Com reformas pioneiras sobre aborto e maconha, Uruguai se tornou referência progressista na gestão Mujica

País foi o segundo do continente a reconhecer casamento entre pessoas do mesmo sexo

A morte de José “Pepe” Mujica encerra o ciclo de um dos líderes políticos mais emblemáticos da América Latina. Durante seu mandato entre 2010 e 2015, Mujica conduziu o Uruguai a um patamar inédito na agenda progressista regional. Sob sua liderança, o país se tornou o primeiro da América do Sul a legalizar o aborto e regulamentar a produção e venda da maconha.

Também foi o segundo do continente a reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Essas medidas ousadas, aprovadas em sua maioria entre 2012 e 2013, marcaram a política social uruguaia e projetaram o pequeno país como referência global em direitos civis e políticas públicas inovadoras.

Aborto passou a ser permito até 12ª semana de gestação

A legalização do aborto, por exemplo, foi aprovada em outubro de 2012 e permitiu a interrupção voluntária da gravidez até a 12ª semana de gestação nos hospitais públicos — uma decisão que isolou positivamente o Uruguai de seus vizinhos conservadores. No mesmo período, Mujica apresentou o projeto que legalizou o uso e o comércio de maconha, numa tentativa de combater o narcotráfico e reorientar a política de drogas do país. “É preciso tomar o problema pelas raízes”, dizia o presidente ao defender a medida.

Mais do que suas reformas, Mujica conquistou o mundo por sua conduta austera e pelo discurso coerente com seu estilo de vida. Chegou à Presidência dirigindo um Fusca 1987 e morando com a esposa, Lucía Topolansky, em um sítio nos arredores de Montevidéu, onde cultivava hortaliças. Segundo relatos, doava até 90% de seu salário como presidente a projetos sociais. “Não tenho religião, mas sou quase panteísta: admiro a natureza”, declarou em uma entrevista em 2012.

Nascido em 20 de maio de 1935, em Montevidéu, Mujica ingressou na política pela via da luta armada. Nos anos 1960, tornou-se membro da guerrilha Tupamaros, grupo que promovia ações como assaltos a bancos com o objetivo de redistribuir recursos à população pobre. Capturado e ferido, passou 14 anos preso, sendo submetido a tortura e longos períodos em solitárias durante a ditadura militar uruguaia. Com a anistia de 1985, iniciou sua trajetória institucional, fundando o Movimento de Participação Popular (MPP), braço do partido Frente Ampla.

Salário mínimo aumentou 250%

Eleito deputado em 1994 e senador em 1999, Mujica ganhou destaque no governo de Tabaré Vázquez como ministro da Agricultura. Sua popularidade e discurso direto o levaram à Presidência em 2010. Durante seu governo, o gasto social cresceu de 60,9% para 75,5% do total do orçamento, e o salário mínimo aumentou em 250%.

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