Brasil 2026: a eleição suspensa entre duas memórias e dois medos

Análise de pesquisa Atlas Bloomberg indica equilíbrio entre Lula e Flávio Bolsonaro, com disputa marcada por memória política, rejeições cruzadas e voto motivado pelo temor do adversário.

  * Paulo Baía

Há momentos em que uma pesquisa de opinião deixa de ser um conjunto de percentuais e se transforma em espelho inquieto de uma sociedade que hesita diante do próprio destino. Fevereiro de 2026 não é apenas uma data no calendário eleitoral. É um ponto de inflexão simbólico em que o Brasil se olha e se pergunta quem é, o que ainda carrega do passado recente e o que teme repetir. A Pesquisa Atlas Bloomberg, realizada entre 19 e 24 de fevereiro de 2026, com 4.986 respondentes, margem de erro de um ponto percentual e nível de confiança de 95 por cento, registrada no TSE sob o número BR 07600 2026, não entrega apenas cenários. Ela revela tensões estruturais. Ela expõe fissuras que atravessam classe, território, geração e memória política. E, sobretudo, indica que, com os dados disponíveis, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem com probabilidades semelhantes tanto para vencer quanto para perder a eleição de outubro de 2026.

Essa simetria é o dado político mais eloquente do relatório. Não se trata de empate mecânico. Trata-se de um equilíbrio instável, sustentado por forças sociais que se anulam e se alimentam mutuamente. O Brasil não se encontra diante de uma hegemonia consolidada nem de uma ruptura iminente. Está diante de uma disputa aberta, emocionalmente carregada, tecnicamente competitiva e sociologicamente complexa.

A metodologia utilizada pela Atlas, o chamado recrutamento digital aleatório, Atlas RDR, constitui um dos pilares interpretativos da pesquisa. Os entrevistados são captados durante a navegação rotineira na internet, em ambientes geolocalizados, em diferentes dispositivos, com garantia de anonimidade. A amostra é posteriormente calibrada por sexo, faixa etária, nível educacional, renda, região e comportamento eleitoral anterior, de modo a aproximar o conjunto dos respondentes do perfil da população adulta brasileira. O tamanho da amostra, quase cinco mil entrevistas, reduz a margem de erro e permite recortes demográficos consistentes.

Do ponto de vista técnico, há robustez. A pós estratificação por múltiplas variáveis fortalece a representatividade estatística. A margem de erro reduzida confere maior precisão às estimativas. A coleta concentrada em poucos dias evita distorções provocadas por eventos sucessivos que contaminem longos períodos de campo. A anonimidade tende a reduzir o viés de desejabilidade social, especialmente relevante em contexto polarizado, no qual declarar voto pode ser percebido como ato moral.

Mas nenhum método é imune a limitações. O recrutamento digital opera em um ecossistema específico. Ainda que a amostra seja calibrada para refletir a composição demográfica nacional, a origem da interação é o ambiente online. Isso significa maior exposição a fluxos intensos de informação, maior presença de eleitores politicamente mobilizados e potencial amplificação de opiniões mais polarizadas. Grupos com acesso mais restrito à tecnologia podem estar representados numericamente, mas sua experiência cotidiana não é mediada pelo mesmo volume de disputas narrativas. A metodologia capta com precisão a temperatura do Brasil conectado. O Brasil menos conectado pode reagir de modo mais silencioso, menos visível, embora estatisticamente ponderado.

Essa tensão metodológica não invalida os resultados. Ela delimita o alcance interpretativo. A pesquisa é consistente no que se propõe, mas exige leitura sociológica que considere o ambiente de produção das respostas.

O primeiro módulo substantivo mede aprovação presidencial e avaliação de governo. A distinção é crucial. Aprovação diz respeito à figura, à liderança, à identidade simbólica. Avaliação de governo diz respeito à percepção de desempenho, eficiência administrativa, entrega de políticas públicas. Em sociedades polarizadas, essas duas variáveis nem sempre caminham juntas.

Para Lula, há sinais que podem ser considerados favoráveis. Se sua aprovação pessoal se mantém resiliente, mesmo diante de críticas específicas à economia ou à gestão, isso indica que seu capital simbólico ainda opera como força agregadora. O lulismo, nesse caso, permanece como identidade política ativa. A biografia, a narrativa histórica e a memória de governos anteriores continuam a produzir vínculo. Isso é boa notícia para o presidente. Significa que ele não depende apenas da conjuntura econômica imediata. Ele se apoia em uma trajetória.

No entanto, há também elementos que podem ser interpretados como desfavoráveis. Caso a avaliação do governo apresente desgaste consistente e esse desgaste contamine progressivamente a aprovação pessoal, a distinção entre carisma e desempenho se dissolve. O presidente passa a ser responsabilizado diretamente por cada indicador negativo, por cada percepção de ineficiência, por cada frustração cotidiana. Nesse cenário, a vantagem simbólica se reduz. O incumbente deixa de pairar acima da conjuntura e passa a ser medido exclusivamente por ela.

A repetição hipotética do cenário de 2022 é um teste de memória coletiva. Ao perguntar como o eleitor votaria caso os candidatos fossem os mesmos da eleição anterior, a pesquisa mede persistência da clivagem que estruturou o país nos últimos anos. Se Lula mantém vantagem nesse exercício de rememoração, a polarização continua a favorecê-lo. O antibolsonarismo permanece ativo, organizado, mobilizado. Isso é positivo para ele.

