Após dois dias preso, o ambulante Daniel Mauricio, acusado de aplicar um golpe de mais de R$ 1.000 em um casal de turistas na orla de Copacabana se manifestou nas redes sociais. Ele afirma que não foi o responsável pela cobrança irregular e que também foi vítima da ação. Segundo seu relato, outro vendedor informal se ofereceu para concluir o pagamento em sua maquininha de cartão, e fugiu logo depois.
Ao Agenda do Poder o ambulante contou que cobrou os dois milhos por R$ 30, mas precisou pedir ajuda de terceiros porque a máquina de cartão que costuma usar não aceita cartões internacionais.
“Quando fui vender meu milho pra esse casal de gringo, fiz meu milho a R$ 15 cada um. Saiu a R$ 30 reais. Só que eles vem com cartão internacional, e minha maquininha às vezes não aceita. Como eu trabalho na praia há maior tempão, ‘papo’ de anos e nunca tinha me acontecido isso, o que que eu fiz? Cheguei em alguns amigos camelôs: ‘Qual é, parceiro, tem como emprestar a maquininha pra eu passar aqui pro gringo?’” contou.
Ainda de acordo com o ambulante, alguns colegas recusaram o pedido mas um outro ambulante se ofereceu para emprestar a máquina:
“Um cara virou e falou assim: ‘Pô, irmão, eu trabalho com a Infinity Pay, tenho a maquininha no meu celular.’ Ele veio, passou no cartão do gringo lá. Eu pensei que ele ia me fazer o Pix na hora. Eu dei as costas, fiquei conversando com um casal que estava do meu lado, convencendo eles a comprar o milho comigo. Quando vi, ele já tinha passado o cartão e sumido. Ainda tentei gritar ‘pega ladrão’, mas minha carrocinha é pesada, não deu pra correr atrás”, explica.
Depois disso, o casal de turista da República Dominicana reclamou sobre a cobrança exorbitante.
“Os gringos vieram na minha direção mostraram o valor que foi passado. Eu, como não sei falar a língua deles, fiquei só escutando o que eles estavam falando. Eles disseram que iam ligar pra polícia. Ainda tentaram discar o número errado. Tentaram ligar pro 191 e eu falei para eles: ‘É 190 o número da polícia.’ Ligaram, tentaram falar com eles lá, mas não estavam atendendo”, lembra.
Neste momento, o ambulante orientou que fossem até os guardas que estavam na patrulhando a orla. Foi quando a acusação aconteceu. “Eu falei: ‘Bora até os guardinhas que estão ali na calçada, que eles vão saber te designar melhor.’ Sabe o que os gringos fizeram? Pegaram e falaram que fui eu que roubei eles”, explicou, revoltado.
O vendedor foi preso em flagrante por estelionato após os turistas acionarem o Grupamento de Operações Especiais da Guarda Municipal. Ele conta que não teve oportunidade de se explicar na delegacia. “O delegado estava assistindo o jogo da Espanha e Portugal. Olhou pra minha cara e disse: ‘é esse aí o vagabundo?’ Nem escutou minha versão. Só a do gringo”, disse.
O ambulante foi liberado após audiência de custódia e segue trabalhando na orla. ”Eu passei dois dias em Benfica, do lado de gente que já matou, que já traficou, escutando de preso que ali não era o meu lugar”, lamentou.
Com o dinheiro das vendas, Daniel investe na carreira como MC. “Sou sujeito homem. Nunca roubei uma bala de um baleiro. Tô juntando dinheiro pra montar meu estúdio e gravar minhas músicas. Tô na pista 24 por 48”, disse.
O que diz a Guarda Municipal?
Procurada, a Guarda Municipal informou que os guardas municipais agiram de acordo com a atribuição legal, ”conduzindo o suspeito e as vítimas para a delegacia de Polícia Civil, a quem cabe a investigação e a apuração dos fatos”.
Ainda segundo a corporação, o outro ambulante fugiu quando percebeu que as vítimas acionaram a equipe da GM-Rio.
Reação
O caso provocou reação do Movimento Unido dos Camelôs (Muca), que emitiu uma nota criticando a cobertura midiática do caso e a atuação da Guarda Municipal. Leia na íntegra:
“A verdade é que o trabalho da mídia tradicional em marginalizar o trabalhador informal já é uma realidade reconhecida há algum tempo. O interesse de vender com sensacionalismo e reforçar estereótipos para beneficiar narrativas do interesse privado fica visível a cada ‘clickbait’. A notícia é divulgada sem que se ofereça espaço para defesa, alimentando preconceitos. Isso não pode ser considerado um trabalho jornalístico adequado.
Este camelô foi acusado injustamente, sem a mínima chance de presunção de inocência, apenas com base em uma denúncia vazia e na perseguição da GM-Rio que não precisamos nem detalhar aqui.
Estamos cansados de tanta injustiça. E agora, quem vai se retratar diante o impacto negativo da veiculação de uma notícia falsa que culpa o trabalhador sem lhe dar a oportunidade de se defender? Quem irá abrir espaço para essa voz silenciada?”
* Estagiária sobre supervisão de Thiago Antunes





