Câmara nas mãos de Altineu não será fator determinante para votação da urgência da Anistia

Dos Estados Unidos, Motta já sinalizou que nada deve andar antes da sua volta ao Brasil e sem a sua anuência

Felipe Amorim

Com a viagem do presidente da Câmara, Hugo Motta, para os Estados Unidos por dez dias, a Casa se encontra sob a presidência do fluminense Altineu Côrtes, fiel escudeiro de Bolsonaro. Vejam só a ironia: nesta segunda, sob as rédeas de Altineu, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, protocolou o requerimento de urgência para o projeto de lei que propõe a anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos três Poderes, em Brasília, foram invadidas e depredadas por manifestantes bolsonaristas. Mas, dos Estados Unidos, Motta já sinalizou que nada deve andar antes da sua volta ao Brasil e sem a sua anuência.

Apesar das pressões sobre Altineu, a Câmara funciona com uma pauta branda e pré-acordada nesta segunda. A Hugo Motta, Altineu assegurou que a liturgia do cargo será respeitada e que não haverá quebra de acordo. A manobra de emplacar a urgência é considerada estratégica por aliados da oposição, já que antecipa a tramitação da proposta e tira o projeto das comissões temáticas, acelerando sua ida direta ao plenário da Câmara. 

Em postagem nas redes sociais, Cavalcante explicou o motivo da antecipação:

“Acabo de protocolar o requerimento de urgência do PL da Anistia com 264 assinaturas. Diante da pressão covarde do governo para retirada de apoios, antecipei a estratégia. Agora está registrado e público: ninguém será pego de surpresa. Anistia já!”, escreveu o deputado.

Pressão da extrema direita por anistia vem crescendo

Segundo o sistema oficial da Câmara, o requerimento já contava com 262 assinaturas válidas — cinco a mais que o mínimo necessário (257) — e inclui nomes de deputados não apenas da oposição, mas também de partidos que integram formalmente a base de apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A iniciativa ocorre num momento em que crescem os apelos da direita e da extrema direita por anistia aos envolvidos no 8 de Janeiro. Desde o início do ano, aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro têm intensificado a articulação política para viabilizar a proposta, transformando o tema em bandeira prioritária.

Apesar da pressão política, o projeto enfrenta forte resistência jurídica e institucional, incluindo de membros do Supremo Tribunal Federal (STF), onde tramitam os processos relacionados aos atos golpistas. O próprio presidente Lula e integrantes do governo federal já se manifestaram contra a medida, apontando risco de impunidade e enfraquecimento da democracia.

A expectativa agora gira em torno de qual será a postura de Hugo Motta. Cabe ao presidente da Câmara decidir se o requerimento de urgência será incluído na pauta de votações do plenário. A tendência, segundo fontes do Congresso, é que ele adote uma posição de cautela, diante da polarização intensa que envolve o tema.

Nos bastidores, governistas avaliam que a antecipação feita por Sóstenes buscou blindar o apoio conquistado, evitando movimentações do Planalto para convencimento de parlamentares a retirarem seus nomes. Interlocutores do governo admitem preocupação com o número elevado de adesões, inclusive dentro de partidos da base, o que evidencia o potencial de desgaste político.

Conteúdo do projeto ainda não foi detalhado

A proposta de anistia, se aprovada, pode beneficiar condenados e réus que participaram da tentativa de ruptura institucional em janeiro de 2023. O projeto, no entanto, ainda não teve seu conteúdo detalhado publicado oficialmente, o que deve ocorrer nas próximas semanas.

Enquanto isso, o gesto de Cavalcante deve elevar ainda mais a temperatura no Congresso e pressionar o presidente da Câmara a definir sua posição — entre avançar com um tema controverso ou barrar uma iniciativa que mobiliza parte significativa dos parlamentares.

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