Em um mundo obcecado por paraísos extensos de areia infinita, cinco praias fabulosas e minúsculas desafiam a lógica turística, medindo poucos metros de areia e, por outro lado, atraindo curiosos dispostos a pagar alto por porções pocket de paraíso. Localizadas na Itália, Austrália, Croácia, Espanha e Brasil, essas faixas esquálidas prometem exclusividade onde o “lotado” é um mito e o mergulho é quase particular.
Enquanto multidões disputam centímetros quadrados em Copacabana, na Espanha existe uma praia de 40 metros que sequer tem acesso direto ao mar, e, no Brasil, (o grande campeão desse inusitado quesito), uma ilha foi reduzida a pouco mais de 25 metros de praia, transformando o conceito de “pé na areia” por “dedinho na areia”.
Essas praias, com seus comprimentos irrisórios, zombam das extensões caribenhas ou tailandesas, oferecendo intimidade a preço de camarote VIP em alguns casos especiais, mas com o twist de que o “espaço vital” é literalmente medido em metros. Poucos, pouquíssimos metros, para ser bem sincero.
O que essas cinco praias têm de especial?
Essas praias minúsculas cativam não só pela beleza, mas pela raridade. Elas provam que o encantamento não precisa de grande extensão territorial. São conchas fósseis na Austrália, nudismo croata entre pinheiros, água salgada em pradaria espanhola, mas tudo em doses homeopáticas que, acredite, valem a jornada.
Afinal, o que move um ser humano adulto a atravessar oceanos, pegar barcos e encarar trilhas para, no fim do trajeto, se deparar com uma faixa de areia onde é impossível dar dez passos seguidos sem cair na água? A resposta, caro leitor, é o charme do inusitado _ e talvez um certo masoquismo turístico.
Cada uma dessas praias de cair o queixo, com extensões que variam de 150 a meros 25 metros, apresenta uma peculiaridade geológica que desafia a cartografia convencional. A imprensa especializada e o Guinness World Records (que, curiosamente, ainda não chegou a um veredito final sobre qual é a “menor praia do mundo”) já começaram a prestar mais atenção nesses fenômenos. E a cada novo candidato ao título, o que se vê é uma corrida silenciosa entre nações para ver quem consegue a proeza de ter a praia mais minúscula do planeta.

5º lugar – Isola Bella (Itália)
Ela é menos uma praia e mais um cenário de cartão-postal cuidadosamente esculpido. Localizada na comuna de Taormina, na Sicília, a Spiaggia di Isola Bella é uma joia barroca suspensa sobre as águas do Mar Jônico, e uma das faixas de areia mais disputadas da região, o que significa que seus 150 metros de extensão são divididos por centenas de turistas em dias de alta temporada.
Na maré baixa, uma estreita faixa de areia (ou melhor, de pequenas pedrinhas) conecta a ilhota ao continente, e é exatamente nesse pedaço de terra que se estabelece a “praia”. No restante do tempo, a água cobre o caminho, e a graça do lugar se revela: trata-se menos de uma praia convencional e mais de um convite à contemplação da natureza.
A ilha é tudo, menos isolada. Integrada à Reserva Natural de Isola Bella, a praia recebe estrutura completa de balneário: espreguiçadeiras, guarda-sóis, bares e restaurantes alinhados na areia. Para chegar até ela, o visitante pode pegar um teleférico a partir de Taormina até a praia de Mazzarò e, de lá, seguir a pé pela faixa de areia quando a maré está baixa. Teleférico à parte, a “caminhada subaquática” só é possível em momentos específicos do dia, o que exige do turista um mínimo de planejamento, algo nem sempre compatível com férias na praia.
Quanto aos custos: o ingresso de acesso à ilha custa 27 euros para adultos (cerca de R$ 165), podendo chegar a 40 euros no combo com a ilha vizinha Isola Madre. A estes, some-se o valor do teleférico, alimentação e hospedagem em Taormina, uma das cidades mais caras da Sicília. Ao final, o viajante terá pago uma pequena fortuna para disputar espaço em 150 metros de areia.

