A retirada de um radar de controle de velocidade na RJ-106, altura do bairro Calaboca, em São Gonçalo, divide opiniões entre motoristas e moradores da região. Sem radar e uma passarela ou sinalização eficaz, pedestres enfrentam dificuldades para atravessar a rodovia, já os condutores, temem assaltos e arrastões. A via já foi palco de atropelamentos, mortes e protestos, e segue sem solução definitiva.
O radar instalado no local em 2024 foi retirado no início deste ano, após o fim do contrato de concessão com a empresa responsável. A retirada reacendeu entre os moradores o temor de novos acidentes. Para eles, a situação voltou ao que era antes: alta velocidade dos veículos e risco constante. O problema, no entanto, é antigo.
Segundo o tenente da reserva do Corpo de Bombeiros, Álvaro Guedes, de 52 anos, a demanda pela construção de uma passarela é feita há décadas. “O pedido da implantação da passarela já é antigo. Tem moradores aqui desde o fim dos anos 1990 que vêm lutando por isso, sem êxito”, afirmou.
Morador da região há cinco anos, Álvaro relembra a morte de uma vizinha em 2024. A mulher foi atropelada quando tentava atravessar a rodovia, na altura do Condomínio Paty Alferes.

“A situação piorou muito no ano passado, depois do atropelamento que resultou na morte de uma moradora aqui da Rua 4. A partir disso, começamos a protestar com mais intensidade, inclusive fechando a rodovia.”
Após o acidente, o vereador Douglas Ruas (PL) enviou dois ofícios ao Governo do Estado solicitando a construção de passarelas: uma na altura do km 10 da RJ-106, no bairro Rio do Ouro, e outra próxima ao Colégio Municipal Mauá, no bairro Vista Alegre. A medida implementada pelo Departamento de Estrada e Rodagens (DER) foi a instalação de radares de velocidade.
No último dia 5 de maio, a professora Mônica de Andrade, de 49 anos, foi atropelada ao retornar da escola onde deixava a filha. “Um veículo me atingiu pelas costas. Acordei esticada no chão. O motorista não parou para prestar socorro e ainda acertou um senhor de 70 anos, que estava com uma bicicleta”, contou.
Moradores de um lado, motoristas do outro
Além dos riscos de acidentes, para os motoristas que trafegam pela região, há outro problema iminente: o medo de assaltos. Com a instalação de radares, dizem, a redução da velocidade favorece a ação de criminosos.
‘’A gente entende o lado dos moradores, mas a polícia não dá conta do patrulhamento. Colocar radar ali é colocar a gente na mira’’, destacou o motorista de aplicativo Rodrigo Pereira, que mora em Itaboraí, na Região Metropolitana, e passa pelo local todos os dias.
De acordo com o antropólogo e professor do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF) Lenin Pires, o radar, por si só, não é suficiente para resolver o problema. A solução mais eficaz para solucionar o pé de guerra entre os afetados e garantir a travessia segura é a construção de uma passarela.
“O radar pode constranger um ou outro motorista, mas não todos. Logo, ele não afasta o risco que as pessoas correm. Sem contar que ele é suscetível às intempéries burocráticas, como se vê. A construção da passarela é a melhor solução. O que, inclusive, geraria recursos para compra de material e pagamento de mão de obra”, explica.
Pires também aponta a importância da articulação política para viabilizar esse tipo de estrutura:
“Parece-me que os poderes públicos instituídos: prefeitura, governo do Estado e União têm protocolos onde as requisições deste tipo de iniciativa são combinadas, fazendo com que as devidas licitações sejam agilizadas. Daí a importância de vereadores, deputados estaduais e federais, que estabelecem linhas de comunicação com os atores do Executivo.”
Segundo a PM, o patrulhamento entre os km 10 e 11 da RJ-106, é realizado por viatura e por policiamento tático com viatura baseada durante a noite.
Embora a RJ-106 seja uma rodovia estadual, Lenin Pires afirma que há caminhos institucionais para acelerar obras emergenciais.
“A interpelação deverá ser feita pelo Ministério Público diretamente ao governo estadual, fazendo referência ao número de mortes e acidentes. É o papel dele enquanto representante dos interesses difusos da sociedade.”
O Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RJ) foi procurado para comentar a possibilidade de construção de uma passarela no trecho. Em resposta, o órgão informou que enviou uma equipe técnica ao local para fazer as avaliações necessárias para o projeto de construção de passarelas no trecho da RJ-106. “O processo licitatório está em tramitação interna”, acrescentou.






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