Dia após a dia, a caixa de mensagens do secretário Nacional de Acesso à Justiça, Marivaldo Pereira, tem sido preenchida por denúncias sobre os atos do dia 8 de janeiro.
Até ontem, eram mais de 101 mil que haviam sido enviadas por meio do canal criado pelo Ministério da Justiça para concentrar informações sobre os golpistas .
Segundo informações do Globo online, com o auxílio de oito funcionários, Pereira mapeou 200 gigabytes de dados com a ajuda de um software criado para organizar fluxos de conteúdo. A partir dessa triagem, ele e sua equipe entregaram à Diretoria de Inteligência da Polícia Federal (DPF) 70 nomes de supostos criminosos denunciados à pasta por e-mail. Uma parte é composta por influencers que fizeram do bolsonarismo um meio para ganhar dinheiro.
— Estamos usando ferramentas de inteligência para poder mapear as mensagens com mais eficiência — afirma Pereira — A gente organiza e manda para a Polícia Federal, de acordo com critérios de agregação que podem ser mais relevantes para esclarecer quem organizou, quem financiou e, principalmente, quem estava diretamente envolvido na destruição do patrimônio público.
A maior parte das denúncias veio de municípios de médio e pequeno porte, algumas vezes por vizinhos de manifestantes que participaram das invasões do dia 8.
Com ajuda de inteligência artificial, Pereira e sua equipe miraram nomes que apareceram com mais frequência nas denúncias, além de mensagens que incluíam números de Pix e nomes de possíveis financiadores, quase sempre médios e pequenos empresários que financiaram excursões de ônibus para Brasília.
Foi a partir das denúncias reunidas pelo ministério que a PF conseguiu chegar a organizadores que foram presos, como o bolsonarista Ramiro Alves da Rocha Cruz Junior, conhecido como Ramiro dos Caminhoneiros, e a extremista Ana Priscila Azevedo, presa por participar dos ataques às sedes dos Três Poderes.
Com as informações colhidas no MJ, a PF conseguiu identificar os IPs e, consequentemente, os autores das mensagens de convocação aos ataques propagadas por redes sociais.
– Grande parte desses influenciadores que se mobilizaram para o ato passaram a divulgar seu pix mesmo que não tivesse evento sendo convocado. Bastou reparar: fez a live, no final termina com pix. O tempo todo falando do pix. O Ramiro é um exemplo clássico disso. É crime? Nem sei se é crime, mas bobo não é quem pede, é quem dá. O constante pedido de dinheiro que essas pessoas fazem é um indício forte de que tem gente vivendo disso. Vivendo da crença de pessoas de que podem abalar o estado democrático de direito. Tem gente que já está vivendo disso, passou a ser um modo de vida — afirma Pereira.
Outro personagem dos ataques de 8 de janeiro que teve o nome citado em dezenas de denúncias que chegaram ao MJ foi o mecânico Antônio Cláudio Ferreira, de 30 anos, que aparece nas câmeras de segurança do Palácio do Planalto jogando no chão o relógio de Dom João VI.
A princípio, a equipe liderada pelo secretário imaginou que as denúncias sobre o homem haviam partido de algum inimigo dele na cidade de Catalão, Goiás, porque os dados sobre ele não batiam com as mensagens. Mais tarde, conseguiram confirmar a identidade e encaminhá-la à PF.
Para Pereira, a comoção que os ataques geraram na população ajudou a atrair informantes para os canais de denúncia:
– Houve uma comoção social muito grande com o que aconteceu no dia 8, então grande parte da população quis ajudar de alguma forma, contribuindo. E essa ajuda foi muito importante. Muita gente ficou comovida com a destruição do patrimônio histórico. Muita gente ficou indignada. Gente até que nem acho que tenha votado no presidente Lula ficou revoltada, e denunciou. É um alento ver que esse tipo de conduta é rejeitado pela maioria esmagadora da população brasileira.
O governo Lula avalia tornar público, futuramente, o acesso ao conteúdo das denúncias, sem que as identidades dos autores e supostos criminosos dos e-mails sejam expostas.