4º lugar – Shell Beach (Austrália)
Na vastidão da Austrália Ocidental, a Shell Beach é um paradoxo geográfico: é ao mesmo tempo imensa e minúscula. Sua porção “praia” propriamente dita (aquela onde se pode estender a toalha) tem cerca de 100 metros, mas a formação de conchas que lhe deu nome se estende por mais de 100 quilômetros ao longo da Shark Bay, atingindo profundidades de até 10 metros em alguns pontos.
Composta por bilhões de pequenas conchas brancas do molusco Fragum cockle, a praia não tem areia. O que já seria motivo suficiente para intrigar qualquer banhista acostumado aos areais tradicionais. A salinidade da água, duas vezes superior à do mar comum, faz o visitante flutuar como se fosse uma rolha. O que pode ser divertido, a princípio, até que se perceba que não há como afundar nem para escapar do sol escaldante australiano.
O isolamento, aqui, é geográfico, mas não total. Shell Beach fica a 44 km da cidade de Denham, dentro da Área de Patrimônio Mundial de Shark Bay, e é acessível por uma estrada de terra que qualquer veículo pode percorrer. No local, os visitantes encontram estacionamento, banheiros químicos (um luxo, considerando o ambiente hostil) e placas interpretativas que contam a história do molusco que domina a paisagem. Mas não há camping, nem venda de água potável, nem sombra para além daquela proporcionada pelo próprio carro.
Para chegar até a praia partindo de Melbourne, o custo mais baixo é de cerca de 391 dólares australianos (aproximadamente R$ 1.450), combinando voo e translado terrestre. Para quem parte de Perth, a viagem de carro leva cerca de um dia inteiro. Ao final do trajeto, o viajante terá atravessado metade da Austrália para pisar em conchas quebradiças, sob um sol de rachar, e talvez se perguntar se não teria sido mais sensato ficar em casa vendo uma documentário sobre cangurus.

3º lugar – Paklina Beach (Croácia)
Na ensolarada ilha de Brač, ao sul da badalada praia de Zlatni Rat, esconde-se a Paklina Beach, um refúgio para quem busca o que há de mais autêntico (ou talvez constrangedor) no turismo europeu. Com pouco mais de 80 metros de extensão, segundo a revista Travel, a praia é formada por seixos e pequenas pedras, ladeada por uma vegetação rasteira que oferece sombra nos dias mais quentes.
Seu grande diferencial, no entanto, não está na paisagem, mas na política de vestimenta. Paklina é uma praia naturista FKK (Freikörperkultur, ou “cultura do corpo livre”), onde a nudez é não apenas permitida, mas incentivada. Entre um mergulho e outro nas águas cristalinas do Adriático, o visitante desavisado pode se deparar com cenas que nenhum guia de viagem descreveria com detalhes, e que certamente não reproduziremos neste artigo em respeito aos leitores.
Embora seja considerada uma praia “selvagem” por alguns guias, Paklina oferece infraestrutura surpreendentemente completa para os padrões croatas: chuveiros externos, vestiários, aluguel de espreguiçadeiras e guarda-sóis, quiosques de praia, restaurantes, bares e até uma pequena loja de souvenirs. Para os mais ativos, há opções de jetski, vôlei de praia, tênis, parasailing e até uma piscina de bolinhas inflável para crianças. Tudo isso em uma faixa de areia onde, teoricamente, a proposta é justamente o oposto do artificialismo.
O acesso à ilha de Brač é feito por balsa a partir da cidade de Split, com travessia que custa cerca de 4 euros por pessoa (aproximadamente R$ 24) mais 21 euros por veículo. Uma vez em Bol, a cidade mais próxima, Paklina fica a cerca de 15 minutos a pé da badalada Zlatni Rat. O viajante terá então a oportunidade única de pagar por uma cadeira de praia, comprar um sorvete e ouvir música ambiente completamente nu, como a natureza (e o capitalismo tardio) planejaram.

2º lugar – Playa de Gulpiyuri (Espanha)
Os órgãos de turismo da Espanha jogam pesado para dar a essa pequena praia o título de “a menor do planeta”. Mas a realidade é diferente das ações de marketing turístico. Localizada em Llanes, nas Astúrias, a cerca de 100 metros da costa do Mar Cantábrico, esta pequena enseada de 40 metros de comprimento não tem acesso direto ao oceano. E esse detalhe é o mais bacana.
A água salgada chega até ela através de um complexo sistema de túneis e cavernas subterrâneas esculpidas pela erosão milenar. O resultado é uma piscina natural de água salgada no meio de um pasto verde, um fenômeno tão bizarro quanto belo, que já rendeu à praia o título de Monumento Natural do Principado das Astúrias em 2001. O visitante que espera encontrar o barulho das ondas e a maresia típica das praias se surpreende ao ouvir apenas o mugido de vacas pastando nas redondezas. O que, convenhamos, tem lá seu charme.
Em termos de infraestrutura, Gulpiyuri é o oposto de Isola Bella. Não há bares, nem banheiros, nem aluguel de espreguiçadeiras. Apenas um curto e íngreme caminho de terra que desce até a areia, cercado por prados e cercas de fazenda. O acesso é feito a partir da pequena aldeia de Naves, saindo da rodovia A-8 pela saída 313; há um pequeno estacionamento sinalizado nas proximidades, mas nenhuma placa indica a existência da praia — como se os asturianos quisessem preservar o segredo da natureza, ou apenas se divertissem vendo turistas rodando perdidos pelos campos.
A visita é gratuita, mas exige alguma logística. A praia só aparece em todo seu esplendor na maré alta; na maré baixa, ela desaparece pelos túneis, restando apenas a areia dourada e a frustração do viajante desinformado. Assim, o turista que não consultar a tabela de marés antes de visitar Gulpiyuri terá a experiência única de contemplar uma praia sem água. O que não deixa de ser uma metáfora perfeita para certos investimentos turísticos duvidosos.

