Chuvas intensas no RJ elevam nível do rio Paraíba do Sul, mas reservatórios seguem em alerta

Sistema já saiu de 33% para 47,3%, porém especialistas dizem que só volumes até abril podem garantir segurança hídrica no inverno

O forte volume de chuva registrado no início de fevereiro no Rio de Janeiro já provocou uma recuperação parcial dos reservatórios do Rio Paraíba do Sul, principal manancial que abastece o Sudeste. Em menos de dez dias, a capital fluminense ultrapassou a média histórica de chuva do mês, mas, apesar da melhora, os níveis ainda estão abaixo do patamar considerado seguro para atravessar o período de estiagem.

Segundo dados recentes apresentados por reportagem do jornal O Globo, o chamado reservatório equivalente do Paraíba do Sul saiu de cerca de 33% em janeiro para 47,30%. Especialistas, no entanto, alertam que o ideal seria alcançar pelo menos 56,1% até abril para reduzir o risco de escassez hídrica no inverno.

Levantamento do Sistema Alerta Rio mostra que, entre 1º e 8 de fevereiro, a cidade acumulou 158,5 milímetros de chuva, acima da média histórica do mês, de 118,3 mm. Em áreas como o Maciço da Tijuca, os volumes já superaram com folga o esperado para todo fevereiro. Ainda assim, esse excesso não tem se refletido na mesma proporção nos principais reservatórios da bacia do Paraíba do Sul.

Reservatórios melhoram, mas seguem abaixo do nível ideal

De acordo com João Gomes, diretor do Comitê do Baixo Paraíba do Sul e ex-presidente do Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (Ceivap), houve uma recuperação recente, mas o cenário ainda inspira cautela.

“Hoje, o chamado reservatório equivalente do Paraíba do Sul, que é a média ponderada dos principais reservatórios, está em torno de 47,30%. Houve uma melhora em relação a janeiro, mas ainda estamos abaixo do volume útil mínimo, que é de 56,1%. É esse nível que garante um período de estiagem tranquilo. Se não atingirmos isso até abril, o inverno pode ser complicado”, explica.

Em janeiro, a situação já havia acendido um sinal de alerta. Na última medição da Agência Nacional de Águas, em 19 de janeiro, os reservatórios de Paraibuna, Santa Branca, Jaguari e Funil operavam com apenas 33,32% do volume útil, um dos menores índices da série histórica iniciada em 1998. À época, Gomes classificou o cenário como de “luz amarela”, sem risco imediato de desabastecimento, mas com necessidade de atenção redobrada.

Chuva fora das cabeceiras limita recuperação

Segundo João Gomes, o principal problema é a distribuição espacial das chuvas. Os maiores volumes têm se concentrado em áreas urbanas e litorâneas, e não nas regiões de cabeceira que alimentam diretamente os reservatórios.

“Está chovendo muito em algumas regiões, o que é ótimo do ponto de vista dos impactos urbanos, mas não necessariamente onde os reservatórios precisam. Se chover nos lugares certos, o volume útil dos reservatórios da bacia pode chegar a 56,1% e aí passamos um inverno tranquilo. Para recuperar de verdade o sistema, a chuva precisa cair nas áreas de drenagem do Paraíba do Sul, em São Paulo, Rio e Minas”, diz Gomes.

Apesar da preocupação, ele ressalta que o abastecimento da Região Metropolitana do Rio não corre risco imediato. O sistema Guandu, que atende cerca de nove milhões de pessoas, funciona por transposição e bombeamento contínuo a partir do reservatório de Santa Cecília.

“Para o Rio, a quantidade de água bombeada para o Guandu não varia se o reservatório está mais cheio ou mais vazio. O risco maior é sistêmico: se passarmos por um verão ruim de chuva, o inverno seguinte tende a ser muito pior”, afirma.

Segurança hídrica exige cautela permanente

Para Ary Girota, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas de Saneamento e Meio Ambiente do Rio de Janeiro (Sindágua-RJ), a situação atual reforça que a chuva intensa na cidade, por si só, não resolve o problema da segurança hídrica.

“Os temporais estão caindo fora de onde deveriam cair. Não é na área urbana, nem no litoral, que os reservatórios se recuperam. É nas cabeceiras, nos mananciais. E isso não está acontecendo de forma consistente”, afirma Girota.

Ele lembra que, mesmo nos períodos mais críticos da história recente, como a crise hídrica de 2014 e 2015, o Rio não enfrentou desabastecimento generalizado, embora os reservatórios tenham operado próximos do volume morto.

“Em 2015, chegamos a operar com 0,3% do volume útil no Paraíba do Sul. Aquilo deixou lições importantes, como a definição de limites mínimos de segurança. Hoje, percentualmente, a situação é melhor do que naquela época, mas isso não autoriza relaxamento”, diz.

Segundo Girota, a produção de água segue sob responsabilidade da Cedae, mas a irregularidade climática exige atenção constante.

“Não dá para intervir na natureza. São eventos climáticos cada vez mais extremos e mal distribuídos. Se a chuva não se regularizar até março e abril, o risco não é de falta d’água imediata, mas de escassez hídrica no inverno”, resume.

Por que fevereiro está tão chuvoso no Rio

O comportamento atípico de fevereiro segue no radar dos meteorologistas. A previsão inicial indicava chuva abaixo da média, mas a atuação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) mudou o cenário.

Segundo o meteorologista Guilherme Borges, da FieldPRO, esse sistema é o principal responsável pelos altos acumulados.

“A ZCAS é uma banda de nebulosidade que se estende da região Norte até o Sudeste. Quando ela se organiza dessa forma, cria uma condição de chuva persistente, com acumulados elevados em curto espaço de tempo”, explica.

Dados do Sistema Alerta Rio indicam que, entre os dias 1º e 6 de fevereiro, a cidade já havia registrado 103,2 milímetros de chuva, o equivalente a 87% da média histórica do mês. Em menos de dez dias, esse volume foi superado, chegando a 158,5 mm.

O cenário contrasta com fevereiro de 2025, considerado o mais seco desde 1997. Segundo Borges, a diferença está na configuração atmosférica.

“No ano passado, tivemos um verão marcado por massas de ar muito quentes e ondas de calor, que inibiram a formação desses canais de umidade. Neste ano, a configuração atmosférica está mais favorável. O que estamos vendo agora é o comportamento típico do verão”, explica.

Chuva deve dar trégua no carnaval

A previsão da Climatempo indica que as pancadas de chuva continuam até quarta-feira (11), com trovoadas e alta umidade. A partir de quinta (12), a instabilidade perde força, e o sol volta a aparecer com mais frequência.

“A sexta já deve ter um cenário sem previsão de chuva, com características mais típicas do verão carioca. O carnaval tende a ter tempo firme, apesar da possibilidade de pancadas isoladas, que são naturais nesta época do ano”, afirma Guilherme Borges.

Entre os dias 13 e 18, a tendência é de sol, poucas nuvens e temperaturas próximas ou acima dos 30 °C. Apesar da melhora, os especialistas alertam que fevereiro e parte de março seguem naturalmente instáveis, e novos episódios de chuva intensa ainda podem ocorrer.

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