Brasil lança no G20 a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, projeto de alcance internacional de combate à desigualdade social

Daniel Souza, filho do sociólogo Betinho: inspirador do projeto, no galpão do lançamento (Foto)

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lança nesta quarta-feira (24) uma proposta que pretende dar dimensão internacional ao combate às desigualdades sociais e deve receber os primeiros anúncios de apoio financeiro de outros países.

A Aliança Global contra a Fome e a Pobreza é a principal bandeira do Brasil no G20. O evento desta quarta no Rio de Janeiro contará com a presença de Lula. O governo chama o ato de “pré-lançamento”, sob o argumento de que o projeto só será oficializado em novembro, na cúpula do Rio.

O Galpão da Cidadania, lugar escolhido para o pré-lançamento da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza no âmbito do G20, é repleto de história e simbolismos. A estrutura abriga a sede da Organização Não Governamental Ação da Cidadania. Criada há 31 anos pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, para arrecadar alimentos para milhões de brasileiros que estavam abaixo da linha da pobreza, a ONG é referência internacional na atuação pelo direito à alimentação.

Um dos pilares da proposta se apoia em uma espécie de repositório de políticas de assistência social consideradas exitosas ao qual países poderão recorrer para desenvolver medidas semelhantes em seus territórios.

Além de governos, também poderão se juntar organizações internacionais, bancos multilaterais e outras entidades.

A expectativa é a de que Brasil e Bangladesh sejam os primeiros países a aderirem formalmente à iniciativa. O país já obteve sinalizações da Espanha e da Noruega sobre contribuições financeiras para dar o impulso inicial à estrutura institucional da aliança contra a fome —o governo Lula deve arcar com metade dos custos da estrutura administrativa do projeto.

Apesar de já ter conseguido essas primeiras promessas, o Brasil não conseguiu emplacar no documento fundacional um compromisso firme de todos os países do G20 sobre ajuda com recursos.

Ao todo, a presidência brasileira vai divulgar quatro documentos, entre eles um texto com os critérios para inclusão de políticas públicas em um “cardápio” de ações sociais que será ofertado aos interessados pela iniciativa.

A aliança será guiada pelo conceito de facilitar a conexão entre países, organizações e fontes de financiamento disponíveis para ações de combate à fome. Seu objetivo será ajudar no desenho de políticas sociais específicas para determinados países que solicitem ajuda, indicando também soluções para a obtenção dos recursos de implementação.

O Brasil se coloca num papel central nesse processo como possível exportador de casos de sucesso, seja pelo histórico de políticas sociais em larga escala, como o Bolsa Família e o Cadastro Único, seja pela imagem de Lula como um líder empenhado no combate às desigualdades.

No documento fundacional do projeto, os países do G20 reconhecem que acabar com a pobreza é um desafio global e pré-requisito para o desenvolvimento sustentável.

Os governos também dizem no texto que nos últimos anos houve retrocessos nos objetivos do desenvolvimento sustentável de erradicação da pobreza e fome zero por diversas razões: mudanças climáticas, pandemia, crise econômica e conflitos.

A declaração deve apontar ainda para gargalos existentes para o financiamento de ações de enfrentamento à redução das desigualdades, por causa de restrições orçamentárias nos países ou pela fragmentação de projetos, muitas vezes em diferentes organizações não governamentais.

Os últimos meses foram de negociações para conseguir elaborar textos de lançamento da aliança que fossem aceitáveis para todos os países envolvidos —membros do G20 e alguns convidados.

Além do documento político que marca a criação da iniciativa, haverá um modelo para o termo de compromisso que os países que aderirem precisarão assinar e um texto com o detalhamento sobre a estrutura de funcionamento da aliança.

Representantes estrangeiros disseram à Folha que a proposta brasileira dá um impulso político ao enfrentamento à pobreza que faltava na agenda internacional.

Mas o processo de negociação teve percalços, e o governo Lula foi obrigado a ceder em alguns pontos, principalmente naqueles relacionados à estrutura da aliança e a compromissos de financiamento.

Desde o início, países do G20 questionaram qual seria o valor agregado da proposta, uma vez que o enfrentamento a fome já é alvo central de ações da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) e do PMA (Programa Mundial de Alimentos).

Também houve resistência de países para aceitar documentos que fossem promessas de recursos.

O documento inicial, que circulou no início do ano, dizia por exemplo que os países iriam “apoiar a Aliança Global no processo de reunir e alavancar recursos e experiências para canalizá-las onde elas são mais necessárias”.

Diferentes governos disseram que a linguagem era vinculante e que, sem alterações, em alguns casos eles precisariam até mesmo de autorização dos seus legislativos para aderir à aliança.

Com informações da Folha de São Paulo e da Secretaria de Comunicação do Governo Federal

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