícia Pacificadora eram implantadas em favelas da capital fluminense. Naquele momento, o Comando Vermelho atuava na Ilha das Cobras, enquanto o Terceiro Comando Puro se estabelecia na Mangueira.

Os confrontos entre os grupos se tornaram rotina. Alice, nome fictício de uma moradora da Mangueira, afirma ter perdido ao menos 20 amigos naquela época, todos entre 13 e 18 anos, envolvidos com o tráfico. Um deles, segundo ela, foi morto dentro de um mercado do bairro poucos dias depois de confidenciar o desejo de abandonar o crime.

Expulsões e perda de moradia

Em 2021, o Comando Vermelho assumiu o controle da Mangueira após o assassinato de chefes da facção rival. A mudança desencadeou uma série de expulsões de moradores. Alice e a família foram obrigadas a deixar a casa onde viviam e também perderam um pequeno comércio que mantinham no bairro.

As expulsões seguem ocorrendo em Paraty, hoje majoritariamente dominada pelo Comando Vermelho. A 167ª DP investiga um caso ocorrido no fim do ano passado no Morro do Ditão, às margens da Rodovia Rio-Santos, a cerca de oito quilômetros do centro. Traficantes teriam ameaçado a moradora de uma casa com uma arma, acusando-a de ser informante.

Jovens no tráfico e medo cotidiano

Também morador da Mangueira, Jorge, nome fictício, relata que a situação piorou nos últimos anos, sobretudo pelo aumento da venda de drogas nas ruas internas. Ele destaca que muitos dos envolvidos são adolescentes. Dados do Instituto de Segurança Pública indicam que, no ano passado, 48 menores foram apreendidos em flagrante na cidade; em 2024, foram 28.

Sob anonimato, um policial civil afirma que o Comando Vermelho, já estabilizado em Paraty, passou a explorar atividades econômicas nos bairros, a exemplo do que ocorre na capital. A presença da facção também afeta serviços básicos. No Condado, a cerca de cinco quilômetros do centro, um professor da rede pública relata que ônibus municipais deixaram de circular nas ruas internas, limitando-se à via principal.

Avanço sobre áreas turísticas

Nos últimos meses, a atuação do tráfico ultrapassou os bairros e alcançou áreas turísticas como Praia do Sono e Trindade, conhecidas pela cultura “hippie”. Relatos locais indicam extorsão de barqueiros, donos de estacionamento e cobranças indevidas de turistas. A situação teria sido contida pelos próprios caiçaras, que se impuseram aos criminosos, com quem mantinham laços de parentesco.

Na 167ª DP, ao menos seis investigações apuram a exploração territorial do Comando Vermelho em localidades como Paraty-Mirim, Costeira, Ponta Negra, Praia de Cajaíba, Juatinga e Calhau. Há suspeitas de cobrança de percentual sobre venda de terrenos e imóveis, além de extorsão a empresas de turismo no Cais de Paraty. No Centro Histórico, principal vitrine da cidade, não há denúncias registradas até o momento.

Debate público e respostas oficiais

As denúncias motivaram uma reunião pública na Câmara Municipal no dia 19. Entre os temas discutidos estavam a ausência de um posto de polícia comunitária em Trindade, a falta de atuação do ICMBio nas áreas sob sua responsabilidade e a escalada da violência.

Presente no encontro, o prefeito Zezé (Republicanos) lamentou a inexistência de um juiz atuando no município. Já o comandante da Segunda Companhia Independente da Polícia Militar, tenente-coronel Lourival Belitardo, anunciou o reforço de 90 agentes a partir de março.

Custo de vida e exclusão

Além da violência, moradores apontam o aumento do custo de vida como fator de expulsão silenciosa da população local. Alice e Jorge destacam a alta nos aluguéis.

“Um casa de dois quartos custa mais de R$ 2 mil por mês. Se consideramos que a maioria ganha só um salário mínimo, percebemos que é inviável a vida por aqui. Nós, paratienses, não temos acesso aos equipamentos culturais da cidade, ninguém frequenta o Centro Histórico por lazer, mas somos nós que fazemos com que funcione. Vivemos do lado de cá, à margem”, diz Alice.

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