Brasil registra queda no número de salas de cinema e expõe crise no setor exibidor

Mesmo com aumento recorde de investimentos na produção audiovisual, cinemas enfrentam queda de público, pressão do streaming e cobram políticas públicas

O número de salas de cinema em funcionamento no Brasil voltou a cair após anos de recuperação gradual no pós-pandemia. Dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine) reportados pela Folha de S. Paulo mostram que o país conta atualmente com 3.538 salas ativas, ligeiramente abaixo das 3.545 registradas no fim de 2025. A retração, ainda que pequena, interrompe uma sequência de crescimento e reacende o alerta sobre a situação do setor exibidor.

A redução ocorre em um momento de contrastes no audiovisual brasileiro. Enquanto a produção de filmes e os investimentos públicos seguem em alta, as salas de cinema enfrentam dificuldades para atrair público e manter a sustentabilidade financeira.

Queda de público e mudança de hábitos

O recuo no número de salas acompanha a diminuição do público. Em 2024, os cinemas brasileiros registraram 126 milhões de espectadores. Já em 2025, o total caiu para 113 milhões, uma redução de cerca de 10%.

Mesmo com um volume expressivo de produções nacionais, muitos títulos não conseguem alcançar grande audiência. Levantamento da empresa Filme B indica que 54,7% dos filmes brasileiros lançados em 2025 não chegaram a mil espectadores nas salas.

Além disso, a bilheteria nacional ficou concentrada em poucos títulos. Dos 11,9 milhões de ingressos vendidos para filmes brasileiros no ano passado, metade foi destinada a apenas duas produções lançadas ainda em 2024.

Mais recursos, menos exibição

O cenário chama atenção especialmente pelo crescimento dos investimentos públicos. Em 2025, a Ancine desembolsou R$ 1,41 bilhão para o setor audiovisual, valor 29% superior ao de 2024 e 179% maior que o registrado em 2021.

A maior parte desses recursos, no entanto, segue concentrada na produção. Em 2023, cerca de 79% do Fundo Setorial do Audiovisual foi direcionado para a realização de filmes e programas de TV. Outras áreas, como distribuição, exibição e formação de público, receberam fatias bem menores.

No mesmo período, a produção nacional atingiu níveis recordes. Foram emitidos 3.979 Certificados de Produtos Brasileiros em 2025, um crescimento de 20% em relação a 2016.

Para exibidores, o desequilíbrio entre produção e circulação das obras ajuda a explicar a crise atual.

Pressão do streaming e busca por soluções

Diante desse cenário, donos e gestores de cinemas se reuniram em Salvador, durante o Festival Panorama, para discutir caminhos para o setor. O encontro incluiu o Seminário de Exibição, que chegou à sua segunda edição.

O cineasta Cláudio Marques avaliou que a diferença de organização entre produtores e exibidores contribuiu para o atual desequilíbrio.

“O produtor há décadas aprendeu a gritar, a fazer pressão. Coisa que o exibidor nunca fez. Na verdade, o exibidor sempre foi muito orgulhoso da sua capacidade de andar sozinho”, diz Marques. “O exibidor não tem o que o produtor sabe desde sempre, que precisa ter uma organização política.”

Além da disputa por recursos, o avanço das plataformas digitais também é visto como uma ameaça direta ao modelo tradicional de exibição.

“O streaming, depois da pandemia, criou um mercado que, se não tivermos uma política cultural para equilibrar, se deixarmos ao sabor da indústria cultural americana, vai engolir as salas de exibição.”

Cobrança por políticas públicas

A discussão sobre políticas públicas ganhou força no evento. O ex-ministro da Cultura Juca Ferreira afirmou que, embora haja mais recursos disponíveis, falta coordenação estratégica.

“Nós estávamos acostumados a lutar por mais recursos, porque o Ministério da Cultura sempre foi paupérrimo”, disse o ex-ministro. “Perdemos a noção da realidade. É preciso saber quanto vai se investir na produção, na distribuição, onde estão os gargalos”, diz Ferreira. “Não podemos produzir tanto filme e não ter exibição, não ter distribuição, não ter promoção”, afirma o ex-ministro.

Como resultado do encontro, exibidores elaboraram uma carta com reivindicações ao Ministério da Cultura. Entre os pedidos está a destinação de 10% do orçamento anual do audiovisual para políticas de acesso às salas e formação de público.

Também foi proposta a criação de um programa emergencial de R$ 120 milhões para levar cerca de 10 milhões de brasileiros aos cinemas, especialmente estudantes e pessoas de baixa renda.

Outra demanda é a definição de uma janela mínima de 180 dias de exclusividade para exibição nos cinemas antes da chegada dos filmes ao streaming.

“O que eu sinto que a classe está pedindo, os exibidores estão pedindo, é uma atitude imediata”, disse o cineasta José Araripe Jr.

Divergências e desafios internos

Apesar do consenso sobre a necessidade de ação, o setor também enfrenta divergências internas. Parte dos exibidores criticou a proposta do governo de ampliar o número de salas, defendendo que o problema atual não é a quantidade de espaços, mas a falta de público.

Outros especialistas, no entanto, argumentam que a expansão ainda é necessária, especialmente em regiões onde não há acesso ao cinema.

“Ainda há um enorme vazio cultural no país. Menos de 10% das cidades têm salas de cinema. Sem público, não existe indústria”, afirmou Alfredo Manevy, professor da Universidade Federal de Santa Catarina.

Já Kátia Morais, da Universidade do Estado da Bahia, destacou que a ausência de salas favorece o avanço do vídeo sob demanda.

“Onde não há sala de cinema, o VoD [vídeo sob demanda ou steraming] consegue chegar. E esse é um argumento importante das plataformas para disputar a agenda no Congresso”, afirma.

Nos bastidores, também houve críticas à estratégia de buscar aportes diretos do governo, vista por alguns como uma solução de curto prazo para problemas estruturais mais amplos.

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