1º lugar – Praia da Selinha (é do Brasil)
E no topo desse inusitado pódio, a Europa mais uma vez se rende ao Brasil. Porque a menor praia do mundo é a Praia da Selinha, de apenas 25 metros, localizada na Ilha da Selinha (também conhecida como Ilha Rachada), a cerca de 2 km da costa de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo.
A prefeitura de Ubatuba já manifestou interesse em incluir a praia no Guinness World Records como a menor do planeta, mas a empreitada esbarra num pequeno detalhe: o próprio Guinness informou que atualmente anda não há consenso para o registro da “menor praia do mundo”.

Do ponto de vista da infraestrutura, a Praia da Selinha é o caso mais extremo desta lista: zero. A praia está em uma área de preservação ambiental de Mata Atlântica, cercada por costões rochosos, e o desembarque é proibido para proteger o ecossistema local. A visita, portanto, só pode ser feita de forma panorâmica, em passeios de lancha que circundam a ilha sem aportar. É uma experiência que alguns chamam de “turismo de contemplação” e outros, mais chatos, chamam de “ver a praia de longe e voltar”.
Os passeios partem do Saco da Rita, em Ubatuba, com custos que variam entre R$ 80 e R$ 150 por pessoa, dependendo da duração e da empresa contratada. Ao final do trajeto, o turista terá pago para ver (mas não tocar) uma faixa de areia que pode até não ser a menor do mundo, mas é certamente uma das mais inacessíveis. Resta saber se isso é um atrativo turístico ou apenas uma aula de geografia sobre limites ambientais.

Menção honrosa – Praia da Paciência (Brasil)
A Praia da Paciência, em Penha no litoral norte de Santa Catarina, é uma das menores do Brasil, com praticamente o mesmo tamanho da Praia da Selinha. A origem de seu nome, ao contrário do que muitos imaginam, não tem relação com a lotação nos dias de sol, mas sim com a função do pescador da região: antigamente, quem estava no alto do Pico da Vigia observava o movimento da água e sinalizava para o companheiro na praia, que ali esperava com paciência.
Ela possui águas claras e calmas, recortadas por formações rochosas desgastadas que criam piscinas naturais e um cenário propício para a prática de mergulho livre, stand up paddle e caiaque. Sua faixa de areia é tão diminuta que cabe inteira em uma única foto, fato que não a impede de ser, curiosamente, uma das praias mais procuradas da cidade.
Diferente de suas concorrentes ao título de “menor do mundo”, a Praia da Paciência é tudo, menos isolada. A prefeitura local garante infraestrutura completa para receber os banhistas: passarela de acesso, estacionamento, quiosque e banheiros públicos. Há até mesmo um pequeno bar que funciona durante a temporada para matar a sede dos aventureiros. Que, convenhamos, não tiveram muito trabalho, já que o local é acessível de carro por uma estrada comum.
Para chegar, basta pegar a estrada que leva ao Pico da Vigia e, em vez de subir, virar à esquerda e descer até o mar. A dica, repassada por viajantes no Tripadvisor, é chegar cedo: o estacionamento privado da região (com duchas e banheiros) custa cerca de R$ 20,00. Só que as vagas são tão disputadas quanto os 25 metros de areia.
Quanto ao custo total da empreitada: para quem vem de São Paulo, um voo para o Aeroporto de Navegantes (NVT) — localizado a apenas 15 km de Penha — pode ser encontrado a partir de valores variáveis, com trechos diretos operados por Gol e LATAM em cerca de 1h05 de voo. Uma vez em solo catarinense, a praia espera por você com águas cristalinas, estrutura de resort e a garantia de que, na maré alta, o maior perigo não é a correnteza, mas sim pisar no pé do vizinho.


Deixe um comentário