Mas se a vantagem diminui, ou se há crescimento significativo do campo adversário nessa simulação, surge sinal de fadiga da polarização original. O eleitor pode estar menos disposto a reviver o confronto de 2022. Pode desejar nova configuração, novo discurso, novo tom. Nesse caso, a memória deixa de ser ativo automático e passa a ser peso ambíguo.

Nos cenários de primeiro turno com Lula, a pesquisa mede capacidade de hegemonia. Liderança com margem confortável indicaria que o presidente consegue agregar além de seu núcleo ideológico. Isso significaria que ele atrai eleitores pragmáticos, moderados, interessados em estabilidade. É um cenário favorável.

Entretanto, liderança estreita ou empate técnico com adversário competitivo transforma a eleição em disputa aberta. O primeiro turno deixa de ser demonstração de força e passa a ser campo de incerteza. Fragmentação da direita pode beneficiar Lula, mas também pode mascarar consolidação de um nome capaz de unificar o campo conservador no segundo turno.

O cenário de primeiro turno com Fernando Haddad introduz variável estratégica. Ele mede a capacidade de transferência do capital político do lulismo. Se Haddad apresenta desempenho próximo ao de Lula, há institucionalização do projeto político. Isso seria excelente notícia para o campo progressista. Indica que o eleitor vota em programa, não apenas em biografia. Indica maturidade partidária.

Se, por outro lado, Haddad performa muito abaixo, o lulismo revela traço personalista acentuado. O projeto depende da presença direta de Lula. A sucessão se torna frágil. Esse é um risco estrutural para o campo governista. Ele pressiona o presidente a permanecer central na disputa e dificulta renovação.

O segundo turno altera completamente a lógica do voto. Ali o eleitor não escolhe apenas quem prefere. Escolhe quem teme menos. A pesquisa inclui perguntas sobre qual resultado causa mais medo ou preocupação. Essa dimensão afetiva é decisiva. Eleições contemporâneas são, em grande medida, disputas de temor comparado.

Para Lula, a boa notícia seria manter vantagem consistente contra qualquer adversário no segundo turno. Isso indicaria que sua rejeição é inferior ou mais administrável. A má notícia seria enfrentar empate técnico ou desvantagem contra candidato conservador que represente renovação menos radical. Nesse caso, parte do eleitorado pode optar por alternância como forma de reduzir tensão política acumulada.

Em relação a Flávio Bolsonaro, a leitura é igualmente ambivalente. Sua força está na continuidade do capital simbólico do bolsonarismo. Se aparece competitivo contra Lula, significa que o campo conservador mantém densidade social relevante. Isso é favorável. Indica que a identidade política construída nos últimos anos não se dissipou.

Mas a rejeição é variável central. Se a taxa de eleitores que declaram não votar nele de jeito nenhum é elevada, seu teto eleitoral se torna rígido. Em segundo turno, ampliar apoio exige atrair eleitores de centro e moderados. Rejeição elevada dificulta esse movimento. A boa notícia para Flávio seria apresentar rejeição inferior à do adversário, tornando-se opção menos temida. A má notícia seria carregar rejeição consolidada que bloqueie crescimento além do núcleo fiel.

A confiança temática por áreas de governo adiciona camada sofisticada. O eleitor pode confiar em Lula para políticas sociais e desconfiar dele na economia. Pode confiar em Flávio para segurança e desconfiar na gestão macroeconômica. Essa segmentação revela sociedade menos simplista do que o debate digital sugere. Campanhas que ignorarem essa complexidade correm risco de reduzir discurso a slogans identitários e perder eleitores pragmáticos.

O dado central permanece. Com os números disponíveis, Lula e Flávio Bolsonaro estão em posição simétrica. Ambos possuem caminhos plausíveis para a vitória. Ambos enfrentam riscos reais de derrota. A eleição de outubro de 2026 não apresenta favorito incontestável. Apresenta disputa aberta, sustentada por rejeições cruzadas e identidades sólidas.

O Brasil que emerge da pesquisa é um país que vota com memória e com cálculo. Há nostalgia e há exaustão. Há fidelidade ideológica e há pragmatismo silencioso. O eleitor não é caricatura. Ele pode temer um resultado e ainda assim rejeitar o outro com intensidade maior. Ele pode dividir confiança por áreas e decidir na última hora.

Metodologicamente, a pesquisa oferece base consistente para leitura nacional. Suas possíveis inconsistências derivam mais da natureza do ambiente digital do que de falhas estatísticas. Ela captura intensidade do debate conectado. Pode subestimar nuances do silêncio social. Ainda assim, dentro de seus parâmetros, é instrumento robusto de análise.

Para Lula, o cenário mistura força simbólica e risco de desgaste administrativo. Para Flávio Bolsonaro, mistura energia identitária e barreiras de rejeição. Nenhum dos dois atravessa a disputa sem vantagens. Nenhum dos dois caminha sem vulnerabilidades.

A eleição de 2026, à luz dessa pesquisa, será menos sobre promessa inédita e mais sobre comparação de riscos. O eleitor escolherá não apenas quem governa, mas qual passado aceita reviver e qual futuro considera suportável. Entre duas memórias e dois medos, o Brasil decidirá seu próximo capítulo.

          * Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading