Com o Mercosul sob pressão para rever suas regras, o Brasil articula uma estratégia diplomática para proteger suas exportações à Argentina, diante da possível aproximação comercial entre o presidente argentino, Javier Milei, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Nesta quarta-feira (10), representantes dos países-membros do bloco sul-americano se reúnem em Buenos Aires, em um encontro que pode definir os rumos da integração regional. As informações são de Jamil Chade, colunista do portal UOL.
Milei, que exerce atualmente a presidência temporária do Mercosul, tenta flexibilizar as normas do bloco para abrir caminho a um acordo bilateral com Trump. O plano, no entanto, preocupa o Itamaraty, que teme ver produtos brasileiros perdendo espaço para concorrentes estadunidenses em um dos mercados mais relevantes para a indústria nacional.
Interesses em jogo no Mercosul
Para firmar um acordo com os Estados Unidos, Milei precisa contornar uma das cláusulas centrais do Mercosul: a obrigação de que qualquer tratado comercial seja negociado em conjunto por todos os países membros. Essa exigência faz parte do conceito de união aduaneira, que estabelece tarifas comuns para produtos vindos de fora do bloco.
Ainda em abril de 2025, durante uma reunião de chanceleres em Buenos Aires, o Brasil aceitou flexibilizar essa regra em caráter excepcional. A medida foi uma tentativa de manter a coesão do bloco diante das ameaças de Milei de retirar a Argentina da aliança — uma decisão que poderia enfraquecer consideravelmente o Mercosul, tanto política quanto economicamente.
Apesar das tensões diplomáticas entre Milei e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Itamaraty cedeu espaço e concordou com a criação de uma lista de exceções tarifárias. Cada país poderia selecionar até 50 produtos que não estariam sujeitos à Tarifa Externa Comum (TEC) — uma mudança significativa na estrutura de funcionamento do bloco.
Na ocasião, os chanceleres emitiram uma nota conjunta destacando que os países membros “concordaram quanto à importância de enfrentar os desafios apresentados pelo atual contexto internacional”. A nota também registrava que “nesse marco, concordaram com a necessidade de ampliar temporariamente a Lista Nacional de Exceções à Tarifa Externa Comum de cada Estado Parte para até 50 códigos tarifários”.
Preocupação brasileira com produtos estratégicos
Apesar da abertura inicial, o governo brasileiro quer agora estabelecer salvaguardas para que o novo regime não prejudique setores industriais estratégicos do país. O Itamaraty deve apresentar dois princípios-chave nas discussões com os argentinos:
- Diversificação setorial nas listas de exceção – A proposta visa impedir que os 50 produtos escolhidos por cada país se concentrem em um único setor da economia. Isso evitaria, por exemplo, que o acordo beneficie exclusivamente o setor automotivo ou de bens de capital, em detrimento da indústria brasileira.
- Preservação de setores sensíveis para o Brasil – O segundo princípio busca estabelecer um diálogo direto com o governo argentino para garantir que produtos considerados estratégicos para o Brasil não sejam incluídos nas listas de exceção tarifária dos parceiros.
Essas salvaguardas são consideradas essenciais em um momento de intenso intercâmbio comercial entre os dois países. Apenas entre janeiro e maio de 2025, o Brasil exportou US$ 7,5 bilhões para o mercado argentino. No mesmo período, as importações de produtos argentinos somaram US$ 5,1 bilhões.
A disputa por influência e os riscos da abertura unilateral
A iniciativa de Milei em flexibilizar os vínculos com o Mercosul e buscar acordos bilaterais com potências externas não é nova, mas ganha novo fôlego com a perspectiva de Trump retornar ao poder nos EUA. O presidente argentino aposta em uma aliança ideológica e comercial com o presidente estadunidense, alinhando-se ao discurso liberal e antiglobalista.
Internamente, no entanto, essa postura representa um desafio para a coesão do Mercosul e pode abrir um precedente perigoso: se cada país puder negociar acordos individualmente, a lógica da união aduaneira se enfraquece e a competitividade de indústrias locais, como a brasileira, pode ser colocada em risco frente a concorrentes mais agressivos, como os estadunidenses.
Diante desse cenário, a diplomacia brasileira busca um equilíbrio delicado: preservar a unidade do bloco, respeitar a autonomia de seus parceiros e, ao mesmo tempo, proteger o espaço conquistado pelas empresas nacionais em mercados vizinhos.
Com negociações sensíveis à vista e interesses geopolíticos em jogo, o encontro em Buenos Aires pode marcar um ponto de inflexão nas relações comerciais do Mercosul. Para o Brasil, a palavra de ordem é uma só: blindagem estratégica.





