CNEN confirma incidente com material radioativo em instituto nuclear de São Paulo

Órgão afirma que não houve contaminação interna de trabalhadores e que ocorrência ficou restrita a área controlada do Centro de Radiofarmácia do Ipen

A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) confirmou na noite desta quinta-feira (11) a ocorrência de um incidente envolvendo material radioativo no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), localizado na Cidade Universitária, na Zona Oeste de São Paulo. Segundo o órgão, o episódio ocorreu durante procedimentos realizados no Centro de Radiofarmácia da instituição e envolveu a presença de traços de tecnécio-99 em uma área controlada.

A confirmação veio após dias de questionamentos sobre uma possível ocorrência radiológica no instituto. O caso havia sido inicialmente revelado por meio de uma denúncia anônima e passou a ser alvo de apuração por parte da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), além de cobranças de esclarecimentos feitas por entidades representativas dos trabalhadores.

De acordo com o Relatório de Ocorrência Interna (ROI) divulgado pela CNEN, o incidente aconteceu durante a retirada de sensores biológicos de uma autoclave, equipamento utilizado nos processos de produção de radiofármacos.

Os procedimentos de monitoramento realizados após a ocorrência apontaram que dois trabalhadores classificados como Indivíduos Ocupacionalmente Expostos (IOEs) passaram por exames preventivos utilizando o Contador de Corpo Inteiro (CCI), equipamento empregado para medir possíveis níveis de radioatividade depositados no organismo humano.

Segundo a comissão, os resultados apresentaram índices baixos e descartaram qualquer contaminação interna dos profissionais.

Contaminação ficou restrita à área controlada

Em esclarecimento técnico divulgado na madrugada desta sexta-feira (12), o Ipen reforçou que o incidente permaneceu limitado à área controlada do Centro de Radiofarmácia e não representou risco à população ou aos servidores.

De acordo com a instituição, nenhum trabalhador sofreu contaminação corporal. O material radioativo foi detectado apenas na roupa de um dos profissionais envolvidos na atividade.

O instituto informou ainda que, por não haver sequelas nem riscos residuais, nenhum funcionário permanece sob observação médica.

A CNEN destacou que todas as avaliações e medições foram conduzidas por especialistas habilitados em proteção radiológica, responsáveis por garantir o isolamento da área e impedir a propagação do material radioativo para outros ambientes.

Após a ocorrência, os trabalhadores envolvidos receberam novos treinamentos de segurança e o episódio continua sendo analisado internamente.

O órgão ressaltou ainda que episódios de contaminação em equipamentos de proteção individual podem ocorrer eventualmente em ambientes que manipulam substâncias radioativas, razão pela qual os profissionais são submetidos a monitoramento constante.

O que é o tecnécio-99

O material identificado durante o incidente foi o tecnécio-99, elemento radioativo amplamente utilizado na medicina nuclear.

Na prática clínica, sua aplicação ocorre principalmente em exames de diagnóstico por imagem. Uma das características que tornam o elemento adequado para uso médico é sua curta meia-vida, de aproximadamente seis horas, o que reduz significativamente sua permanência no organismo humano.

Por essa razão, especialistas consideram o tecnécio-99 um dos radioisótopos mais utilizados em procedimentos diagnósticos em hospitais e centros de medicina nuclear.

Caso veio à tona após denúncia

Embora a confirmação oficial tenha ocorrido apenas nesta semana, a situação passou a ser investigada ainda em maio.

No dia 29 daquele mês, o Ipen identificou indícios de um possível vazamento de material radioativo após receber uma denúncia anônima sobre a ocorrência.

O episódio ganhou repercussão pública depois que o Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal no Estado de São Paulo (Sindsef-SP) e a Associação dos Servidores do Ipen (Assipen) encaminharam pedidos formais de esclarecimento à direção da instituição e à própria CNEN.

As entidades afirmaram ter recebido relatos sobre procedimentos emergenciais de descontaminação radiológica, retenção de vestimentas utilizadas pelos trabalhadores envolvidos e atuação imediata da equipe de Proteção Radiológica.

Segundo os representantes dos servidores, parte dos procedimentos teria ocorrido em locais que não seriam destinados especificamente a atendimentos desse tipo, situação que motivou questionamentos sobre a infraestrutura disponível para responder a ocorrências envolvendo materiais radioativos.

No documento enviado às autoridades, Sindsef-SP e Assipen solicitaram informações detalhadas sobre o material envolvido, a quantidade de trabalhadores potencialmente expostos, os níveis de contaminação registrados, os riscos à saúde e as medidas adotadas para controle da situação.

Entidades apontam problemas estruturais

Além de questionar os detalhes da ocorrência, as entidades associaram o episódio a dificuldades enfrentadas pelo instituto nos últimos anos.

Representantes dos trabalhadores vêm denunciando de forma recorrente a redução de recursos orçamentários, a diminuição do quadro de servidores e a necessidade de investimentos em infraestrutura, concursos públicos e fortalecimento do Programa Nuclear Brasileiro.

O documento encaminhado pelas entidades menciona ainda que outros episódios já teriam ocorrido em decorrência de limitações operacionais, dificuldades de gestão e escassez de recursos.

Entre as preocupações levantadas está o atraso superior a um ano na realização de exames médicos específicos destinados a profissionais que atuam diretamente com substâncias radioativas.

ANSN acompanha investigação

Antes da divulgação oficial do relatório da CNEN, a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear confirmou que o caso estava sob investigação.

Em nota, o órgão informou:

“A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) tomou conhecimento dos fatos por meio de denúncia anônima recebida pela instituição. Como ocorre com todas as denúncias relacionadas a instalações radiativas, independentemente de sua origem ou identificação do denunciante, esta foi encaminhada para análise da Diretoria de Instalações Radiativas e Controle (DIRC), responsável pela apuração técnica da ocorrência. No âmbito das providências adotadas, foram solicitadas informações ao órgão envolvido para verificação dos fatos relatados. Neste momento, a investigação encontra-se em andamento, não havendo, por ora, informações adicionais a serem divulgadas. A ANSN ressalta que todas as denúncias recebidas são tratadas com a devida seriedade e submetidas aos procedimentos de apuração cabíveis.”

O relatório elaborado pela CNEN foi encaminhado à própria ANSN, que seguirá avaliando os procedimentos adotados e as circunstâncias da ocorrência.

Monitoramento continua

Apesar da repercussão do caso, tanto a CNEN quanto o Ipen sustentam que o incidente permaneceu sob controle durante todo o processo e que não houve contaminação interna dos trabalhadores nem risco à população.

A investigação técnica prossegue para identificar com precisão as causas da ocorrência e verificar se serão necessárias medidas adicionais de prevenção ou aprimoramento dos protocolos de segurança adotados pelo instituto.

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